Monday, March 20, 2006

Mamãe morreu de desgosto

Era uma sexta-feira, dessas que papai trazia comida de fora e dava folga para a empregada. Mamãe disse que fazia tempo que não sentávamos todos juntos, só nós cinco, para jantarmos e falarmos da nossas vidas. Então seguimos o sentido anti-horário. Primeiro falou papai, contou que tinha novo emprego, que, quem sabe, trocaria de carro até o final do ano, que pensava em correr na maratona dos médicos em outubro, também disse que o filé estava um pouco mal-passado, mas que como o molho madeira estava delicioso, compensava um pouco o gosto da carne crua. Mamãe concordou sobre o molho, disse que tinha sido promovida no trabalho, que agora teria que viajar mais, que os impostos ficavam com quase a metade do que ganhava, e que aquilo era um absurdo; perguntou quem é que tinha deixado o banheiro naquele estado deplorável, disse que parecia um banheiro de rodoviária, depois se conteve e contou uma piada que havia ouvido no escritório. Falou meu irmão do meio, fez todo mundo quase morrer de tanto rir, quando imitou um colega de sala, andou pela sala fazendo o jeito que ele teria de mancar e falar engraçado. Depois falou meu irmão caçula, e papai brilhou os olhos de orgulho - não teria tido, nem na ficção, uma semana tão espetacular como a dele, cheia de mulheres e perseguições de helicóptero.

Para fechar o relógio e o sentido das coisas, falaria eu, mas eu ainda mastigava um último pedaço de carne. Mamãe disse: “ deixe de bobagem e conte exatamente como foi seu dia, você sempre se esquiva com um pedaço de carne na boca”. Eu olhei sem graça para a mesa. Depois de engolir o pedaço de carne mal passada, parei por um instante reparando o meu prato, o resto daquele molho de carne, o sangue, as folhas da salada faziam um desenho abstrato, algo para pregar na parede e chamar de arte. Quando levantei os meus olhos, estavam assim os quatro parados, esperando que eu dissesse qualquer coisa. Eu disse com a voz bem baixa: “ bem, o meu dia foi bem normal”, e mamãe insistiu: "anda, a sua vida não pode ser assim tão monótona", então, eu tive a paciência de lembrar cada detalhe daquele dia e contei tudo. Acabei meia hora depois, dei um gole no vinho, olhei para os quatro: estavam completamente imóveis.

Às dez e meia da noite, meu irmão caçula rasgou com uma faca de mesa seu próprio pescoço, com a profundidade do corte, abriu e espirrou como um suco de uva a sua jugular. Morreu de tanto sangrar, deitado com a cabeça no prato de carne. Às dez e trinta e cinco, meu irmão do meio armou a espingarda calibre doze, que papai escondia atrás do armário do quarto. Sentado na privada de um banheiro sujo, ele abriu a boca estourou a sua cabeça, seu cérebro e tudo que havia dentro, e fez uma lambança ainda maior num banheiro que já estava deplorável. Papai correu, subiu no sofá e saltou da janela do quinto andar, caiu sobre um muro de ferros retorcidos que cruzaram seu peito até aparecerem do outro lado, como se nascessem espontaneamente das suas costas. Mamãe teve mais classe, cuspiu educadamente em um guardanapo um pedaço de carne que ainda mastigava com dificuldade. Dobrou o guardanapo diversas vezes e o colocou ao lado do prato. Depois, lembro de ter dito: “então foi assim?”, aí deu um último suspiro, se levantou rumo a porta da cozinha, deu três passos, mas antes que chegasse a qualquer lugar, perdeu a firmeza das pernas, cambaleou e caiu morta no chão. Mais tarde, alguém disse que mamãe morreu de desgosto.

3 comments:

Fabiane said...

Será que foi por isso que você virou escritor, para contar contos como este e matar os dias e as vidas normais que matam os outros de desgosto?

Será que vem daí a rebeldia, a faculdade de Cinema, a mudança para Barcelona e o esforço em ser diferente?

Bem, eu duvido um pouco. Acho que você já era diferente demais para ser normal e ter um dia normal. Acho que você sempre foi interessante o bastante para não matar ninguém de desgosto.

E aposto que seus pais, quando você não está perto, contam com muito orgulho do filho que primeiro ganhou São Paulo, e depois ganhou o mundo. Aposto alto até.

E acho que você não apostaria contra mim. Embora, claro, para um escritor, uma tragédia seja sempre material de trabalho mais farto!

Mas, de ordinária, sua vida não tem nada. E você não apenas sabe, como gosta disso. E se falarmos da vida interior então, a banalidade estará a anos luz dali.

Mas, claro, claro, este conto pode nem ser biográfico. Apesar do pai médico e da família de cinco irmãos em comum, esta pode ser apenas uma das histórias de um dos muitos Robertos.

Beijos e saudades, Fabi

Leandro Luna said...

nossa... vc ta bem???? :-O
um pouco... peculiar naum! ahahah!

Anonymous said...

Pegou pesado...Me conta como foi esse seu dia - vamos ver se morrerei de desgosto também!