Wednesday, May 27, 2009

Nossa história não daria um filme

Somos dois homens sentados na sarjeta. Eu sou ele e eu. Às quatro da manhã, eu sou tanta gente, nós dois bêbados sem rumo, ainda bem que nos sentamos aqui, porque sei lá se tivéssemos batido o carro em um poste ou nos arriscado por caminhos escuros e cheios de possibilidades. Resolvemos nos sentar, conversar um pouco, por mais que tudo fosse devagar agora, e as verdades saíssem desimpedidas por entre as sombras (eu tenho vontade de ficar sozinho, você me entende?), ele fala sem parar, porque desta noite virá o sentido dos próximos dias: um fantasma esquizofrênico no meu ouvido, mesmo que tão longe já levando a sua vida. Um dia, recebo uma carta perguntando como anda tudo, faz tanto tempo que não nos vemos, espero que tudo vá bem com a família, etc; mas agora estamos realmente embriagados, eu ainda penso antes de dar um último trago no meu cigarro: e se nos acorrentássemos aos meses em que fomos felizes? Mas essas coisas não acontecem. Algumas semanas e seremos estranhos, eu sei como é, nos encontraremos na entrada de algum cinema do centro e diremos breves e educadas palavras (não seja assim tão dramático), o mundo balança e fomos esquecidos neste barco à deriva, não há terra a vista. Eu soluço numa embriaguez patética. Fazia tempo que  não vivíamos uma noite suja assim, só nos livros (você sempre escreve, eu leio as suas coisas, você sempre escreve, mas nunca escreveu nada sobre mim), os carros passando, um frio tímido em São Paulo, ele se levanta cambaleante, solta uma gargalhada triste (para dormir, você precisa de duas gotas de Rivotril), eu deito a cabeça sobre o seu ombro, eu deito a cabeça sobre o meu ombro. Sentado na sarjeta, existe um homem só.
  

1 comment:

Maria Negrão said...

Eu costumava vir aqui há dois anos atras. Eu gostava do que lia e ainda gosto.