Tuesday, August 15, 2017

Metonímia

Passou rápido. Existiu em tão breve instante, que sem grande esforço não teria mais lugar. Apertou-se elegante ali entre dois fachos de vida, fez lembrar o sol que entra desavisado pelas frestas da noite. Um espasmo, lapso, aquele dia de verão que vem a deboche dos invernos resignados para lembrar que o verão ainda existe, que o verão espera lá fora. Latente, covarde.

Tudo depois foi ressaca; um tempo que se prolonga em tentar entender as coisas vivas, um respeito absoluto por todas as coisas vivas.  Como a casa depois da festa ainda é festa, como a rua depois do bloco ainda é carnaval.  Mas lembrar que naquele filete de tempo em que esteve, naquela fração invisível de tempo entre todas as coisas que existem de fato, eu olhei fundo nos olhos dele e eles eram assim da cor do abismo. A vertigem nua do amor da qual ninguém sai ileso. Nunca.  

Passou rápido. Existiu em tão breve instante, que sem grande esforço não teria mais lugar.  Mas veja como a vida é irônica: o sopro fez lembrar o furacão. No quarto de uma noite só, eu arrumo a bagunça de uma vida inteira.

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