Monday, July 09, 2007

A Queer Story

Para Dominic Wetzel

Quando pergunto: Are you?, ele responde: Not exactly, mas depois fica meio calado, kind of blue. No bar toca uma música triste, dessas inglesinhas que fazem a gente chorar. Eu quero saber mais sobre ele, mas ele não quer falar sobre o assunto. Poor guy, penso comigo, mas fala para mim: What did you mean when you said “not exactly”? – sou curioso, as pessoas passam espremidas entre a parede e o balcão (isso é basicamente um corredor sujo, chamar de “bar” foi com a melhor das intenções). I am queer, ele diz de repente e o mundo inteiro pára. Impossível não voltar milhões de vezes à mesma cena para assistir de novo: ele virando a cabeça de saco cheio, pausa dramática, voz grave, sotaque de Nova York, I am queer, and that is not exactly so many things...

Eu uso uma camiseta marrom, presente de aniversário de três anos atrás. A camiseta tem a foto do James Dean segurando um cavalo, com uma tarja preta nos olhos e chapéu de cowboy. “The lonely hunter” está escrito em vermelho. Are you the lonely hunter?- ele pergunta e dá um gole no vinho barato em copo americano, eu reconheço a breve oportunidade: Tell me, boy, do you wanna go for a ride? Do you wanna see where this road really ends? Ele sorri um sorriso de meia boca, diz que sim com a cabeça, e daí por diante, gestos e palavras. Nem seria preciso tantos detalhes dramáticos, porque neste momento, o mundo foi superado em séculos, não há entre nós ruínas, ninguém conta a velha história dos derrotados.

Eu não quero perder de vista este lugar. Não quero descartar qualquer hipótese de amor, químico, físico, geográfico, em progressão geométrica. Neste canto do mundo, as pessoas escorregam feito sabonete. Nada é muito íntimo - só alguns segredos no calabouço. Essa gente estranha me olha cheia de piedade (estranha no sentido bom da estranheza), e eu já não me assusto com eles, muito pelo contrário, eu me apaixono nem duas horas depois, subo no telhado com qualquer um, e eu quero ser tão louco e tão prático e tão claro. Fechem os portões! Daqui ninguém sai. Viveremos para sempre trancados, escreveremos nossos próprios livros, picharemos nossos próprios muros, enrolaremos nossos próprios cigarros. Não teremos nem polícia, nem governo, nem semana que vem. O crime será revisto, revisitado. Estou pessoalmente proibido de amanhecer sóbrio numa segunda-feira para negar todos os sábados de festa.

Ele prende o cigarro entre os dentes, pergunta: Do you smoke,boy?, eu digo: Not anymore, mas nunca aprendi a fumar. Ele acende o fósforo em uma telha, e eu tenho a impressão de que somos mesmo pessoas estranhas - impressão que não se confessa, mas que, do alto do telhado, se acredita e se faz caras de que o mundo é tacanho demais para gente como nós. You know, boy, a word can make you a prisoner - ele diz e consegue ser ainda maior que todos os bandidos e todos os cowboys- You believe a name is what you need , but all you need is a territory.

Eu vejo as fronteiras cada vez mais tênues, a noite desandando em dia, a natureza como uma invenção. Eu vejo diluírem fêmeas e machos, músculos e fragilidades, e o território que me interessa é a simples lembrança deste lugar. Man, you might think I am drunk, but I love you already - digo com toda sinceridade do mundo. Ele acha engraçado, sorri, toma um pouco de ar. De novo uma daquelas cenas para repetir milhões vezes (sua voz é só ouvindo para saber): Boy, so queer is what you are.

2 comments:

k said...

inspira-me

Anonymous said...

sonharei com essas cenas.