Tuesday, April 01, 2008

Da Natureza imóvel

Eu vou logo dizendo, que Mariana vai esperar por longas horas na mesa daquele bar, e que ele nunca vai aparecer. E amanhã, alterada e enlouquecida de raiva, ela vai tatuar no ombro direito uma serpente enrolada mordendo o próprio rabo. Quando lhe perguntarem sobre as razões da serpente, Mariana vai dizer que “Ouroboros” são símbolos milenares da eternidade, como o ciclo de sua existência que se repete. E vai, por certo, chorar, enfraquecida por variações hormonais, defendendo a estranha tese de que o melhor erro é o que se comete repetidas vezes na vida, porque daí não é mais um erro, apenas a expressão involuntária de si mesmo. Hoje, Mariana espera. Repara inquieta no hábito das outras pessoas. Passa por sua cabeça idéias do tipo: “talvez eu não esteja aqui, talvez esta casa amarela, esse cheiro azedo de cerveja no chão, o vermelho volúpia do meu esmalte simplesmente não existam, porque hoje é o dia que não aconteceu”.

Do outro lado da rua, trancado num quarto de hotel, Joaquim testa a perigosa possibilidade de uma corda. Será especificamente hoje, o dia em que pela primeira vez fracassará. Quando aos oitenta anos, escrever o famoso livro de suas memórias, usará metáforas cósmicas para descrever suas experiências de quase-morte, dirá que eram como um buraco negro, de um escuro tão profundo, que engoliam tudo, incluso a luz. Agora, ele ata o nó. Não supõe que a eternidade virá em páginas senis, nos anos em que o passado se tornar a elegante mistura das coisas que realmente aconteceram com as coisas que muito se desejou viver. Por enquanto, seu domingo insiste num parêntese absurdo, apertado entre a euforia alcoólica de ontem à noite e os carros parados nas filas de amanhã. E por mais aceitável que parecesse, que do sábado, a vida tivesse saltado para uma segunda-feira agitada, Joaquim precisa mesmo se enforcar. Ele sobe num banquinho de madeira, coloca cuidadosamente a corda em volta do pescoço e salta.

Alice não escuta nada. Trancada no apartamento de baixo, tenta entender o que acaba de acontecer: está molhada entre as pernas de um líquido espesso, que escorreu sem que ela desse conta para se derramar no chão do quarto. Ela tem a estranha impressão que viveu este instante muitas vezes antes, desde o tempo das suas bonecas, ou antes delas, muito antes de Alice, como se desde sempre, as coisas todas conspirassem para agora. Quando pequena, ela desejou viver para sempre, mas como duvidava do céu e das alternativas trágicas, imaginou que o melhor fosse ter uma filha e chamá-la de Alice, assim, prolongaria a sua existência, e se Alice fosse justa e gerasse uma outra Alice, a eternidade existiria tímida, mas em algum lugar. Talvez por isso, doa agora toda a dor do mundo. Ela sabe o que vai nascer dela mesma. E da sucessão dos seus velhos erros, dará à luz.

“Fuck you, Babe”, escreveu Mariana em um guardanapo, “you don´t deserve my love”, rabiscou no resto do papel. A última vez que a abandonaram assim foi numa boite moderninha da Barra Funda, a próxima será num apartamento decorado da Vila Madalena – ela sozinha com a mesa posta, ele comprando um maço de cigarros há alguns meses. Joaquim levantou-se cambaleante do chão. Odeia essas construções frágeis e suas complicações gravitacionais. Tentará navalha afiada em banheira de louça branca em uma outra oportunidade, e quando fracassar, arriscará uma overdose de heroína pela referência estética aos astros do Rock. E em Alice já não dói, porque Alice nasceu com três quilos, trezentos gramas e nenhuma ajuda. Não se sabe se puta ou santa, mas nasceu em todas as suas possibilidades. Deverá um dia, e desde já, parir Alice e herdar de Alice todos os seus bens.

1 comment:

k said...

e as borboletas?