Tuesday, February 21, 2006

Eu era um menino

Eu era um menino, quando acordei com sede de madrugada, e havia um imenso buraco que separava meu quarto do resto da casa: uma rachadura tão funda no terra, que ia dos meus pés até quase tocar o Japão . E do outro lado do abismo, vi papai colhendo pimentas da sua horta. Eu gritei: “pai”, como eu gritava se algo doesse no meio da noite, mas ele estava tão longe e as pimentas tão vermelhas. Depois vi passar mamãe com um vestido rosa claro, estava bonita, cantava e roçava uma mão na outra como uma cigarra canta para fazer chover. Para o jantar chegaram meus irmãos e suas namoradas, e sentaram-se todos à mesa e casaram e fizeram filhos e construíram suas próprias casas - eu do outro lado do abismo, mas falavam coisas que eu já não entendia. Às vezes, quando tocava o telefone, mamãe corria para atender.

2 comments:

Areia said...

Sobre o primeiro parágrafo de "Notas"....
Ainda ontem me questionava exatamente sobre isso: a originalidade é uma miragem...

Fabiane said...

Eu não comento sempre, mas leio sempre. E adorei esse conto. Dizem que os sonhos têm recursos misteriosos chamados deslocamento pra que a gente dê conta de esvaziar a nossa cabeça e acalmar o coração. Esse conto-sonho é a metáfora mais objetiva, e ainda sim literária, ainda assim metáfora, que eu já li. Eu leio e vejo você. No telefone, do outro lado do abismo. Mas o engraçado é que ao invés de pensar "coitado", eu penso "danado", do jeito mais doce e orgulhoso que se pode pensar. Bjos saudosos, Fabi