Monday, August 30, 2010

Antes que fosse Jack

Veio um carro na contramão e a pancada o alçou em voo como um pássaro errante. Quando acordou, chamava-se Jack, e isso era tudo o que sabia - mas Jack é um nome tão estranho por esses lados de cá. O passado como era já se foi, e quando volta é como um refluxo amargo. Sorte a dele, porque tudo agora parece mais com um alívio, do que com uma dura pena, como se lhe dessem a chance de ser uma nascer de novo e então, ele se reinventasse e escolhesse somente as lembranças que o fizessem um grande homem.

Jack precisa aprender a fumar, a fazer pequenos furtos, a gastar seu dinheiro com drogas e putas caras. E já não haverá alma viva que possa lhe constranger, mesmo que use a velha jaqueta de couro verde, mesmo que ande como se anda nos filmes e se emocione com memórias falsas; Jack, 25 anos, projetado em tela branca, recém-nascido há poucos minutos, não tem mais nada que possa temer.

Alguém bate na sua cara : Fique comigo, Jack, fique com a gente. Jack abre os olhos desnorteado. Quando o carro apareceu na contramão, Jack, bem antes que fosse Jack, já tinha vivido o bastante para ser um tanto arrogante com as coisas pequenas da vida, mas de repente, ali estirado sangrando no asfalto, os carros todos passando, as letras das músicas, as cidades, as coisas todas se permitiam a uma segunda paixão.

Levantou-se cambaleante com a ajuda de estranhos. Olhou em seus rostos, tentou decifrá-los respeitosamente, mas nenhuma palavra lhe veio à boca. A cidade inteira se rasgava num abismo entre tudo o que se prometeu viver e tudo o que se viveu de fato. Jack já não podia sofrer pelos amigos perdidos, não se lamentava por sua orfandade de pais vivos. Cada encontro que tivera antes simplesmente desvanecia na memória. Era homem livre agora. Se por acaso, no futuro, uma criança aparecesse para reivindicar pelo pai ausente, ele não sentiria remorso ao vê-la soluçar de saudade. E quando escrevesse seu livro de memórias, escolheria as histórias lindas e sujas do tempo em que acordava entre corpos estranhos, do tempo em que não sabia se comportar em mesas bem postas, e fugia de casa pela janela do quarto, e deixava bilhetes apaixonados debaixo das portas, e preferia as piadas (e os amores) que durassem o instante exato para que não fossem apenas disfarces da solidão.

Jack pede um cigarro a um transeunte. Passeia com a cabeça por imagens desconexas. Na calçada, um mendigo toca violão lindamente. Ele pára para ouvi-lo cantar, deposita duas moedas em seu chapéu, depois fecha os olhos tragando a fumaça; as notas da música vão o deixando especialmente melancólico. A melancolia é uma tristeza tão elegante – pensa Jack quase embriagado - é uma saudade que inspira sem nem ter alguém para faltar. Porque ainda que fosse homem recém inventado e não guardasse quase nada de outros tempos, aquele domingo tinha a aparência exata de todos os outros domingos e seguia rigorosamente a liturgia cansada das coisas prestes a acabar.

Jack deitou-se no banco da praça, a cabeça lhe doía como nunca, mas não podia se esquecer da única coisa que lhe restava agora, então repetia baixinho: Jack, Jack, Jack. E assim, completamente livre, completamente novo, como calhamaços de um livro escrito a lápis que alguma ironia da vida tratou de apagar, Jack morreu sem nunca ter vivido.

1 comment:

Li said...

qdo tem mais ?