Thursday, June 15, 2006

Ontem foi sempre assim

Sempre finjo surpresa, quando ouço o seu nome pela primeira vez. E não será a última. Você, que teve vários nomes, ainda terá milhões de outros novos. Tudo que eu fiz, ontem, foi te ver finalmente e mais uma vez. Ontem foi sempre assim: eu e seus pedaços largados na areia - eu mesmo os havia deixado ali, para depois encontrá-los e reuni-los com mais tempo e cola. Fui eu quem te criou, criatura, fui eu quem te confundiu entre os pobres mortais para depois te escapar pelos cantos dos olhos/dos espelhos quebrados: nos mil fragmentos que se estendem de uma mesma imagem.

Eu me lembro que você era a minha arte do tempo de criança - no meu tempo livre, eu te resgatava dos escombros das minhas idéias ociosas. Eu ia para a praia todos os dias de manhã para te espalhar, sempre só, perder a manhã te espalhando na areia, tomando água de coco, rindo sem dar vazão. E quando eu te ouvia da minha própria voz, era como se eu recitasse pequenos trechos da sua história muito antes dela existir.

Quando você veio chegando lá longe, eu logo reconheci no seu jeito de andar a pessoa que, até aquela hora, nunca tinha sido. Você é virtual, como tudo que existe realmente; se fez de um mosaico das minhas noites insones, das teorias sujas nas velhas metrópoles, da mais indelicada solidão. Porque se existe um solitário guardado em cada luz acesa após a meia-noite, eu sempre fui um deles e sempre coube a você, estranho, se apertar entre as linhas dos meus textos da madrugada, todo retalhos, códigos, signos, intervalos de tempo; ser do jeito que eu quiser.

Até ontem, eu esquecia seus rascunhos jogados nos bancos dos ônibus, nas filas dos supermercados, pegava carona, encostava minha cabeça no vidro do carro, te deixava existir lá fora na estrada, completamente livre de mim, apegado aos meus caprichos mais tolos, mas ainda assim: prisioneiro livre - lá no mar, nas pessoas passando apressadas nas ruas, na gaita de um blues, nas curvas de Copacabana. Daí, de uma hora para outra,você resolveu se batizar. Chegou com rosto, olhos, boca, nariz e gênio forte; informou endereço fixo e telefone celular. E me tratou como um piolho das barbas de Platão. Depois, foi virando miragem, se desfazendo de novo na areia, mas por alguns minutos, eu te achei, você me achou, mas tudo muito rápido. No tempo de um trovão, sei que já não nos achávamos mais.

4 comments:

Thiago Andreas-Wagner said...

bah otimo blog, parabéns

Priscila said...

"Você é virtual, como tudo que existe realmente".
Sabe quando olhamos um quadro e vemos nele muitas paisagens? Assim é sua arte. Arte. Inspira sempre. Me inspira.

Tato Zonzini said...

Bonito blog.
Gosto dos textos, parabéns.

Mauro said...

Que delícia seu texto hein!
Mas é exatamente assim que as "coisas" acontecem, virtual -> idealizado -> real hehehe. Construindo, desconstruindo e, quem sabe, reconstruindo uma identidade. :P
And life goes on...
Forte Abraço!
\o/