Thursday, January 12, 2006

Clarice, pomelo, coca-cola sem gás.


Se eu abro os olhos, assim como estou estirado no sofá da sala, vejo uma parede branca insistir na minha frente. Se encosto o pé descalço nesta parede branca, ela é fria como a morte. Eu nunca gostei do natal para dizer a verdade, foi sempre a constatação indelicada do que já não estava. A casa ficou vazia pela maciez deste natal, foram todos embora, ficou só eu, pé na parede, vão eterno entre o céu e o chão. E agora, que o natal já passou faz umas duas horas, a segunda-feira chega mais elegante e despudorada.

Foi mesmo muita sorte na vida eu nunca ter te encontrado, porque assim, te amei em cada outro encontro.

Aqui na sala faz hoje um silêncio pesado, está tão limpa, tão bem organizada, que o silêncio tem mais lugar para chegar e ficar. Daí vai me dando um medo deste silêncio abrir seus braços, como uma gota de sabão em um prato de azeite, e ir tomando a forma das coisas - escorrendo pela mesa, corrompendo o relógio na parede, que a qualquer segundo pode retroceder a um princípio de tudo, antes do tempo, a um anterior estéril das coisas, a uma volta ao que somos antes de sermos homens e macacos e consciência. Eu tenho medo deste lugar. Por longos anos, a loucura era o lado esperto da minha sanidade, mas na costatação de uma segunda-feira vazia, quando não se abre a boca, nem se mexe os olhos para não distrair o universo, não existe intervalo entre o louco e o são. É uma solidão tal, que as contradições, de tao sós, violentam a língua, comungam entre elas e se regridem a si mesmas. Os antônimos redutíveis uns aos outros, como nas línguas primitivas, e esse sou eu agora, recuado, desistente da retória de um corpo cansado, vivendo a vertigem daquele breve instante, em que toda grande civilização sucumbiu às inferiores.

E você sempre está, como um vulto que colore em sombra as minhas tardes, você é o fora vibrante nas janelas, é a morte e a intenção de tudo que existe em mim. Eu te amo agora como não amava antes, porque condenei nosso amor a uma atualidade extrema, antes do batizado inconsequente das coisas em nomes, olhos, bocas e almas. Você nao tem rosto. Nosso amor é a matéria escura da morte do que se faz toda a beleza que se conhece, todo gozo, toda vida.

Quando arranho a parede com os dedos do pé, eu desenho nela o inferno do filho que nao está (nem esteve em nenhum outro natal). Eu sou o que foi embora, o que só existe em ausência, o que teceu de memória um presente sempre igual, desde o tempo em que eles caçavam os seus mamutes e comíam para não morrerem de frio, eu já era pródigo, e se não fosse por você, meu amor, que me enganava e me mantinha cada dia enganado e longe de casa, teriam feito de mim um tipo fraco e cheio de esperança.

Se eu te amo desse meu jeito torto é porque aqui, antes de Deus, só existe o perdão e meu pé que roça a parede fria. O mundo acabou faz duas horas e depois que o mundo acaba, a sala segue intacta, um copo de suco de pomelo sobre a mesa, a palavra riscada num livro de Clarice, uma coca-cola sem gás. E as velhas cidades reverberam no universo, São Paulo, Rio, Barcelona, elas existem sem mim, elas existem sem o nosso amor. E o grande orgasmo da matéria é não ser imprescindível, é poder morrer, porque a eternidade é estúpida e compacta como um diamante. Eu posso morrer a cada hora e sou feliz por isso. Se eu não me desculpo, é que já não tenho culpa de nada. Minha solidão é um flerte, gosto de quando me aplica na veia o caldo branco das ruas no inverno, e ando nas ruas, e canto as partes da música que ainda sei...

2 comments:

Priscila said...

Esta lucidez: "E o grande orgasmo da matéria é não ser imprescindível, é poder morrer, porque a eternidade é estúpida e compacta como um diamante." Justifica minha admiração por você.
Tão novo e tão fértil.

k. said...

estranho: há um ano, exatamente.
12.01.07