Tuesday, June 27, 2006

Ana e os ausentes

Foi de repente que Ana voltou para casa. Ela apareceu um dia lá pelas oito da noite, molhada de chuva, alguns anos mais velha. Eu fiquei espantado, porque já fazia algum tempo, uns bons anos, que Ana havia partido para sempre. Mamãe preferiu não fazer todo um alvoroço, só pediu para que eu carregasse sua mala até o antigo quarto, no fundo da casa, que desde então era meu, para que ela se acomodasse enfim e outra vez. Na hora, eu não me senti no direito de reclamar por território perdido, percebi nos lábios afoitos de mamãe, que não era um bom momento para chateações daquela natureza.

Fui eu quem correu para abrir a porta quando a campainha soou, numa terça-feira, pouco depois das oito horas, e, depois de aberta, passaram-se alguns séculos até que eu me movesse do lugar. Ana chegou num vestido ensopado, desses com pequenas borboletas e margaridas azuis, quase não parecia a menina de antes, embora tentasse se parecer demais com ela: trazia os cabelos pintados do vermelho quando o sol se põe em Ipanema, uma marca ligeira de corte cicatrizado no lábio superior. De frágil e longilínea, voltou forte, de seios fartos, ainda mais distante e calada que costumava ser - se é que aquilo era possível. Parecia exausta, como alguém que vem de muito longe, por muito tempo, e não teve sequer a atenção em me abraçar. Passou por mim; eu, invisível, fiquei parado no mesmo lugar, completamente pasmado, em febre, de boca e olhos secos.

Nos dias que se seguiram, eu não tive coragem para me dirigir a ela uma única vez. Pela casa, Ana não dizia nada, ou quase nada, vagava pelos corredores, arrastava os pés no chão como um fantasma errante, vez ou outra, sussurrando coisas miúdas, eu adoro esta música, o jardim está mais bonito agora. Na rede da varanda passava as suas tardes, sempre cantarolando um sambinha de frente para o mar. Na solidão de seus olhos cor de chuva, estava muito bem acompanhada. Era uma mulher. Desde o tempo em que a gente brincava de super-heróis, quando eu voava e soltava raios com as mãos, Ana sabia desaparecer sem deixar rastros; conversava com os ausentes no mais profundo silêncio. Na escola, diziam que eu tinha uma irmã maluca, e eu chorava no colo da mãe, jogava pedra neles, porque Ana não era louca, só porque ouvia coisas, porque sentia os rumores do entremundos - Ana tinha nascido assim, com estranha sensibilidade. Às vezes, ela atravessava as pessoas, viajava para além delas, ou se recolhia toda em pavor do que conspiravam as paredes, fala baixo, eles estão aqui, escondidos dentro das coisas. Eles vieram me buscar. Não deixe que me levem embora – ainda me lembro como apoiava o rosto entre seus joelhos, sentada no chão do pátio da escola, chorando abraçada às pernas, soluçando nervosa, com medo de que eles viessem e a levassem de nós.

Enquanto foi crescendo, Ana fez dos ausentes, seus únicos amigos – em pouco tempo, já não precisava de mais ninguém. No meio de uma conversa, era capaz de se calar, ficar quieta de repente - seus olhos abertos, intactos, como num lapso eterno, na décima primeira dimensão para além dos nossos corpos, e ao passar de dois ou três minutos, voltava, o que é que eu dizia? Nada - eu respondia, você não dizia nada. Mas eu era feliz, quando Ana voltava.

Na tarde de hoje, finalmente tomei coragem e perguntei à mãe, se eu podia levar Ana para subir a pedra do Arpoador, onde costumávamos nos esconder dos meninos da escola, quando nos perseguiam pelos quarteirões. Eu disse que, talvez, a lembrança fizesse bem a ela, e mamãe deixou sem muito hesitar. Saímos juntos, Ana e eu, subimos no ônibus em frente ao antigo colégio, descemos no Posto 8, seguimos andando até a pedra. Eu quis parar e comprar churros de doce de leite, ela disse que já não gostava mais. No fundo, o Arpoador era pretexto. Eu sentia uma curiosidade terrível, uma inveja inconfessável de Ana, eu queria saber o que tinha sido feito do seu tempo no exílio, porque enquanto éramos pequenos, e os amigos da mamãe especulavam sobre nossas vidas, sopravam por entre os dedos palavras de mau agouro, diziam que Ana era menina desenganada, e que eu, por outro lado, era um garoto de futuro certo. O bafo entre os dedos consolava mamãe, a deixava confiar que pelo menos um de seus filhos lhe havia restado são. Dos presságios acertados, Ana, num belo dia, deixou um recado na porta da geladeira e foi embora sem rumo ou grandes remorsos. Eu fiquei só, com o quarto dos fundos, com a tosse desenfreada de mamãe e os longos dias de espera. E chegaram os meses, os anos, as décadas e o futuro nem roçou a minha porta.

Hoje fez um dia de querer morrer, a coisa mais linda do mundo. Eu disse isso a Ana, no alto da pedra, ela me sorriu com os olhos. Ana reparava o céu que nos vigiava em êxtase, depois, quis arriscar uma batucada desengonçada, batendo com os dedos na pedra. Logo entendi que estava cercada de sua gente, porque falava coisas que eu não compreendia nem se quisesse muito compreender. Às vezes, quando se lembrava de mim, buscava a minha mão, com a sua mão gelada, você ainda vem aqui? Só quando tenho saudade - eu mentia. Mas grande parte do tempo, Ana preferia estar só, entre amigos. Era como se para ela, bastassem os ecos intermitentes de sua própria voz. O vento trançava os dedos entre seus cabelos e lambia tarado as suas orelhas. Ana e o vento copulavam despudorados diante de mim. Era como se ela fosse uma daquelas conchas que guardam para sempre o barulho do mar - ao mesmo tempo a música e a platéia. Eu, na espreita, assistia quieto para não ser descoberto. No fundo, eu também queria amigos que saíssem dos becos, dos bafos, das sombras, das partes claras e escuras de tudo que se esconde sob as superfícies. Eu queria um resto qualquer dos amigos de Ana, uma sobra que não lhe fizesse falta. Se eles me quisessem, eu também os quereria. Não os chamaria jamais de loucura ou demência. A verdade é que o Arpoador havia sido para mim sempre o mesmo mar, a mesma esquina, a mesma pedra muda e indiferente. Jamais, nem no mais longínquo instante da minha lembrança, eu havia compartilhado da lucidez de poder ouvi-los.

De repente, ao meu lado, no sobressalto desta tarde tranqüila, Ana se tornou pálida, da cor das paredes inquietas da sua infância. Respirava mais ofegante, em agonia, em susto, em asma. O que foi? O que te fizeram, Ana? Ela apertou a minha mão com a força que não deve existir em mãos de gente viva ou morta. Abriu os olhos, e eu pude ver através deles, o que não estava lá: Ana havia desaparecido. Então eu a esperei, como costumava fazer quando éramos jovens, mas o fim do dia pintava um retrato insólito: ironicamente, depois de tantos anos longe de casa, Ana partira sem voltar ainda agarrada à minha mão. Eu a procurava em seus olhos e só encontrava dois buracos negros e fundos, onde cabiam todas as minhas provas, as minhas dúvidas e a saudade da gente que não estava ou sequer esteve em momento algum. Seu corpo seguia imóvel, sentada na pedra ao meu lado, pouco antes do crepúsculo, quando o sol fraqueja e é ainda mais belo. O tempo escorregava, Ana parecia não querer chegar. O canto da sua voz não era mudo nem ensurdecedor, mas dizia as coisas de que eu tinha mais medo de ouvir - os detalhes calados sempre me deram maior pavor. Ana já não brincava de roda, já não atendia a qualquer dos meus chamados, ela existia simplesmente na eternidade dos murmúrios e no consolo dos ausentes.

Eu, então, a ajudei ficar de pé, e a conduzi pelo mesmo caminho de antes. Voltamos para casa caminhando, percorremos resignados o longo trajeto do luto. As pessoas nos olhavam, porque a mulher, que eu guiava pela mão, estava pálida e a passos lentos, como se fosse inteira feita de náuseas, mas não era ninguém. Quando mamãe abriu a porta, perguntou: O que aconteceu com ela? Eu não fiz caso, a levei até o quarto e a deitei na cama. O que eu trazia de volta para casa era um corpo pesado, um casulo vazio, abandonado e já sem utilidade. Ana já não vivia ali.

5 comments:

priscila said...

Roberto,
Maravilhoso seus textos. Adorei a maneira como você conduziu a estória da Ana... E o cenário RJ me traz recordações boas, hehehe. É, pelo visto você é uma dessas raridades que existem por aí. Além de bonito, é interessante - não só pelo blog, mas pelos gostos e comunidades no Orkut.
Bjo,

Priscila said...

Ana e eu temos algo em comum: Copular despudoradamente com o vento marítimo e de forma lúcida ouvir a natureza.

Humildemente ouso a dizer que este é o melhor dos que eu já li aqui.

Continue produzindo coisa fértil!

Beso.

Anonymous said...

Tá te inspirando o Rio?
Roberto, amigo,volta pra BCN!

ah, dá uma olhada no "quando o sol de põe em ipanema"...
Abraços!!
Carlos

Sandro Flor said...

De uma beleza pungente, este conto. Tenho medo de Ana...
Abraço

Emerson said...

Adorei o texto.
[s]