Monday, November 28, 2005

Todos os homens são bons

Há um mês, um trem que vinha de Paris foi parado na fronteira com a Espanha. Segundo me narrou um amigo, os estrangeiros foram tratados com aspereza e crueldade. Todos os imigrantes ilegais foram deportados. Eu estaria neste trem, mas por uma casualidade, naquela semana não pude ir a Paris. Esse é um conto que surgiu a partir desta situação, inspirado na chantagem que paira sobre a condição do estrangeiro ilegal na Europa.


Todos os homens são bons



O primeiro homem entrou no trem, farda cinza, camisa devidamente guardada para dentro da calça, e olhou direto nos meus olhos como num flerte, depois desviou o olhar confuso, procurou no bolso qualquer coisa que não estava, coçou a barba embaixo do queixo, se recompôs. Depois entrou o segundo, cavanhaque ruivo, marcas de acne mal cicatrizadas no rosto, e acendeu um cigarro como um velho cowboy, mas não tinha nem maneiras nem tamanho para aquilo, daí tirou o catarro da garganta com a força para arranhar o sono de meio vagão, e reviveu as migalhas de sua dignidade perdida, quando o velho chinês ao meu lado acordou com um susto desesperado. Senhor, passaporte em mãos, por favor - e eu, que quando pequeno nunca quis ser astronauta ou do corpo de bombeiros, imaginei que tipo de criança cresceria para se tornar agente da imigração.

Às cinco da manhã, a noite já pintava um azul seguro de que ia morrer, os dois homens de farda dividiam o último chiclete hortelã (cúmplices que eram), e reparando assim como mascavam, pareciam ter pressa de nós, fome de nós. O mais alto não era exatamente feio, com outro humor poderia ter saído de um filme de Fassbinder: mangas justas nos braços fortes, coração cruzado com uma flecha; o segundo tinha a expressão triste das pessoas que fazem as coisas sempre certas, e insinuava um sorriso escatológico toda vez que queria gritar; e gritava, gritava, até que o velho chinês, na imprecisão de sua língua nervosa, não se explicou o bastante para sobreviver aos seus caprichos manhosos, e teve que deixar o trem escoltado pela eloqüência ensurdecedora da lei. Restou o primeiro, armado, olhando para nós três que ainda restávamos impunes no vagão.

(Em algum lugar do mundo, um jovem pálido e virgem tocava ao piano Sonata ao Luar).

Já fazia frio os seus lábios semi-abertos; esse homem falaria alguma coisa a qualquer momento, mas esperava com respeito devoto que a última gota de orvalho percorresse o vidro da janela e estremecesse um pouco mais a minha espinha, e só depois encostou no ombro de um dos rapazes sentados à minha frente. Na rigidez de seu movimento foi quase delicado, pediu por-favor-o-seu-passaporte, com aquela voz de fazer um jazz. Eu me arranjei na poltrona para espreitar as suas mentiras. Vi lá fora o velho chinês ajoelhado em frente ao outro agente, implorando feito cachorro covarde, chorando com seus olhos ainda mais apertados; e imaginei que talvez fosse a hora de alguém sacar uma arma e fuzilá-lo bem ali, pela memória de todo orgulho póstumo, mas o agente lá de fora, de cara triste e folhas mortas no chão, levantou-o pelos braços e levou-o para trás das árvores cinzas, onde eu não pudesse ver a fila de velhos chineses sangrando pelo nariz.

Fechei a cortina com remorso. Aqui dentro, o rapaz havia acabado de entregar o seu passaporte ao homem de farda, e esperava que ele o folheasse com calma - abaixando o rosto na eternidade de seus caminhos de entrada e saída. Parecia inocente, seus olhos verdes eram vazios de segredos, O senhor é americano?, mas ficou visivelmente insultado quando teve que pausar a faixa treze de seu ipod azul, “Sim”. Saíram os dois, fecharam a porta, preferiram a intimidade reta do corredor, caminho estreito de sussurros e zíperes abertos. Eu tentei entender, mas não bastava a lógica fácil das minhas idéias, quando me pegassem pelo colarinho, quando maldissessem meu sobrenome ou cuspissem na minha cara, eu encenaria a minha desgraça o mais honrosamente possível, e depois contaria como eram fracos esses homens, como eram distantes de toda nobreza e bom hálito.

Mas o tempo passou e restávamos dois homens intactos, sem nome, sentados um em frente ao outro, abertos a qualquer sentença. Ele era um rapaz de vinte e poucos anos, de traços relutantes, apátrios, sem deus. E eu, curioso, passaria a vida inteira no esforço de entender o seu lugar, mas muito provavelmente não teria vindo de lugar algum. Olhava-me como quem olha e atravessa, mas não insinuava maior reação que um suspiro aqui ou ali. De repente, pegou a maleta preta que levava junto ao chão e colocou em seu colo, respirou mais cínico por um segundo, afagou meu medo com um olhar sutil. Abriu a maleta, disse: Você tem medo de quê? e girou-a para mim, para que eu enxergasse bem de perto os seus segredos. A maleta era uma dessas que só existem em contos de mentira: preta, cenográfica, estava cheia de passaportes de cores e histórias diferentes, e como em um menu de possibilidades vis, cada passaporte trazia a minha própria foto colada à ele.

Já era dia, e um alívio escorreu pela mesma espinha covarde, mas o estranho, como um vento que muda sempre de direção, fechou a maleta, certificou-se que o código a protegeria de ladrões e a colocou de volta ao chão. O mundo era um punhado de coisas sem sentido, pátrias desfeitas no estalo dos dedos, amores por um triz. Eu pensei: Por quê? e perguntei: Por quê?, mas a bondade do estranho não viria sem uma condição. Ele tocou a si mesmo na saliência sob a braguilha, abriu o zíper com dois dedos sóbrios, e, só então, sorriu para mim.

2 comments:

Fabiane said...

Então, hj eu resolvi me comportar melhor como amiga e finalmente comentar os textos ácidos e doces do meu amigo tão querido. Espero que nunca faltem comentários nem leitores para que nunca faltem Robertos. Pelo menos esse, tão Vitorino. Bjos, Fabi

Anonymous said...

ex tao lindo i tao kridu bjx fatyh