Sunday, May 28, 2006

Não foi o diabo quem disse

Não é assim tão óbvio. Eu não te odeio, por me odiares. Eu te entendo apenas. Apenas quando sinto o cheiro desse mofo molhado nas paredes da tua casa, dos teus amores escondidos. Eu te vejo caminhar para trás, todo dia quando anoitece, eu te vejo mais longe, e reconheço no teu rosto, que nunca me olha, o pavor que sentes da vida. A vida te dá medo. É normal que tenhas medo, porque és rijo como pedra e mais antigo que o mais velho de teus ancestrais. Talvez, por isso, em algum equivocado instante, eu tenha querido te impedir do vexame público das mentiras mal contadas. Mas eu não tinha o direito, mesmo sabendo que tudo em ti era compresso e longínquo, que os pudores na tua língua de tarde eram o fracasso do teu beijo à noite, eu não tinha o direito de querer te salvar.

Neste dia em que começaste a me odiar, começaste a me conhecer de fato, mas me amar não seria tão bom, se me odiar não fosse tão mais fácil. Agora escuta: eu não sou homem de penumbra, nem gosto de lugares meio iluminados. Não sentirei ódio de ti, mas não serei bom o bastante para te perdoar tão cedo, porque ainda és tu todo o oposto do que eu respeito nos homens, te tornaste o vazio desesperado de uma noite de lua, quando chora o lobo lá longe com a vergonha que sente de nós (e a vergonha nunca é pelos motivos que parece).

Eu existirei por ti. Eu te prometo, homem, que em cada dia torto, existirá em mim: tu e eu e todos os outros. E terei paixão maior pelos teus pecados negados com maior veemência. Por agora, gozarei com a tua mentira e dormirei em paz com os teus tormentos. E confesso que tudo que eu fizer não será inteiramente por mal, mas eu não nego um vil prazer na maldade. E talvez leve séculos para que me perdoes também, porque se nossos caminhos não são os mesmos, a mesma estrada tem curvas reversas. Hoje, prefiro confiar nas idéias claras dos nossos tataranetos, mas confio porque sou ingênuo, sei que tataranetos também traem tataravôs.

Se eu ando meio desajeitado, esbarrando nas coisas, é porque este não é o meu lugar. Mas tu, homem, segues sendo teu segredo em qualquer lugar que te escondas. Tu és teu ridículo mesmo depois de escorre-lo pelos ladrilhos dos banheiros imundos. Tu e teus inimigos copulam diariamente sobre mesas bem postas, porque tu és fraco como um pedaço de carne. E quando choras, quando rezas à noite e choras pelas mazelas do mundo, és ainda mais patético que teu deus agonizante e eterno na parede.

1 comment:

Medication said...

maravilhoso conto :)

"eu tenha querido te impedir do vexame público das mentiras mal contadas" tirou-me o folego!

:)