Sunday, April 29, 2007

Da natureza inevitável II

Naquela manhã, ela me ligou. Eu estava regando algumas plantas na janela (o “eu” mesmo que te escreve não tem plantas nem gosta delas, mas o “eu” que te fala estava regando algumas plantinhas na janela de um apartamento em Ipanema). Ela disse: “Alô, e aí? Quanto tempo, né? Não, meu amor, não vai dar. Não sei se te falei, mas estou namorando. Nosso café fica para outro dia. Nem amanhã eu posso, porque ele e eu vamos para uma pousadinha em Parati passar o fim de semana”. Desligamos o telefone. As plantinhas cresciam robustas, eu passava o dedo em suas folhas, e elas eram delicadas e frágeis.

Na semana seguinte, eu voltava do supermercado e parei para tomar uma água de coco na praia, tocou o meu celular. Era ela: “oi querido, que saudade. Não, amor, eu não posso. Sabe, eu ando tão feliz, ando fazendo tanto sexo, eu quero ter uns três filhos com ele. Um dia você vai conhecê-lo. Ele é o máximo, jornalista, pegada de homem. Fica para a próxima. Você me entende, né? Sem ressentimentos.” A maresia deixava o calçadão esfumaçado, um cheirinho de peixe e mar. Eu via a minha janela lá no alto do prédio, e das plantinhas já brotavam pequenas flores amarelas.

Um mês se passou. Ela me deixa um recado no celular, pede que eu retorne a ligação. “Que bom que você me retornou. Nossa, estou tão cansada. Ontem fomos numa festinha dos amigos dele. Foi a primeira vez que ele me apresentou como namorada para os amigos. Estamos praticamente morando juntos. Ele fala que me ama todo dia. E eu sei que é verdade, sabe? A gente sabe quando o cara fala sério, dá para saber. Ai, desculpa, querido, mas eu vou ter que te deixar agora. Ele está me gritando lá da cozinha. Fez um risoto, eu preparei os mojitos. Quando a gente se vê? Vamos ao teatro semana que vem? Sábado? Fechado.”

No sábado, ela não me liga. Daí, eu mesmo ligo para saber do teatro. “Oi, querido, estou aqui com o meu amor. Não vou poder ir ao teatro hoje. Ontem fizemos sexo dentro do banheiro do restaurante, eu te contei? Fazia tempo que eu não fazia isso. Voltei para a mesa sem a calcinha. Coloquei na bolsa. Na mesa estavam os amigos do trabalho dele. Ele é o máximo. É simplesmente o cara mais espetacular do mundo. Nem é uma questão de beleza, nem nada. É de cheiro, sei lá. Eu gozo só com o sotaque dele. Eu estou muito feliz”. As flores amarelas eram pequenos sóis. Brilhavam como constelações na minha janela. Eu as regava, porque queria que elas crescessem e se destacassem para se fixarem finalmente no universo.

Enquanto foi feliz, eu nunca mais a encontrei. Às vezes, ela me mandava mensagens engraçadinhas pelo celular: Saudade, ass: a mulher mais feliz do mundo. E eu já não sabia se deveria falar; se eu, como amigo, deveria lhe perguntar o óbvio, mas os dias são tão atarefados, e a gente tem tanta coisa para fazer, trabalhar, regar plantas, tomar água de coco. Depois de sei lá quanto tempo, ela me liga: “ Alô? Olha só, você sabe de algum filme bom que esteja em cartaz? Porque hoje eu vou ao cinema com o meu amor. Não sabe não? Você não sabe de nada. Beijos, tchau”, mas antes que ela desligasse, eu tive coragem para lhe perguntar: “o que te faz tão triste?”, e ela se assustou com a pergunta, porque eu, mais do que ninguém, deveria saber que ela era muito (muito!) feliz. Ela ficou insultada: “como assim? Você é um ridículo”. E, então, eu disse que era um engano meu, que ela esquecesse aquilo e que curtisse o cinema de domingo.

Foi bem rápido que ela me ligou de volta. Ela chorava e dizia que não se reconhecia mais, que andava deprimida e insegura. Ela tinha a voz trêmula, eu precisava dizer as coisas certas. E por mais de meia hora, eu tentei dizer, mas eu sabia do que se tratava, sabia que eu pouco poderia ajudar. Ela desligou. Deve ter chorado no quarto um pouco antes de dormir. No dia seguinte, quando encontrou o homem da sua vida, ela foi feliz de novo. E olhou para as outras mulheres que passavam e pensou: eu sou mais feliz do que vocês, eu não preciso de mais nada na vida. Da natureza inevitável pouco se pode mudar. As flores caladas em minha janela eram mais flores e mais bonitas, porque não me diziam que eram flores. Se, por acaso, me dissessem como eram flores, eu também duvidaria das suas intenções. Pensei que seria este o meu melhor presente, fui até a janela e escolhi o vaso mais bonito, depois pedi que o entregassem na porta de sua casa no outro dia pela manhã.

2 comments:

Anonymous said...

E já dizia Caeiro/Pessoa,

"Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."

k said...

Lindoooooooo!