Sunday, March 12, 2006

Quando não era amor

Para Diego Vivar

Você tinha um sorriso que rasgava os quarteirões, que abria meu estômago em sede, quando não era amor. Eu lembro que fomos juntos para a praia e mal sabíamos nossos nomes (mas é que ainda não havia nome para o que era nosso, porque não era amor). E nos preocupávamos muito pouco com isso tudo e muito mais com o agrado do nosso perfume e com a barba especialmente mal feita. E o que íamos pensar de nós mesmos? Porque tudo era primeiro na primeira versão de sua história, e eu, feito bobo, tentava escapar das cores escondidas nos seus olhos. E enquanto me falava dos seus pais e dos seus cachorros feios, eles eram rostos sem traços nem forma, eram qualquer coisa que se perdoa, que se releva. Mesmo quando eu não concordei com seu partido político, e os seus discos de música eram uma merda; mesmo quando eu ri de seu ridículo, te respeitava mais, porque ainda não era amor. Naquele tempo, eu perdoava as suas coisas sujas, te completava nas minhas idéias e remendava seus silêncios sem mágoa. Eu dizia que era o "seu tempo", que as "pessoas precisam de espaço" .Quando ainda não havia nome para isso tudo, éramos largos como a tarde de verão, mas fazíamos na barriga o frio de março.

E hoje estamos aqui dos dois lados da cama, cheios de recortes e fotografias. Hoje nos amamos para sempre, e acordamos cedo, e temos preguiça de nós. Quando você me olha, eu vejo o inverno de todo dia nublado, e eu sei que você me ama nesse inverno, eu acredito nesse inverno, mas é que todo amor tem saudade do que era, quando não era amor. Todo nome, se pudesse escolher, se calaria em silêncio e teria as mãos frias e suadas para sempre. Minhas mãos estão secas, eu conheço o seu corpo e os seus pais. E voltar àquela tarde de março para sentir de novo todo embaraço no seu riso parece impossível. Se não fosse, eu diria: “não te amo” só para te ver caminhar de novo por seus velhos becos escuros. Eu queria conhecer cada uma das nossas histórias pela primeira vez.

Você pegou a minha mão e disse que eu tinha a mão fria como a de um defunto, eu expliquei que eu já havia morrido dezenas de anos atrás, e aí você contou que uma vez encontrou uma cadela na rua, e, de tão feia, a adotou e batizou: “princesa”, eu ri e falei que adorava esse cheiro de mar, e você pediu um café americano com chantilly, eu, uma coca-light com limão e gelo. E ficamos assim parados na eternidade de um flerte, e passaram-se horas sem que eu piscasse, porque não era amor. Não será a mesma coisa, quando esta noite eu disser: "eu não te amo mais", juntar as minhas roupas, os meus discos e ir embora. Não será como voltar para antes de tudo, antes do ranço, da preguiça, do beijo na testa, quando as pessoas ainda iam de moletom para a praia de Barceloneta, o sol baixava à tarde, e éramos suficientes.

Hoje, vou levar comigo aquela camisa verde, vou cortar o meu cabelo como era naquele retrato. Amanhã, vou sentar no mesmo lugar, e, se você passar por ali, por favor, não saiba o meu nome, nem diga que o meu gênio é ruim. Se quando me vir, mesmo assim, quiser se sentar, pergunte: “você está só?”, depois puxe uma cadeira e conte uma história tão estranha, que me faça morrer de rir.

11 comments:

Anonymous said...

É...nao era amor! Paixao!Mas, relaxa...nao è sua pior versao! Só que nao me pareceu muito genérico...impressao???? Abraços Blessed..oooo...Damned tripper!

Guto said...

qdo não era amor... nunca havia pensado nisso. vou levar pra refletir essa semana. saudades de vc. sempre. vem logo, e vamos juntos para a holanda! bjo gde. ótimo texto.

Fabiane said...

Adorei o texto. Entrou para a minha coletânea dos preferidos de Bob! ;) Leonino gosta de elogio, né? Então vou falar mais: sua sensibilidade e a facilidade de transformar sentimentos em palavras fazem de você um escritor de entranhas, franco e sem pudores. Eu admiro isso mais do que poderia dizer aqui! Bjos e saudades, meu amigo. Fabi

Ygor Marotta said...

mais um de seus belos textos!
parabéns!
[]s
Ygor

Cristiano said...

Porque para algumas coisas o oxigenio aliado a olhares falam mais que palavras e faz dos sentidos o verdadeiro sentido de se estar vivo.
cristianobertaso@hotmail.com

Gaia said...

Nunca deixei de "escrever" uma carta...já deixei sim de "enviar" algumas...e ficaram todas guardadas e emboloradas numa velha caixa. Se me arrependo? Com certeza sim...emoções são para serem compartilhadas e não encaixotadas, mesmo q não sejam compreendidas, já vale a intenção proferida.
Gaia.

Camila said...

E aí Bober! Nunca mais escreveu pra mim! Lembrei muito de vc lá no Rio... "O Rio de Janeiro continua lindo..." Quando volta para falarmos inglês??? Lendo seus textos sinto muitas saudades... Quando não era amor, bom pra se pensar... Beijos!

Larissa said...

Parece absurdo...mas o que não é absurdo se olhado bem de perto??Tenho que te agradecer por ter seus textos pra ler quando começo a me tornar humana demais...É o que me salva e me tira desse mundo de realidades tão cruas e cruéis...É quando eu entro num vão da estória,confortante como colo de mãe, onde o tempo pára e me deixa ali conversando com meu silêncio...

felipemorozini@yahoo.com.br said...

há muito tempo isso não acontecia comigo...quero sorrir de tanto chorar...voa, voa bem longe e bem alto, que nós, os mortais, estaremos aqui para te admirar...

stefanearruda@hotmail.com said...

estou tão feliz por ter lido seu blog hj...
me fez pensar...

Anonymous said...

o texto mais lindo que ja li. O texto que ja leio a anos e que sempre me arranca lagrimas. Obrigado. Sua alma compreende outras.