Thursday, February 02, 2006

Cela me fait penser à Paris

Para Edson Maciel

Precisaria de mais tempo para revisar cada detalhe do seu plano. E embora naquela esteira levasse toda a eternidade até que sua mala finalmente aparecesse retardatária da corrida desde o avião, não seria eternidade suficiente para que revisasse as miudezas da questão. Levou a mão ao rosto para certificar de que a barba ainda estava lá, aqueles poucos pêlos loiros perdidos em sua morenice era um charme recém descoberto. Treinou de novo a risada sacana, mas depois teve vergonha quando a senhora de cabelos cinzas-quase-azuis franziu a testa, tentando entender o porque de felicidade tão imprópria. Tirou o pigarro da garganta, fez cara de sério, lembrou-se que estariam lá fora, mãe, pai, avós, cheios de abraços e perguntas tão vagas, que se não fosse absolutamente convincente e não começasse a se preocupar desde agora, poderiam pensar que era o mesmo menino de antes (e não era).

No tempo livre da poltrona, exatamente depois de molhar o croissant no café com leite, e não muito antes de o piloto avisar que as turbulências eram comuns nesta época do ano, pois no tempo livre antes das miseráveis que teriam vindo para acabar com a sua vida tão jovem, ele ensaiou confusões idiomáticas preciosas, desculpa, É porque faz tempo que eu não falo português. E em algum momento do chá da tarde, quando ele já tivesse acomodado as suas malas no velho quarto de infância, e estivesse na sala tomano um café, em algum momento ele coçaria a barba embaixo do queixo com a ponta dos dedos, cruzaria as pernas mais apertadas e intelectuais e diria, como se resmungasse, mas por certo dizendo alto: "Cela me fait penser à Paris", depois acenderia um cigarro e deixaria a frase assim orfã, escorrendo pelos ouvidos desentendidos até quase pingar no chão.

Perguntou-se mais uma vez, como geralmente se perguntava em todos os aeroportos da sua vida, onde raios estava o dono daquela primeira mala, que dava uma, duas voltas antes que chegasse desajeitado e confuso, depois colocou um cigarro na boca e imediatamente o tirou, num movimento ligeiro de eu-quero-mas-sei-que- aqui-não-pode, E a desgraçada que não atravessa aquela cortininha nunca.

Ele era um homem diferente agora, ou parecia diferente, usava chapéu de palha e com os exercícios para a postura que vinha fazendo com bastante assiduidade, tinha crescido uns dois centímetros no mínimo. Deveriam perceber, seria até injusto se não comentassem nada. Certeza só é que fariam um daqueles churrascos entusiasmados, cheios de amor, comida e propostas para casar com a filha da Soninha, amiga da sua mãe. Mas só a idéia de comer carne de novo, carne de verdade, sangrando a morte de uma vaca que realmente fora vaca e não uma pasta extraterrestre processada e congelada nos mundos subterrâneos que acomodam os supermercados, só essa idéia já compensava as previsões pessimistas para sua solteirice dos vinte e tantos anos, Coloca mais vinagrete e mandioca, Tia Soninha.

E a esteira já estava cheia de malas: roxas, vermelhas, predominantemente marrons. E a dele, que também era marrom, nem sinal. E a velha de cabelos definitivamente azuis por este ângulo já abraçava um jovem que provavelmente era seu filho, porque sorria o mesmo sorriso de mostrar as gengivas, não tanto como a filha do Paulo Goulart, mas com bastante gengiva e saudade. Ele precisava se concentrar. Procurou no bolso um celular que lhe desse as horas e achou três e quinze demasiado cedo para o seu fuso europeu. Lembrou-se do dia em que desembarcara em Paris, aquela calça xadrez que ele achava o máximo, certo de que poderia se passar por um francês com o intensivo que fizera no cursinho da Lapa. E depois todas aquelas noites, aquelas reuniões no terraço do apartamento do Jorge, um chileno que tinha ficado rico vendendo pinturas da Cordilheira do Sal, Sim, essa história é mal contada, mas enfim, os convidados falando em línguas absurdas, dialetos, e ele perdido, tomando vodka com fanta limão e gelo, ouvindo blues. Pelo menos em uma dessas festas conheceria Celine, que por quatro mil euros e um ano de trabalhos da faculdade, casou-se com ele, lhe deu os passaporte e lhe ensinou a fumar.

Respirou fundo mais uma vez, e desta vez teve a impressão de que a espera estava próxima do fim. Podia farejar sua mala à uma distância impressionante. Com o tempo, havia adquirido o dom dos pressentimentos em salas de desembarque, que por certo não era tão útil quanto o dom dos pressentimentos nas salas de embarque, mas ainda assim aliviava um pouco o calor acima da nuca. Infalível: em dois segundos, sua mala já desfilava envergonhada. Ela era uma espécie de Rubens Barrichelo das malas. Ele a odiou, tirou-a da esteira com violência, quis maltratá-la. Virou-se rumo à saída, onde ficam aquelas senhoras dando gritinhos molhados, mas com dois passos, parou. Não estava pronto. Se pudesse, voltaria para o avião e depois mandaria um postal pedindo desculpas, É que Paris nesta época do ano é impagável, mas sabia que não era possível. Por favor, onde é que tem um banheiro aqui dentro? Trancou-se em uma daquelas cabines multiuso dos banheiros de aeroporo: sexo, drogas, merda! Não poderia ser o mesmo, não depois de tantos livros e filmes, e de tantas vezes que chorou ou vomitou às margens do Sena. Não teria sido em vão, andava tão francês ultimamente, que até para pensar, pensava oxítona, e o que tinha na frente dos seus olhos agora era que o Júnior do 6392 4333 por cinquenta reais batia uma e chupava em Humaitá. Alguém bateu na porta da cabine, atrapalhou a leitura. Ele ficou em silêncio, sentado sobre a proteção de papel higiênico que havia preparado para que não fosse infectado por uma daquelas doenças que dão na bunda quando se senta sem proteção, Tem alguém aí?. Aí ele respirou com as narinas bem abertas para evitar mais barulho. A pessoa desistiu, foi embora. No primeiro ano em Paris, tinha descoberto as diversas utilidades de uma cabine de banheiro, mas definitivamente era a primeira vez que as usava para pensar. Barba, chapéu, Albert Camus, seus dentes mais amarelos, a gargalhada levemente encurvada para trás, pernas cruzadas, Deleuze e o cigarro, sempre o cigarro para lhe fazer um blasé incorrigível. Tudo parecia correto, esperou um minutinho, apertou a descarga e abriu a porta. Não tinha mais ninguém no banheiro. Era ridículo, as pessoas deveriam estar pensando o que teria acontecido com ele, e ele ali, se fazendo de Tieta com medo do agreste, finalmente se decidiu.

Caso seguisse a linha reta que traçara em pensamento desde do banheiro, chegaria até a saída em quarenta e sete passos ligeiros. Um...dois...três...quatro, ele tremia as pernas feito criança com medo do chinelo da mãe, cinco, seis, uma puxada só, você me empresta esse livro? eu nunca li Cortázar. Aposto que você não conhece Clarice, coloca aquele som do outro dia, você é espanhol? não, sou brasileiro, e esse gosto amargo na saliva é normal? Pois esta é a tal da Elis que você sempre diz? eu vou comprar um chapéu, topas? Faz dois meses que não falo com o pessoal lá de casa, você tem um cigarro, dezoito, dezenove, vinte, se eu contar que fui assaltado em Barcelona o pessoal do Rio não vai acreditar, como se escreve seu nome? Eu te amo para sempre, vinte e nove, trinta, eu não quero mais porra, você só fode com as coisas, caralho, trinta e quatro, espera, vou comprar esse lencinho para a minha irmã, outro dia você falou que me amava, trinta e sete, quando passar pela imigração não faz cara de medo, você vai ter que ir para a Suíça e voltar, quarenta e três, a Celine vai me dar os papéis, alô, pai, consegui os papéis, quarenta e cinco, “Paname” é como os parisienses chamam Paris, Paname, eu não te amo mais, quarenta e seis, tem uma coisa ruim no meu estômago, eu nunca mais vou te esquecer, e nunca mais vou esquecer esta cidade que vejo da janela do meu quarto, quarenta e sete, acabou, eu quero ir para casa.

A porta se abriu, eles estavam lá, pai, mãe, família. Pareciam mais velhos, menos entusiasmados, teve a impressão de ter dormido no filme e acordado sem entender quase nada. Ainda eram felizes. Imaginou ouvir alguma coisa, não disseram nada. Tentou coçar a barba uma última vez, não deu certo. Foi quando resolveu aproximar-se, tinha esquecido dos detalhes de seu plano, teve medo de fracassar. Paname é como os parisienses chamam Paris, deitou o rosto no ombro da mãe e chorou.

1 comment:

Priscila said...

Existem pessoas que escrevem, e artistas que escrevem.
Você é um artista.
Nos transporta no tempo e faz tudo real e quentinho (como fresco e novinho) como a sensação de feijão quente, no arroz branquinho, misturado com ovo mole...
Delicioso e encantador.