Friday, December 20, 2013

Todo Ano Que Acaba

Eu vou te dizer, rapaz, que assim para uma quinta-feira, assim honestamente falando, se você me perguntar em que acredito e se acredito nessas coisas, porque convenhamos, eu sou um cara bastante cético, não sou filho de Ogum, nem de Alá, nem de Jesus Cristo, sabe? Embora compartilhe dessa curiosidade festiva por eles, democrática e abundante, mas quando o ano acaba e eu vejo o mar, as mulheres de branco ali na praia da Urca, toda noite quando eu chego em casa, bate um aperto sincero, sabe? E se você me perguntar por quê, eu não sei. Eu choro sempre. Faz quatro dias que eu choro toda noite. Eu acho que é desarranjo químico, porque nem é choro de tristeza. Preciso perguntar aos amigos cientistas, porque se bobear a gente recebe tanta explicação transcendente, que acaba acreditando nelas. Mas me dá uma vontade de entrar naquele mar, de falar com ele, mesmo sem ouvir porra nenhuma, dá uma saudade do mar. Se deus existe, e eu nem estou aqui para falar sobre isso agora, nem cabe a mim numa quinta-feira de fim de ano, um bocado de trabalho para entregar, mas se deus existe, então deus é o mar. E é bem quando o ano acaba mesmo - e as coisas são só bonitas, porque acabam – que eu me encho dessas banalidades todas, começo a reparar nas flores brancas, nas rodas organizadas na areia da praia e dizer: vamos lá, rapaz? Vai ver você sente igual e escuta igual e acredita (sem acreditar) igual a mim. Porque em mim só existe agora, depois passa. Mas agora está bem aqui nesta curva, nesta praia. Bonito demais de se ver. Todo ano que acaba é bonito demais.

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