Eu vou te dizer, rapaz, que assim para uma quinta-feira, assim honestamente falando, se você me perguntar em que acredito e se acredito nessas coisas, porque convenhamos, eu sou um cara bastante cético, não sou filho de Ogum, nem de Alá, nem de Jesus Cristo, sabe? Embora compartilhe dessa curiosidade festiva por eles, democrática e abundante, mas quando o ano acaba e eu vejo o mar, as mulheres de branco ali na praia da Urca, toda noite quando eu chego em casa, bate um aperto sincero, sabe? E se você me perguntar por quê, eu não sei. Eu choro sempre. Faz quatro dias que eu choro toda noite. Eu acho que é desarranjo químico, porque nem é choro de tristeza. Preciso perguntar aos amigos cientistas, porque se bobear a gente recebe tanta explicação transcendente, que acaba acreditando nelas. Mas me dá uma vontade de entrar naquele mar, de falar com ele, mesmo sem ouvir porra nenhuma, dá uma saudade do mar. Se deus existe, e eu nem estou aqui para falar sobre isso agora, nem cabe a mim numa quinta-feira de fim de ano, um bocado de trabalho para entregar, mas se deus existe, então deus é o mar. E é bem quando o ano acaba mesmo - e as coisas são só bonitas, porque acabam – que eu me encho dessas banalidades todas, começo a reparar nas flores brancas, nas rodas organizadas na areia da praia e dizer: vamos lá, rapaz? Vai ver você sente igual e escuta igual e acredita (sem acreditar) igual a mim. Porque em mim só existe agora, depois passa. Mas agora está bem aqui nesta curva, nesta praia. Bonito demais de se ver. Todo ano que acaba é bonito demais.
Friday, December 20, 2013
Todo Ano Que Acaba
Eu vou te dizer, rapaz, que assim para uma quinta-feira, assim honestamente falando, se você me perguntar em que acredito e se acredito nessas coisas, porque convenhamos, eu sou um cara bastante cético, não sou filho de Ogum, nem de Alá, nem de Jesus Cristo, sabe? Embora compartilhe dessa curiosidade festiva por eles, democrática e abundante, mas quando o ano acaba e eu vejo o mar, as mulheres de branco ali na praia da Urca, toda noite quando eu chego em casa, bate um aperto sincero, sabe? E se você me perguntar por quê, eu não sei. Eu choro sempre. Faz quatro dias que eu choro toda noite. Eu acho que é desarranjo químico, porque nem é choro de tristeza. Preciso perguntar aos amigos cientistas, porque se bobear a gente recebe tanta explicação transcendente, que acaba acreditando nelas. Mas me dá uma vontade de entrar naquele mar, de falar com ele, mesmo sem ouvir porra nenhuma, dá uma saudade do mar. Se deus existe, e eu nem estou aqui para falar sobre isso agora, nem cabe a mim numa quinta-feira de fim de ano, um bocado de trabalho para entregar, mas se deus existe, então deus é o mar. E é bem quando o ano acaba mesmo - e as coisas são só bonitas, porque acabam – que eu me encho dessas banalidades todas, começo a reparar nas flores brancas, nas rodas organizadas na areia da praia e dizer: vamos lá, rapaz? Vai ver você sente igual e escuta igual e acredita (sem acreditar) igual a mim. Porque em mim só existe agora, depois passa. Mas agora está bem aqui nesta curva, nesta praia. Bonito demais de se ver. Todo ano que acaba é bonito demais.
Sunday, September 22, 2013
Que seja no Rio
Os versos tortos sem mais indícios
são versos novos com velhos vícios,
um amor inexplicável por inícios;
uma cidade que promete em tudo começar de novo
desde a lua cheia que nasce na pedra alta,
até a manhã de aquarela debochada
pintando o céu, espreitando o mar e os precipícios
da alma, dos bares da Gávea, da memória de outros tempos,
dos nove amores de Vinícius.
uma cidade que promete em tudo começar de novo
desde a lua cheia que nasce na pedra alta,
até a manhã de aquarela debochada
pintando o céu, espreitando o mar e os precipícios
da alma, dos bares da Gávea, da memória de outros tempos,
dos nove amores de Vinícius.
Se eu enlouquecer, que seja no Rio.
Os deuses pretos me entendem mais,
Os deuses pretos me entendem mais,
e me amam mais do que eu a eles.
Se eu não espero dos deuses mais do que espero dos homens...
dos homens e dos ratos de Copacabana.
O Rio engana,
profana o sagrado da minha bossa.
A nova fossa vê o sol se pondo do Arpoador.
Vai ver o amor é o nosso esquema.
Saravá, Poetinha, Saravá, Ipanema.
Se for para sofrer, que seja aqui
do escuro inquieto de um coração tardio.
Viver sem amar é viver arredio.
Viver sem amar é viver arredio.
E para viver só de amor, então, que seja no Rio.
Thursday, August 15, 2013
When Leo loves Aquarius
Love was a trap I once got you,
hidden in the curves of a cliff.
When walking all alone was so promising,
love was a trap hard to leave.
But days tend to tender the old promises.
Days defy the view with wide sea.
And windows always opened are still frightening,
locked in a room love can’t be.
Time, lazy god, holds his pyres,
burning in the shadows of our sleep,
bending our dreams to his desires,
proving our nature never ceased.
It’s known Leo is a sign of fire.
It is a fact Aquarius is a sign of wind.
When I burn, you blow the pyre;
through your deserts, I heat the breeze.
So breath, my old love, fly and breath.
Play to the edge of your freedom
Hearts in a cage shall not live
Trapped by a love of no wisdom.
If I am doomed to burn, you are cursed to fly
higher than the signs of our birth.
Fate hanged our hearts up in the sky
ruling our lives down in the Earth.
For every night the stars are still aligned
against the odds of all those evil creeps,
I will praise the love that kept us tight.
You are free, but caged. I am caged, but free.
Wednesday, June 05, 2013
O Bestiário das Onze Horas
Vitório Grimaldo era desses homens de colecionar bestas. Algumas já
mortas, outras saídas da sua cabeça, mas fazia sempre uns desenhos estranhos e
os guardava em grandes cadernos na estante do quarto. Todo dia, às onze horas em
ponto, em seu transe diário absurdo, Vitório Grimaldo desenhava sua nova
criatura cheia de detalhes e notas para lembrar depois. Eram encontros
irremediáveis de homens e feras, plantas e elementos da natureza, todas tão cheias de personalidade, que ele às
vezes acreditava tê-las de fato conhecido em vida, mas fato é que frequentavam
apenas seus sonhos mais escuros.
Com os anos e com as tantas onze-horas da vida, Vitório Grimaldo atingiu
uma compilação incalculável de criaturas estranhas, todas catalogadas alfabeticamente;
e eram assim como verbetes de uma dimensão paralela, tão vasta quanto sua
solidão pudesse supor.
Em um dia de outono, veio ter com ele uma menina. Carlota era o nome
dela. Pelo menos foi isso que ele escreveu no cabeçalho daquele desenho, que ele então eternizou em linhas exatas de caneta preta e esmero.
Carlota era metade menina, metade dia de chuva. Tão pequena e mirrada,
que na maioria das vezes o que se enxergava era apenas uma criança sob a nuvem
escura de um dia de temporal. Ela tinha a pele do rosto cinza e gelada, de quem
guarda no coração todos os fantasmas e todos os trovões do mundo. Quem a conhecera, escreveu Grimaldo em nota de
rodapé, não se lembrava de ter visto menina tão triste, nem de tê-la ouvido contar
qualquer lembrança feliz da vida. Era apenas chuva e apenas raiva (ou a espera
da chuva e a espera da raiva), mas raiva de tudo mesmo; de qualquer criatura que um dia notara a sua presença, e raiva de quem por alguma sorte nem tempo
teve para notá-la.
Relevada a sua fúria mais fundamental, o curioso mesmo sobre aquela menina é que quando ela dizia qualquer coisa, a pobrezinha fazia chover. Assim literalmente, sem poder evitar. Era só abrir a boca e um
deságue incontrolável caía sobre o corpinho ligeiramente encurvado para
frente. E assim, como se ignorasse sua natureza mais aterradora, Carlota
desaguava mágoas por horas e horas. Em um dia ruim, ela inundaria um quarteirão
inteiro só com uma opinião qualquer. O que você acha deste livro? E chuva! Você gosta
desta música? E uma tempestade tropical. Tão forte o desastre, quão fundo fosse cravado o rancor na alma.
Quando finalmente se calava, já havia inundado um canto inteiro do mundo; e nem um pedaço de sol apaziguaria o seu coração.
Vitório, então, sentindo-se meio responsável
por sua criação acidentada, teve a ideia de lhe presentear com um guarda-chuva de cabo
torto. Sem grande cerimônia, desenhou em uma das mãozinhas de Carlota um objeto
até simpático, que além de lhe emprestar certa elegância, a protegeria das
consequências indesejáveis de sua alma. Mas Carlota insultou-se tão logo
viu-se protegida da nuvem escura que cobria o seu céu. Jogou furiosa o
guarda-chuva no chão. Seus olhos trovoavam de ódio. Estava verdadeiramente ofendida.
Dali por diante, não se sabe ao certo as palavras que disse ou as palavras que pensou em dizer, mas eram feias como descargas elétricas rasgando o céu de maio. E aquele aguaceiro inundou casas, afogou pessoas em suas rotinas desavisadas, transbordou rios, revirou o mar.
Dali por diante, não se sabe ao certo as palavras que disse ou as palavras que pensou em dizer, mas eram feias como descargas elétricas rasgando o céu de maio. E aquele aguaceiro inundou casas, afogou pessoas em suas rotinas desavisadas, transbordou rios, revirou o mar.
Quando Vitório finalmente terminou o desenho daquele dia, ele estava assustado com as intransigências climáticas daquela menina. Percebeu, então, que a mesma caneta de tantas outras criaturas havia se partido ao meio. A tinha
preta escorria pela borda do papel até sujar a escrivaninha; sua mão direita
inteira suja de tinta. Ele olhou para a mão e olhou para o desenho do papel úmido e transfigurado. Carlota chovia sem dar trégua. Era capaz de se borrar inteira num lamaçal de ressentimentos. Tão carente de sonhos bons, Carlota resistia em dilúvio impertinente. Se ninguém fizesse alguma coisa rápido, pensou Vitório, se ninguém estancasse os pavores de sua alma ou aprendesse a amá-la assim como era em sua natureza particular, Carlota viveria apenas para ver desmanchar o mundo.
Friday, March 15, 2013
Gente de ir embora
Vovó já não se lembra de mim. Ou
lembra-se, mas não diz nada. Cansada de falar das velhas coisas, calou-se de
vez. Oitenta anos atrás, ela subiu em um pau de arara com a família e
foi embora do Piauí. Viajou de vapor no São Francisco, ônibus velho, lombo de
cavalo, para chegar naquele lugar, que de tão vazio, até parecia o futuro. E
futuro foi por algum tempo, muito tempo, mas logo o futuro fez anos, filhos, netos, e seu tempo descambou-se em um presente
inegável, dia após dia, consumido por todo tipo de história, boa e ruim.
Então, sessenta e cinco anos mais tarde, seu neto pegou um avião e foi embora de
lá (futuro dela, passado seu); repetindo as minúcias da velha história,
procurando, quem sabe, as mesmas coisas de quem não cabe exatamente onde nasceu. É que nessa vida existem dois tipos de gente: gente de nascer e morrer, e gente de
ir embora. Nenhuma explicação é tão dura, nem tão simples. A ternura é poder
entender que por mais que se ame e se queira atravessar os séculos na insistência
de um encontro, o tempo caduca as coisas para que elas signifiquem mais
longe que a própria vida.
Wednesday, March 06, 2013
Dois mil amores
Ela saiu tarde da noite. Era onze de maio de dois
mil e dez. Saiu carregando uma argola com quinhentas chaves penduradas a
ela. E o chacoalhar daquelas chaves ouviu-se ecoar por toda Paris. Uma menina
sem nome, escondida em um moletom azul, de capuz na cabeça e um chacoalhar de
estremecer o sono dos corações mais serenos.
Ali
pela Ponte das Artes, onde por algum motivo os amantes se amarravam em cadeados
eternos, a menina parou finalmente. Reparava os cadeados com estranha piedade. Ajoelhou-se com seu molho de chaves na mão
e, sem maior cerimônia, prestou-se a destrancar todos os cadeados que por acaso
coubessem em suas possibilidades. Fez tudo calmamente, como em um ritual
sagrado, como em uma cirurgia; um pouco como se libertasse dois
mil corações de uma dura eternidade.
Quando ela terminou seu ritual, a menina jogou os
cadeados abertos sobre o Sena. Não disse uma única palavra; não murmurou reza ou
ressentimento. Apenas ajeitou os cabelos para dentro do capuz e
voltou para casa com a mesma serenidade que duas horas antes havia partido.
Mas enquanto caminhava de volta, ela sentia nascer a derradeira esperança de que nos cantos mais distantes do mundo, olhares estranhavam-se pela primeira vez, beijos amargavam como alimentos estragados na boca, e a intimidade cansada de velhos corações acorrentados finalmente estava livre para escolher entre ficar ou partir; entre amar ou viver condenado ao amor.
Mas enquanto caminhava de volta, ela sentia nascer a derradeira esperança de que nos cantos mais distantes do mundo, olhares estranhavam-se pela primeira vez, beijos amargavam como alimentos estragados na boca, e a intimidade cansada de velhos corações acorrentados finalmente estava livre para escolher entre ficar ou partir; entre amar ou viver condenado ao amor.
Monday, December 17, 2012
Mínimo
Calou-se torto. Como uma árvore morta. Não corria, não
fazia nada. Era árvore. Um deserto e aquela árvore. Mínimo. Não mais que duas
notas. Não mais que duas cores. No retrato inteiro: era ele e o nada. Opostos reduzidos a um só. O começo e o fim do mundo em um mesmo dia, em uma mesma hora. Quase não dava para notar a diferença.
Monday, July 30, 2012
Outra hora, outro lugar
Dos seus olhos, prefiro as cores que não estão, ou aquelas
que, meio desatentas, supõem-se apenas quando bate o sol da manhã. Como dos seus
dias, prefiro os que de longe sinto falta, jamais os que estão agora
calejados desta imensa atualidade. Da sua boca, o beijo de antes; das suas
palavras, as que você nunca teve jeito para dizê-las. Porque deve existir um lugar
onde guardam-se os verbos calados; uma lembrança viva que se acessa apenas quando tudo é estranho demais; o sentido de que, apesar da estranheza, guardada se leva a felicidade.
Sunday, May 27, 2012
O que a palavra quiser
Era como o céu antes que alguém dissesse "céu". Ou antes que a primeira pessoa do primeiro ano olhasse para cima pela primeira vez. Já estava ele ali, inexorável céu, mas nunca alguém o havia visto bonito ou feio, nunca o haviam comparado aos olhos de gente alguma. Então, existia muito pouco de céu no céu, porque é preciso que a primeira palavra diga para que finalmente se faça o que sempre esteve. Não será a palavra a própria vida, mas sem ela, a vida não faria a mínima ideia de que vive. É por isso que escrevo, porque é só assim que posso existir. Se a palavra fosse tinta, eu pintava; se fosse fotografia, eu emoldurava na parede. Ser só pode ser se abstrato. No final das contas, eu terei vivido apenas o que a palavra puder contar; e a verdade sobre mim será somente o que a palavra fizer dela. Morrerão caladas todas as outras possibilidades.
Thursday, May 17, 2012
Controvérsias
Era filho de Iansã, lindo e inconstante como uma tarde de março. A qualquer hora ele chove, alguém disse sem muito ser compreendido. Contam que ele caminhava sempre por Ipanema, descalço, cantava sempre a mesma música de Caetano, ou era do Chico, não sei. Parece que chorava ouvindo essa música no rádio, ou era suor confundindo lágrimas, porque o dia estava quente feito o inferno, então ele dançava e dançava, talvez porque fosse triste (ou suspeita-se muito silenciosamente de que apesar de tudo, dançava, porque fosse feliz). Seus olhos tinham a cor de um céu castanho, daquele céu um pouco antes de anoitecer o dia. Mas há quem diga que seus olhos eram assim como o mar revolto, quando a maré acorda ressacada e furiosa e não há cor que a aplaque ou justifique. Só sei que eu não me esqueço dos seus olhos. Quando ele olhava fazia enrubescer as bochechas dos pobres coitados. Leonino obsceno, olhava dentro dos outros como se desnudasse a alma.
Ninguém no mundo se lembrava do dia ou da hora exata em que havia nascido, ou de seu nome, mas existiam sérias conjecturas sobre as estrelas que ascendiam no horizonte do seu céu. Se fosse mesmo Aquário, talvez isso explicasse a sua elegante solidão.
No suposto dia do seu aniversário, Não-sei-quem o viu descer com um chapéu na cabeça e uma flor na lapela. Não-sei-quem o viu dançar mil músicas e devorar mil cigarros até a noite se empanturrar de estrelas. Essa bicha não tem nome?– resmungou um tipo lá dentro do bar. Essa bicha é muito abusada – disse outro entre um pigarro e uma garrafa na mão.
Ele tinha a Lua em Câncer, e a Lua em Câncer faz sentir coisas demais.
Quando o tempo fechou, não teve Mãe Preta que o acudisse, não teve socorro que o salvasse. Tudo lá no fundo aparente na superfície de Agosto, todos os seus segredos violentamente revelados. Dançou mais do que devia, desnudou a alma dos homens errados. Quando o encontraram, nem parecia gente, de tão partido era difícil juntar num retrato.
Filho de Iansã, Leonino inveterado, Aquário no horizonte, Lua em Câncer, Cabra-macho.
Tuesday, May 15, 2012
Paisagem
Um resto de mato, uma flor, a
margem de um rio, uma criança correndo, camiseta vermelha, o céu azul clarinho. A
janela aberta para o que existe dentro e fora dele, para as coisas que ele
pode alcançar além do muro impenetrável que cobre a cidade, que cobre o mundo todo, mas nunca os
seus olhos. "Da janela, eu vejo o mar"- escreveu certa vez em um dos seus cadernos,
porque muitas vezes, ali sozinho, sentado em sua escrivaninha, completamente
calado, enxergava a montanha verde e a relva verde como se recém descobertas
depois da chuva; e o mar, quando via, era de grandes tormentas, navios eternos,
embarcações de outros tempos. Teve, inclusive, um dia, que lá longe, ergueu-se a
cabeça de um dragão furioso (ou de qualquer outro monstro que sobreviva às
armadilhas do oceano profundo), e ele teve muito medo de que a fúria do monstro devorasse de vez os seus segredos guardados. Mas em dias calmos, desabrochavam pelo avesso flores amarelas, que ele não sabia o nome (nem queria saber), mas era como se fossem um pedaço do céu.
Seu
quarto ficava no fundo de um barraco improvisado, parede de tijojos, lâminas
de latão, lona, jornais, mas era para além daquela triste visão, que o menino passava horas à espreita do mundo; passava a vida escrevendo páginas e páginas e abusando do privilégio das mais lindas e breves paisagens.
Monday, March 19, 2012
Valsa em dois tempos
Ele a repara em silêncio. Ela não o vê, e quando vira-se já foi-se o tempo do olhar. Então ela o repara por longos segundos sem que ele a perceba, mas ele já não está, ou está tão longe, que não importa que continue ali sentado, já não a enxerga. E assim pela vida, uma longa dança dos erros, sempre atrasados, sempre cedo demais. Mas se um dia essa valsa se acerta e meio que desavisados olham-se nos olhos; se um dia, assim constrangidos são obrigados a confessar o que sempre souberam, vai parecer que nasceram para dançar, porque quando dois se encontram toda valsa fica fácil, dois para lá, dois para cá.
Friday, March 09, 2012
O Lama
Antes que ele entrasse na sala de jantar, alguém tratou de explicar que ele era o tal sujeito santo, um “Lama” mais especificamente, e que havia passado os últimos três anos em um retiro tibetano completamente isolado da civilização. É assim que nos chamaram: “civilização”. Eu olhei para o meu relógio, para minha taça de vinho branco e fiquei quase constrangido. E pensar que ontem mesmo eu estava na frente de uma vitrine para namorar um terno Burberry, tentando entender, mesmo que hipoteticamente, em quantas prestações eu poderia dividir aquele terno para que ainda sobrasse dinheiro para o aluguel. Os Lamas são silenciosos, alguém colocou sabiamente, por não falarem com ninguém por tanto tempo, perdem a necessidade do verbo, portanto, nos foi gentilmente solicitado que não o assustássemos com a nossa inconveniência ocidental.
Eis então que ele entra na sala. Um sujeito bastante simples, de roupas brancas, algodão crú, e um rosto não tão estranho assim. Eu poderia jurar que conheço este homem, mas alguém me repreende com um "Psiu, não seja ridículo". Devo tê-lo visto na televisão, dou um gole no vinho, aperto os olhos como quem vasculha lá dentro da cabeça todas as gavetas fechadas.
Abril de 2004, Copacabana, seis da manhã: dois bêbados sentados na sarjeta tentando encontrar onde raios haviam escondido os ácidos que tomariam na próxima festa. Puta que Pariu, você disse que estava na sua cueca. Uma tatuagem com alguma frase de Kerouac no ante-braço, ou era deNietzsche, não sei. Pequenos pedaços da noite (quase uma invenção), pista, praia, cama improvisada com colchonetes de acampamento.
Meu deus - grito acidentalmente, como se vindo das profundezas de um lago e precisasse respirar depressa. As pessoas me olham assustadas, mas estou tão extasiado com a lembrança que não consigo evitar: Eu acho que comi esse Lama.
Tuesday, March 06, 2012
Nó
A Lua é o nosso nó. Dois cantos do mundo atados nesse velho encontro. Já não sei por onde andas ou com quem andas nesses novos dias, mas é noite onde estou agora e a Lua insiste cheia no céu, e não existe saudade que amanheça por aqui.
Friday, February 24, 2012
O Homem que era Vento
Contam que há muitos anos, nas profundezas de um ilha austral, em uma cidade que ninguém jamais guardou o nome, vivia um jovem que havia nascido deformado dos sentidos. Não tinha a compreensão do tempo ou do tamanho das coisas. Tudo era grande e rápido, mesmo o detalhe mais ínfimo ou os processos mais demorados, a ele a vida passava feito um furacão. Certa vez, desolado com sua confusão dos sentidos, o jovem foi ter com o deus Éolo, senhor de todos os ventos, a quem implorou que lhe curasse da tortura de ver a vida passar assim tão depressa. Éolo, benevolente e sábio como um pai, lhe respondeu que não poderia mudar sua natureza mais íntima, porque era ela o que lhe definia em absoluto, o que lhe fazia existir independente dos outros homens, mas para acalmar sua desolação, lhe transformaria definitivamente em vento, assim toda a sua natureza faria finalmente sentido, assim ele estaria para sempre (e ao mesmo tempo) chegando e partindo, e as coisas não teriam mais estatura ou duração. Quando acordasse de bom humor, seria a brisa que sopra do mar, como lábios que acariciam rostos suaves; quando lhe doesse fundo na alma, seria um inescrupuloso vendaval, como nos dias em que chorava devastado por algum amor perdido. O jovem abraçou com gratidão o seu destino e desde então, viaja por entre prédios e falésias; viaja os mares e os continentes sem nunca poder parar. Para ele, é sempre tempo de partida, porque o vento não é de lugar nenhum. Ninguém nunca pôde ver o seu rosto, apenas Éolo, que o fez invisível como os humores dos homens. Conhecemos somente as suas conseqüências, nos deixamos tocar pelos seus afagos, mas nem uma pessoa teve ou terá tempo de lhe agarrar pela mão e pedir para ficar. O Vento, bem antes que compreenda o tamanho e o sentido das coisas, já é de outro lugar, leve e resignado de sua graça e condenação.
Thursday, February 23, 2012
Depois daquele carnaval
Como entrou, ninguém saiu. Novas pessoas paridas na avenida. Páginas rasgadas, máscaras aderidas feito pele; máscaras tão incrivelmente reais, que não despregam assim quando se quer. A criança rodopiou feito bailarina nas noites que se sucederam em erros e acertos. Tudo era um pouco mentira, um pouco possível. Alguém pintou uma lágrima com tinta azul, que de tão linda, escorreu feito lágrima. E do batom vermelho fez-se um sorriso no rosto do palhaço, que de palhaço só tinha o coração, mais nada. Os amores daquele carnaval ainda pairam no ar feito perfume, e a lembrança nebulosa do que se era antes de tudo, da inocência, que pediu licença e foi viver em outro lugar, longe daqui. O samba só é bom, porque quem samba não sabe que é triste. Cada um louco para se tornar seu próprio sonho, cada um fantasiado de si mesmo. Mas no dia em que o samba parou, eles se olharam nos olhos e quase não se encontraram, ou se viram tão embriagados de novos sonhos, que estavam nus. Taparam-se as vergonhas de antes. Já era tarde. Precisavam voltar à vida, e viver seria um tanto estranho depois daquele carnaval.
Wednesday, February 01, 2012
Um bilhete, um girassol
Pela manhã, quando acordou e a procurou ainda de olhos fechados na cama, encontrou seu lado vazio e quente, como se não fizesse muito tempo que havia partido para sempre. Levantou-se assustado. Na mesinha ao lado encontrou um papel escrito a mão e um girassol num copo de vidro. No bilhete, ela dizia:
“Eu teria te amado a vida inteira. Teria esperado mais, se houvesse qualquer possibilidade real para o que era nosso, mas eu sei que não importa o tempo que passasse, eu seria para sempre essa pessoa que te faz companhia enquanto amor de verdade não chega. E mesmo que não chegasse pelo resto da vida, mesmo que fosse comigo que estivesses em todos os teus dias na espera desse amor atrasado, eu seria somente esta espera, e veria nos teus olhos o reflexo indelicado de um quase amor, esse hiato que se aperta entre duas grandes histórias. Então, eu me definharia em todos os meus encantos; com os anos me tornaria amarga e subserviente ao teu tempo e ao teu gosto. Quando teu amor de fato chegar, eu já terei ido embora. Mas se ele nunca mais voltar, não serei eu a te consolar ou a te convencer das vantagens deste quase amor.”
Tuesday, January 31, 2012
O Tal Inimigo
Eu o vi de longe. Alguém apontou e disse: Aquele é o seu inimigo. É ele quem mais te odeia no mundo. E eu, que nunca o havia visto na vida, senti de repente um respeito inesperado por aquele homem, uma curiosidade inexplicável, como se ninguém no mundo me conhecesse mais do que ele. Preciso falar com essa criatura, preciso conhecê-lo de perto. Os meus amigos ficaram atônitos, como se eu tivesse dito a pior insanidade, como se fosse preciso me amarrar em algum lugar, me impedir de qualquer atitude estúpida. Você espera que ele mude de opinião a seu respeito? Esse homem é capaz de qualquer coisa para te ver morto. E então, uma vez mais, eu tive a sensação de estar diante do encontro mais importante da minha existência. Não se deve ignorar jamais alguém que lhe odeia com tanta paixão. Ninguém havia me tido tanto valor antes. Aquele estranho nutria ódio tão profundo por mim, que estragaria todo o curso de seu destino para me ver morto. Qual é o seu nome? O que faz da vida? Meu inimigo era minha nova obsessão. Eu passaria minhas últimas horas ao seu lado em uma longa conversa, que revelaria, quem sabe, tudo o que eu jamais suporia sobre mim.
Atravessei o salão decidido. Eu estava tão certo, que não pestanejei um único segundo. Ele me olhava de longe inquieto, procurou na bainha o revólver e certificou-se de que estava tudo pronto para quando precisasse. Eu parei a um metro dele: seus traços cansados, uma dignidade no olhar que eu não havia encontrado nem no mais querido amigo. Então, lhe estendi a mão, olhei fundo nos seus olhos: Senhor, é um enorme prazer conhecê-lo, mas antes que atire, preciso de verdade fazer umas perguntas.
Wednesday, January 25, 2012
Meu Filho
Corre pela casa, inventa seus brinquedos, não entende grande parte dos velhos rancores. Ama, porque é fácil. Não sabe se é preto, branco ou furta-cor, porque não pinta as pessoas em aquarelas psicóticas. Seus amores são líquidos, preenchem qualquer espaço, tomam a forma de garrafas, copos, vasos exóticos. Evita instintivamente os batizados malditos. Não acredita em deus, mas tem uma enorme admiração pelo que não entende e não vê. Desenha no corpo cruzes, estrelas, frases em sânscrito. Adora contar que teve seu corpo fechado por uma velha bruxa, que provavelmente nunca existiu de fato, mas é que adora contar qualquer coisa. Quando me olha, é como se soubesse de tudo que eu nunca vou saber na vida, e diz: Take it easy, man, a vida é bem mais simples do que parece. Depois se atrasa em viagens insólitas sentado na areia de frente para o mar. Meu filho se atrasa em tudo. Desde a primeira hora do dia, desde o tempo em que é só uma ideia (e faz muito tempo), meu filho se atrasa nas circunstâncias que o impedem de existir. Sempre é cedo demais, complicado demais. Meu filho ainda não nasceu, porque para ele nascer, eu teria que me tornar o homem que eu já sou, e para isso, já disse alguém muito antes de mim, seria preciso muita coragem.
Thursday, January 19, 2012
O Conto Moral II
Contam que nas agruras de uma guerra sem fim, um soldado capturado teve que viver uma escolha cruel: entre três mulheres, deveria escolher a que seria executada com tiros de metralhadora na manhã seguinte. Não será escolha fácil - bradava um general raivoso. Até amanhã de manhã, você deverá decidir dentre essas pobres criaturas quem lhe é menos valiosa, e colocou três fotografias sobre a mesa. O soldado transtornado engoliu seco quando viu a primeira foto. Era a sua ex-esposa, alguém com quem em algum outro momento tinha dividido as melhores histórias, mas que a vida havia tratado de torná-la amarga e distante; a mãe de seus dois únicos filhos, uma mulher que ele havia verdadeiramente amado, mas pela qual não restava nada além de um terno respeito pelas coisas que viveram juntos. Fitando aquela foto, no espaço que separava seus olhares insistia o silêncio pesado de tudo que se calou por tanto gritar. Um passado não exatamente envergonhado, mas sem anseios de nova felicidade. O soldado então pensou nos seus filhos, na tragédia ingrata de assistir a um pai executar uma mãe. Por mais que o amor já não existisse, por mais que o passado fosse assunto acabado, ele tremeu de pavor.
A segunda fotografia era de seu novo amor, a mulher por quem ele sonhava sonhos bons e suava frio com uma doce saudade todas as vezes que ficavam mais de um dia sem se ver. Uma jovem ideia esculpida nas tardes quentes, um desenho inacabado ainda sem seus pequenos detalhes, mas que anunciava tudo de bom que se pode querer de alguém. Uma suposição, um desejo, um lugar para esquecer a solidão. Quando eles se tocavam, um pedaço de tudo parava para ver e ouvir. O mundo girava a favor deles, as coisas respeitavam seu ritmo. Até a natureza mais amoral e sem sentido assistia entusiasmada ao alvoroço daquela nova paixão. O soldado então deixou escorrer uma lágrima, lembrou-se dos longos domingos, do cheiro que esqueciam um no outro, dos planos ao pé do ouvido. O presente físico e absoluto ameaçado por uma escolha cruel.
A terceira fotografia era de uma mulher linda, mas que ele nunca havia visto na vida; um rosto sem qualquer conexão com lembrança boa ou ruim. A completa falta de razão e sentido. Mesmo que ele se enveredasse por todos os caminhos, não encontraria explicação para defendê-la ou acusá-la. Era simplesmente uma estranha. Sofrer por ela era tarefa difícil. Talvez sofresse apenas pela natureza de missão tão aterradora, mas nada muito além disso. Se tivesse mesmo que escolher entre a mãe de seus filhos, a mulher que ele amava e uma moça sem nome nem nada, estaria quase que oficialmente autorizado a executar esta última criatura: pobre caderno em branco, livro que não se escreveu.
O soldado levantou-se da cadeira aliviado. Amanhã será um dia triste - pensou - mas qualquer homem em minha posição faria o mesmo. Deixou o quartel escoltado pela guarda inimiga. Dormiria para assistir cena cruel: no paredão sujo, três mulheres desamparadas aguardando uma sentença capital. Mas alguns passos após deixar o quartel, como num conto moral, o soldado sentiu uma dor no peito, o mundo rodando, algo parecido com a morte, e caiu desfalecido.
Abriu os olhos horas depois para encontrar uma jovem segurando a sua mão: Pensei que você fosse morrer. Era a moça da terceira foto, linda como quem só existe em histórias de mentira. Você é um homem forte, quando te encontrei parecia morto. Que bom que te trouxe de volta - disse a médica na enfermaria de um quartel insólito.
O soldado entendia pela primeira vez a sua tragédia. Traços delicados rascunhavam em um caderno já não mais em branco. A primeira mulher guardava a sua história, o amor por seus filhos e um bocado das coisas que o haviam feito o que era hoje. A segunda mulher guardava a sua paixão, seu desejo de eternidade e a expectativa de que algum dia se tornasse ela mesma parte fundamental de sua história; e a terceira mulher guardava a sua vida, era a força anônima e sem pretensão que o fazia vislumbrar além da névoa pesada o futuro.
No dia seguinte, o soldado foi então levado para sentenciar uma daquelas três figuras no paredão de fuzilamento. O general esbravejava: Escolha dentre essas três mulheres quem merece menos viver. Da carroceria de um caminhão desceu primeiro a jovem senhora que ele havia amado na juventude. Uma mulher endurecida com os anos, meio pálida, meio feia - tão diferente de quando se prometeram todas aquelas coisas lindas, mas dona irrevogável de seu passado. Sem dúvida, era a pessoa no mundo que mais o conhecia em minúcias. Acorrentada atrás dela, desceu a sua jovem paixão, por quem ele esperava ansioso por cada novo sorriso e agora ali chorava inconsolável por seu destino. Não tinham vivido muito tempo juntos é verdade, mas no pouco tempo que dividiram toda a felicidade parecia conspirar. Sentiu apertar seu peito, quis dizer alguma coisa para que ela lesse em seus lábios, quando então desceu a terceira mulher, parecia calma, certa de seu destino. Não o encarou uma única vez, apenas caminhou descalça até o paredão e aguardou intacta por sua sentença final.
O general improvável pela última vez perguntou: Quem deve ser executada, a mãe de seus filhos, a mulher que você ama ou a mulher que salvou a sua vida? E o soldado não parecia ter dúvidas. Olhou uma última vez nos olhos de cada uma das três mulheres e disse sem hesitar: Mate a mulher que eu amo.
Saturday, January 07, 2012
Para não passar Janeiro
Janeiro não tem calma, quase não dá tempo para tanto janeiro. Os dias fáceis no Alto Leblon, seu sorriso desarmando o Rio inteiro. Porque quando faz sol, é como se o sol fizesse só para nós; e quando chove, o Rio é a melhor desculpa para se passar o resto da tarde na cama. A tarde é o resto da vida. Me faz querer remendar de verão as outras estações.
Eu tento fazer o meu melhor, recontar minhas histórias para que tudo o que existiu antes de hoje seja apenas um pretexto para agora. O verão escaldando nossas ideias, nossas verdades bronzeadas, silhuetas de verdade sombreando as areias de Ipanema. O que seria da cidade sem esse nome? O que será do ano inteiro?
O verão promete mais do que a primavera agüenta. O inverno debocha do que o outono já nem se lembra mais. Mas se janeiro for tudo o que existe para nós e se tornar ele mesmo uma cidade; este lugar será para sempre meu e seu, não interessa o tempo que em janeiro faça, não importa o tempo que janeiro dure.
Friday, November 11, 2011
O Pacto
Estava selado. Dava para ver nos seus olhos, pobre menino encantado com a própria sorte. Pensava nas coisas que poderia fazer agora que a vida seria para sempre fácil. Nem o dinheiro viria sofrido, nem o amor, nem os becos escuros daquela cidade. Quando um relâmpago varreu de luz a sua estrada e os pesadelos todos definharam a olhos vistos, ele, sem que uma palavra sequer fosse dita, teve certeza de que nunca mais haveria um dia triste. A felicidade era um pacto selado com as sombras. E enquanto descia o morro e enxergava lá embaixo a profecia inexata das curvas do Rio, era como se música nascesse de dentro dele, como se cada outro detalhe que não fosse música esperasse para existir depois, porque agora tudo era bossa, tudo era samba.
Saturday, September 24, 2011
Embaraço
Essas pessoas guardadas, esses lugares guardados como coisas que se amontoam em armários mofados. E a gente sem coragem de jogar fora. E então, maldita a hora em que as rádios tocam as músicas guardadas e a cidade pára na volta para casa. Maldita sexta-feira. Você era uma piada antiga. Você era uma daquelas lembranças que a gente chama de “eu não me arrependo”, um frio na espinha interrompido há tanto tempo, exatamente quando eu tive coragem de dizer: “sou um adulto agora”. Maldita chuva, malditas luzes derretidas. E esse quadro abstrato, esse videoclipe absurdo, esses anos 90? Eu não sei de onde raios surge uma ideia, de que fenda no tempo me escapa esse embaraço. Eu não te aceitaria nem em mil anos, mas essa chuva e a rima fácil das músicas que não se pode gostar em público... não conta para ninguém, vai. Chegando em casa, passa.
Friday, July 01, 2011
O Viajante Condenado
Andou demais. Andou tanto, que se perdeu do próprio caminho. As coisas todas lá esperando: sua casa, seu nome, seu futuro, mas escolheu ser ele mesmo a própria estrada, escolheu não se chamar por nome, nem desenhar territórios com palavras. E em algum momento, a vida era tão urgente e tão longe de entender, que o futuro se tornou um presente eterno. Ele, viajante condenado a si mesmo, dessa estrada não escapa jamais. A estrada que é muito antes e bem depois de tudo que se consegue compreender e amar.
Monday, June 27, 2011
Não fosse esse pequeno detalhe
Não fosse esse pequeno detalhe, seria uma madrugada bastante normal: as luzes dos prédios quase todas apagadas, a noite cansada de um domingo cheio de coisas para fazer amanhã. Mas lá no alto daquele prédio, no penúltimo andar, uma luzinha fraca cintilava em um quarto quase esquecido. E debaixo de um edredom bordado com delicados ursinhos vermelhos, um garotinho de sete anos segurava uma lanterna e lia baixinho um livro para os seus brinquedos, que eram os únicos amigos a quem pudesse contar aquela história já tão tarde da noite. Ele segurava um livrinho desgastado com uma das mãos e a lanterna com a outra e apontava para seus desenhos coloridos com lápis de cor. Com aquela vozinha pequena, ele dizia: “Foi então que o Patinho virou-se e disse: Deixa estar, Jacaré, esta lagoa ainda há de secar. E não haverá nada além da lembrança deste lugar, desta hora e deste tempo eterno. Porque não tardará para que as folhas caiam e a natureza retorne ao que é sempre dela. A noite esfriará os seus dias mais quentes, os campos se definharão e a relva verde morrerá pálida e estéril. E nesta hora, Jacaré, você olhará dentro dos meus olhos e sentirá tanto frio e tanta medo, que lhe faltará coragem para fazer qualquer outra coisa além de apontar para essa lagoa seca e vazia e se calar de vergonha e solidão.” O menininho então fechou o livro e disse para os seus brinquedinhos: “Boa noite, amiguinhos, amanhã eu conto outra história para vocês dormirem” - e foi então fechando os olhos sem saber o que traria segunda-feira. Os sonhos todos misturados aos livros que gostava de ler, seus desejos tão pequenininhos e tão gigantes, os ursinhos bordados adormecidos e aquela vontade imensa de viver.
Thursday, June 16, 2011
O Bom Amante
Não me telefonaram para contar. Eu li pelo jornal, apertado em um obituário tímido de dois centímetros quadrados, como deve ser o obituário de quem, supõem, não fez nada de mais da vida. Lembro-me de deixar a xícara de café sobre a mesa e dizer: Ele está morto, e então passar um tempo calada só com os primeiros cochichos da manhã, sem ninguém com quem poder conversar, sem ninguém por perto há tanto tempo.
Fosse anos atrás, e eu usaria talleur preto, chapéu e óculos escuros em seu funeral. Fosse anos atrás, e eu estaria aos prantos escondida no chão do banheiro para não me notarem toda despedaçada. E depois, apareceria em seu enterro elegante como nunca, fumando como ele havia me ensinado a fumar e cantarolando alguma música que ele gostasse de ouvir depois do sexo.
Hoje, estou velha demais para sofrer com tanta força. E ele mesmo se decepcionaria bastante comigo. Posso claramente ouvi-lo perguntar: Que tipo banal de mulher chora abraçada a um caixão?, como se ainda tivéssemos trinta e poucos anos e o mundo lá fora fosse um espetáculo completamente irrelevante - nós dois trancados em um quarto de hotel, os carpetes mofados e o perfume pesado de uma noite inteira sobre a cama.
Levantei-me da mesa sem saber o que fazer. Um telegrama de pêsames seria de extremo mau gosto. Sua esposa estaria agora desolada entre filhos e netos, um tanto embriagada por ansiolíticos, e oficialmente autorizada a amá-lo para sempre, como devem ser as viúvas dos bons amantes. Na parede da sala, fotografias antigas, gerações inteiras de suntuosa felicidade e aquelas viagens para Paris, batizados e casamentos.
Comigo era diferente. Ele aparecia geralmente em maio, pouco antes do tempo mudar de vez, naquela primeira noite de frio, quando o inverno ainda é uma vaga lembrança das outras estações; e não era de me perguntar coisas, nem se demorava em especulações de qualquer natureza. Por uma noite apenas me procurava, dizia: Estou só, não será por muito tempo, então tome um banho, compre um vinho e venha para cá, e assim passávamos horas nos acasos de nossas vidas, porque não éramos dessa gente nascida uma para a outra, muito pelo contrário, apenas dois acasos; ele tão seguro de sua família, eu sempre certa de meu futuro, mas por aquelas poucas horas, uma única vez ao ano, a lógica cansada de nossas regras estava suspensa. Casada e feliz, eu precisava que uma noite existisse para que todas as outras fizessem sentido, como vir à tona e respirar para mergulhar mais fundo em nossas pequenas circunstâncias.
Você não pode estar falando sério, quando diz que me ama - perguntou assustado certa vez sobre nossa cama. E a minha vergonha por ter-nos traído tão descaradamente. Bons amantes não se amam, e quando amam, é de tal forma organizada e discreta que não revelam em palavras soltas sobre a cama. No começo, nem seu nome eu estava autorizada a saber. Tive a chance de ver um dia gravado em um envelope, mas que amante ruim eu seria se me preocupasse com sua rotina, e quando quisesse, pudesse facilmente encontra-lo, e soubesse onde mora, onde vai, ou se me espera? Era ele quem deveria escolher o dia. Qualquer dia. E viver da ingênua satisfação de me ver desfazendo de tudo para ter com ele uma única noite. Às vezes, me trazia presentes, pedaços de suas viagens, livros sublinhados ou o que quer que acreditasse me “ensinasse a viver”. Você já viu Cassavetes? Já leu William Faulkner? Já provou Cocaína? Às vezes, não me trazia nada, entrava quieto, pedia que eu ficasse calada e o abraçasse forte – o olhar distante de uma criança triste.
No segundo em que eu pisasse naquele cemitério, mesmo tão velha, mesmo completamente anônima, eu tenho a impressão de que nossos segredos seriam revelados. Portanto, eu não pude me despedir. Você fica mais bonita a cada ano - me disse na última vez em que nos vimos, certamente mentindo, ou confuso com o tempo, porque os anos passavam impiedosos; os anos nos traziam novas histórias: um neto, um novo casamento, mas não importava em que momento estivéssemos da vida, restava a velha certeza de que maio sempre chegaria. Foi assim por muito tempo. Até que em um ano, maio não veio. Nem qualquer outro maio de qualquer outro ano. Uma espera gelada e vazia. Tenho por mim, que uma tarde qualquer, o bom amante se cansou de vir à tona e foi viver submerso na tranqüilidade de um amor de todos os dias. Porque é assim que acontece, mesmo os bons amantes se traem. Não compreendem a raridade de seu amor e um dia se banalizam em caprichos mundanos. Foi se trancar em uma daquelas fotografias. Foi ser covardemente feliz. Meu café frio sobre a mesa. O jornal se esforçando em qualidades resignadas: médico, exímio pai de família, deixa mulher, três filhos e cinco netos.
Teve uma vez, nós dois bêbados, os pés descalços sobre o sofá, já quase amanhecendo, e ele me perguntou: Você deixaria tudo para viver comigo? Deixaria seus filhos, sua vida para viver uma outra vida? E eu me calei completamente estarrecida. Um frio na barriga, os olhos molhados. Então, ele soltou um sorriso: estou brincando, boba. E um alívio soprou a minha espinha. Mais um pouco, e eu me revelo. Nem sei o que seria se tivesse tido tempo para pensar. Alguns segundos a mais e ele teria ouvido “sim”.
Sunday, June 05, 2011
Duas solidões
Sabe o que disseram? Que você não se parece comigo. Eles dizem essas coisas quando não entendem bem. Disseram que você é minha construção, que na verdade nem de longe é o que parece ser aos meus olhos. Como se tudo isso aqui agora fosse uma vida inventada: nós dois, tão perto e tão distantes, entende? Um conto para acalmar duas solidões. Eu para você, um remédio, um divertimento, e você para mim, um capricho, uma vaidade. É que as pessoas sempre deixam escapar explicações sensatas para o que é dos outros, quando no fundo, nós dois bem sabemos que quando estamos sós somos bastante convincentes em nossos papéis. E se ficamos calados assim olhando nos olhos um do outro, sem mexer, sem piscar, sem fazer juízo de nada, por alguns segundos quase acreditamos em nós dois.
Wednesday, June 01, 2011
Todas as vezes que te fiz chorar
Existe, não sei onde, um tal vilão, como aqueles das histórias em quadrinhos, que vaga disfarçado pela noite, fugindo de inimigos cheios de virtudes e planos bons. Ele mesmo, esse monstro, nascera com poderes sobre-humanos, mas a sina do pobre desgraçado era perder cada um de seus poderes toda vez que encontrasse perdido pelo mundo um jovem de coração selvagem, e se apaixonasse terrivelmente por ele. A sua paixão seria de tal forma arrebatadora, que ele cederia, quase sem escolha, alguma de suas próprias virtudes, até o dia em que se tornasse uma figura tão monstruosa, que já não pudesse ser amado nem pelas criaturas que ajudara a formar. Luz e sombra em um mesmo rosto, vida e morte. Dizem que com os anos, super-homens ingratos se voltaram contra ele, pela vergonha indiscreta de serem filhos tortos de todo o avesso do mundo, do oposto da beleza e da bondade. Vez ou outra, ainda o enxergam de relance em espelhos, reflexos n'água, vitrines das lojas, mas tudo tão rápido, que quando voltam à consciência, já não o encontram mais. Apenas o supõem para além de toda banalidade, apenas suspeitam que em algum lugar, implacável e ausente, um monstro resiste, vivo, e nem o dia mais ensolarado fará amanhacer os cantos mais escuros de sua alma.
Monday, April 25, 2011
Esses marginais
São meio tortos, meio avessos, meio filhos de tombos e levantadas, daquelas trombadas de caminhão com bicicleta; tão calejados, sobreviventes, a vida nunca foi fácil, mas é tanta beleza, o deus do acaso consola, da malandragem, da sapiência, quem foi que os fez assim? E seguem na sombra, na vadiagem, na cartada de mestre, e a malícia inocente de quem nem sabe o que é, apenas joga, apenas continua instintivamente, como se fosse da própria natureza jogar. E ganham quase sempre, porque quando se perde foi a vida que entrou no meio e nem interessa mais o que foi que os deixou assim: lindos, como quem só tem defeitos. Ninguém jamais beijou como eles, porque ninguém entendeu o beijo com tanta sabedoria. É ali que eles descansam da guerra, ali que confessam seus segredos desesperados, e é tanto desespero, é tanto segredo e é tanta vontade, que beijam como beijam os deuses.
Friday, February 25, 2011
Só
Todo dia, ele janta na mesma mesa, depois anda pela mesma rua, sussurrando o mesmo verso da mesma estrofe de tantos anos agora. E não conhece ninguém além de si e suas frágeis suposições sobre a gente que passa. Porque além dele há outros, muitos, das mais variadas espécies, que também andam, e cruzam as ruas e voltam para casa, mas naquela dimensão mais particular de suas ideias existe um homem só, indivisível e irremediável.
Tuesday, February 15, 2011
A Velha Casa
Não é só o Natal que faz isso comigo, mas também o Natal. A velha casa embalsamada na infância, as paredes trincadas remendadas com cal. Quem vive aqui não percebe com tanta clareza, mas eu que fui embora vejo funcionar as entranhas do tempo; esse tempo que não perdoa a mais delicada memória. Por que sentimos tanto respeito pelas lembranças felizes? Vejo os nossos rostos jovens encarcerados nas fotografias, e nós aqui fora, envelhecidos de tanto viver. Quando nos mudamos para cá, esse bairro, essa rua, esse prédio eram todo o futuro. Mas tudo envelhece. Até o futuro envelhece.
Saturday, January 22, 2011
O Homem que Colecionava Bonecas
1
A mais antiga lembrança que guardo daquela casa é também a lembrança que mais me assombra os dias. Lembro-me de Leandro com pouco mais de três anos, como a imagem hesitante do adulto que viria a ser. Eu havia sido recentemente contratado por seu pai para cuidar da rotina da casa, e então recordo-me de ver o menino sozinho no canto da sala enfileirando uma dúzia de carrinhos exatamente iguais. Fiquei um tempo reparando naquela brincadeira organizada. Era curioso perceber a sua rotina particular, que a qualquer outra criança não teria a mesma graça, mas que a ele revelava-se o mais sublime dos hábitos. Existia certa ternura na maneira como mantinha seu pequeno mundo sob controle, como elegantemente ditava as suas regras e os limites de seu próprio universo.
Mais tarde, eu viria descobrir que aqueles carrinhos de madeira não eram brinquedos para qualquer um: tinham sido esculpidos à mão por um famoso artesão italiano. O artista esculpira doze carrinhos apenas, não por acaso os doze que Leandro enfileirava com curioso esmero. Seu pai, num gesto de orgulho irreparável, gabava-se em voz alta para quem quisesse ouvir: Não existe no mundo outros carrinhos como esses – e sorria orgulhoso do território do filho : todos os que existem estão aqui.
Ele mesmo, o pai, guardava nos amplos salões da casa os seus próprios brinquedos. Dizia-se o maior colecionador vivo de selos raros, o maior colecionador de antiguidades egípcias, de fósseis de invertebrados, de borboletas e orquídeas tropicais. Mesmo seu nome, Leandro Afonso VIII, era parte de uma coleção familiar de filhos únicos, que naturalmente estendia-se ao menino Leandro IX o peso de uma responsabilidade histórica, um pouco como se desdobrasse ele mesmo em uma existência futura ou fosse a extensão viva de um passado eterno.
Por aqueles dias, o Sr. Leandro VIII vagava pelos corredores da casa obcecado com uma nova coleção, queria completar sua estirpe extraordinária de Matryoshkas, ou bonecas russas, como eram vulgarmente chamadas desde sempre. Elas compunham juntas exatamente 172 peças, todas de valor inestimável, e haviam sido espalhadas pelo mundo especula-se que por volta de 1890 por um milionário ressentido, o que custara ao Sr Leandro VIII uma vida inteira para reuni-las uma a uma em um salão especial da casa. Faltava-lhe agora uma única peça, tão pequenina e delicada que só poderia ser apreciada com a ajuda de uma lupa de precisão, mas que sem ela sua coleção estaria vergonhosamente incompleta, como se aquela peça sustentasse as bases de sua dignidade.
2
Foi em maio de 1934, que o Senhor Leandro Afonso VIII e sua esposa partiram em busca da adorável Matryoshka. Obstinado com a ideia de que encontraria na boneca finalmente o seu descanso, o Sr. Leandro prometera ao filho de apenas dez anos, que esta seria a última peça de sua última coleção. Depois dela, viveriam sempre juntos na plenitude exata de quem conquistara rigorosamente tudo o que desejara da vida. Por isso mesmo, tudo foi ainda mais trágico; por isso a notícia da queda do avião nas águas do Atlântico foi ainda mais perturbadora e arrebatou de tristeza inconsolável todos os recantos da casa.
Não nos proibiram formalmente de falar sobre o assunto, mas ninguém disse uma única palavra por dias, nem os empregados, nem as babás, nem o pequeno Leandro. Quando finalmente resgataram os corpos do casal e então foram cremados em uma cerimônia sem grandes rompantes dramáticos, um menino de dez anos, calçando sapatos indefectíveis para um domingo de chuva, recebeu em seus braços, como quem quase não agüenta o peso do mundo, duas urnas de prata contendo as cinzas de seus pais. E com os olhos secos de quem se acostumou cedo demais com a saudade, Leandro IX subiu as escadas do salão central sem hesitar um único degrau e depositou as urnas no lugar dedicado a elas desde muitas décadas. Todos os Leandros pregressos enfileirados militarmente, todos os velhos sonhos muito bem guardados, se é que existiam sonhos tão diferentes dos sonhos de agora.
Nos dias que se seguiram à chegada das cinzas, eu ordenei a todos os empregados da casa que a rotina se mantivesse absolutamente inalterada. Uma tia solteira do pequeno Leandro se mudaria para a mansão e seria responsável por sua educação a partir de agora, e então eu poderia finalmente voltar aos trabalhos domésticos. Mal suspeitava o que conspirava a minha sorte.
Passaram-se então semanas, meses, anos. No aniversário de 13 anos de Leandro IX, enquanto eu limpava e organizava os livros da biblioteca, o menino, com a segurança irrepreensível de um senhor adulto, não fosse somente uma criança triste, veio até mim e disse: O Senhor deve partir e encontrar aquela boneca. Não importa quanto tempo leve nem quanto dinheiro gaste. Volte apenas quando tive-la em mãos. Nenhuma coleção permanecerá incompleta nesta casa.
3
Eu parti sem pistas, sem saber para onde. O ano de 1937 foi especialmente tenebroso na Europa, os humores prestes a desabar. E assim, por acaso, eu conheci o mundo, quase sem querer. À procura de uma boneca impossível, andei por esses becos todos, percorri as montanhas, os castelos, os lugares mais lindos. E posso dizer que para tudo que existe de diferente e inusitado no mundo há algo ainda maior que sustenta todo o encanto, que faz dos trejeitos do homem mais distante alguém estranhamente familiar, porque não importa o quão longe se esteja de casa, um homem só é tão somente um homem só, e a solidão faz de nós assustadoramente iguais.
Quando eu pensava em meu pequeno chefe, uma criança de olhos tristes dizendo: vai! - o dono de todas as vontades e de quase todas as coisas que alguém pudesse ter, eu seguia em frente à procura do elo que pudesse lhe trazer, quem sabe, a paz. Ou pelo menos amenizasse a dor constrita em uma pobre criança fadada a si mesma.
Para um criado como eu, que absolutamente tudo o que levava da vida cabia em meus bolsos rasos, uma viagem pelo mundo era um pouco como conquistar as minhas próprias coleções. Sem nunca ser dono de nada, mas sempre muito perto de tudo, eu secretamente roubava os rostos, as histórias, os lugares, e os enfileirava em lembranças tristes, felizes, incríveis, como se fossem as prateleiras de uma estante imaginária.
Pelos próximos meses, eu visitei cada vilarejo por onde passara uma Matryoshka. Colhi informações preciosas sobre o possível paradeiro daquela pequenina, para finalmente concluir que nem que levasse a vida inteira, eu jamais encontraria a boneca que faltava àquela coleção, e mesmo que eu a encontrasse, nunca teria certeza do que eu realmente tinha em mãos.
Com a Europa em Guerra, ficava difícil circular como antes, e então no sul da Irlanda, no começo do ano de 1940, eu conheci uma jovem (meio bruxa meio donzela), que me prometeu forjar uma boneca exatamente igual ao desenho que eu carregava a tiracolo. A ela eu pagaria 200 xelins e este seria nosso segredo eterno. Com a precisão extraordinária de uma grande artista, a boneca forjada era a réplica perfeita da Matryoshka perdida. Pude finalmente voltar para casa carregando um pequeno regalo, que definiria o sentido de nossas vidas.
4
Eu não saberia dizer o tempo que leva para que os olhos de um homem se cansem de todas as coisas livres, ou o tempo que alguém precisa para se entediar do mundo assim como é: inconstante, e deixar-se inebriar pela ideia de um mundo completamente sob controle. Desde a derradeira lembrança de Leandro enfileirando os carrinhos iguais, era assim que o mundo se apresentava a ele: em linhas retas demarcando territórios muito bem definidos. Mas Leandro IX, a criança que eu havia aprendido a amar como um filho, teria quase tudo o que desejara da vida, quase tudo, mas algumas pequenas coisas não dependeriam de sua vontade.
Quando cheguei à velha casa depois de três anos fora, os jardins estavam terrivelmente mal cuidados. Imaginei que desastre teriam sido esses anos todos, a displicência dos novos empregados, e lembro-me de me desculpar ao meu patrão antes mesmo de dizer-lhe qualquer coisa sobre a viagem. Ele respondeu duramente fitando-me de sua baixa estatura: Não me importa o jardim. Encontraste a boneca?, eu então saquei um pequeno embrulho de couro de minha mala e com a outra mão lhe entreguei uma lupa: A boneca está aqui, Senhor. Ele me olhou entre susto e gratidão, retirou-se imediatamente e foi ao salão onde guardava as outras 171 Matryoshkas. Ali dentro, permaneceu por longas horas.
Cada Matryoshka estava devidamente posicionada ao lado de uma réplica de si mesma, apenas um pouco menor. A maior delas tinha cinco metros de altura e a menor, quase imperceptível, não passava de um grão de arroz. Porque assim são as bonecas russas, um desdobramento contínuo de versões menores de si mesmas, uma se abrindo à outra, uma contendo a outra. Até que a última delas, a única que jamais é oca, dá fim à sucessão de existências iguais.
Leandro estava inerte diante desta metáfora maldita: uma existência que se repetia à exaustão até atingir o nada absoluto, como se o nada fosse a conseqüência inevitável para o seu legado. Mas o que o mantinha de fato ali parado, completamente absorto, não era a amplitude poética do significado que as bonecas guardavam, nem o respeito devoto à memória de seus ancestrais mortos. O que o mantinha intacto era a certeza de que sua tristeza não se aplacaria com aquela coleção de bonecas.
Pelos próximos dias, ele andou pelos salões da casa tentando descobrir qual seria a sua próxima obra, o quão complexo e espetacular seria seu novo feito. Passou noites imaginando as nuances delicadas que teriam cada peça, quais as idiossincrasias, o potencial de raridade de cada elemento. Ele sabia que precisava de algo tão poderoso, que tomasse por completo os seus dias de jovem adulto e quem sabe, ocupasse a sua vida solitária por longos anos. Ele seria portanto maior que seu pai, seu avô e seus parentes perdidos, seria a versão definitiva de um monte de rascunhos incompletos.
Exausto e sem ter ideia do que colecionar, Leandro IX pediu que eu preparasse o carro para leva-lo a Paris e lá aflorassem melhor seus pensamentos. Com a Alemanha em franca expansão sobre a França, não era aconselhável sairmos da propriedade para qualquer passeio pelas cercanias da cidade, mesmo assim, Leandro exigiu que eu o levasse de carro, pelo menos por uma tarde, para que as visões da Paris o inspirassem. Sabíamos dos riscos, mas saímos ainda de madrugada. Lembro-me que na relva molhada daquela manhã de primavera já se desenhava o terror dos próximos dias, como se o vento trouxesse de longe o mau cheiro dos soldados de Hitler.
5
Bem antes que chegássemos a Paris, em uma pequena bifurcação da estrada, nos deparamos com uma família de imigrantes poloneses, que inesperadamente caminhava em direção contrária ao carro. Tomamos um susto. Que tipo de gente estaria andando àquela hora pela estrada? Leandro ordenou que eu parasse o carro. Ficamos cara a cara com aquele homem maltrapilho, sua mulher cansada agarrada à mão de um filho pequeno e com outra criança no colo colada a seu seio. O bebê não deveria ter mais de 3 meses e mamava como se saído das páginas de Victor Hugo, eles todos meio sujos, todos com olhos de fome e desespero, pousando para um retrato ao mesmo tempo insólito e grotesco da vida.
Leandro, então, desceu do carro. Ele reparava atentamente aquelas pessoas, como se as ideias finalmente transbordassem de seus olhos: É claro! - dizia em voz alta. É isso o que eu quero - balbuciava em êxtase. Eu não conseguia entender, ou talvez me demorasse, porque no fundo não quisesse entender. Que tipo de loucura juvenil poderia tomar a cabeça de um menino a esta hora da manhã? Toquei em seu ombro e lhe perguntei sem querer ouvir: O que exatamente o senhor deseja desses pobres homens?, e a resposta que tive fez ventar tão forte o vento, que as copas das árvores se encontraram como se cochichassem verdades eternas. Eu já sei qual será a minha nova coleção – ele respondeu, apontando seguro para a criança no colo da mulher.
“Um homem não tem preço”, minha mãe diria. Talvez até eu mesmo dissesse, talvez qualquer um. Faz sentido, parece razoável, não vivemos mais como os velhos imorais que acorrentavam negros pelos tornozelos e os escolhiam pelos dentes como cavalos. Somos criaturas mais sofisticadas. Em que momento, meu Deus, esta criança fora privada tão completamente da realidade para pensar que ali diante daquela pobre família de imigrantes, eu pudesse lhes fazer uma oferta para comprar seu filho como se fosse um pequeno móvel de antiquário? Que reação bestial terá este pai quando ouvir de minha boca barbaridade tão insolente?
No meio da estrada, Leandro me encarou de novo. Estava seguro como nunca estivera antes. Esquecera de repente de sua herança de selos raros, entediantes e inanimados, e já não podia com as bonecas e as orquídeas. A sua nova coleção derrubaria de vez os paradigmas de seus antigos finados. Seria obra tão deslumbrante, que cada peça só se formaria ao longo dos anos, na doce inconstância dos humores e das contingências inesperadas das criaturas pensantes.
Pois compramos o bebê por 1000 francos, um pouco menos, talvez. O pai não disse nada em qualquer língua que eu pudesse me desculpar, mas entendi seus murmúrios como um “muito obrigado”; a mãe apenas chorou, mas chorou silenciosamente. Não queria de forma alguma atrapalhar o nosso negócio. Em algum momento do futuro, quando Leandro IX já fosse um adulto, assistiríamos a ele discursando orgulhosamente sobre o dia em que fizera seu primeiro ato de bondade, porque para além da sutil ironia, às peças de sua coleção particular ele teimaria em chamar de “filhos”.
6
Que tenham tudo - ordenou Leandro com olhos brilhantes. Que falem a maior quantidade de línguas que alguém jamais falou. E que saibam cantar e tocar piano para que eu os ouça em um domingo à tarde, se assim quiser. Que sejam atletas vigorosos, mas também possam discursar por horas sobre qualquer assunto político. Que conheçam de arte, matemática e filosofia, e que se rasguem em sorrisos de dentes brancos, porque serão gente da melhor espécie, tratados pelos melhores doutores, ensinados pelos melhores mestres.
E com a ordem expressa de encontrar, selecionar e adquirir a maior quantidade de peças para seu novo ajuntamento, eu passei os próximos dias negociando com imigrantes foragidos um futuro melhor para os seus filhos desenganados. Nem era tão difícil encontrar argumentos para fazê-los acreditar em minhas palavras. Qualquer sopro de esperança já acalmava o calor dos fatos. Enquanto mal podiam alimentar a família, eu oferecia aos seus pequenos filhos o mundo inteiro pela frente.
Entre tutores e roupas caras criaram-se assim 15 jovens perfeitos. Seis homens e nove mulheres. E toda manhã por dezoito anos, acordavam e beijavam a mão de Leandro IX, “Obrigado, pai” - e só então desciam para as suas atividades matinais. No verão, tinham aulas de línguas, lutavam esgrima, andavam a cavalo. No inverno, tocavam piano, jogavam xadrez, encenavam peças de Shakespeare. Todo sábado, não importava a época do ano, eles não se deitavam sem antes desejar boa noite ao pai orgulhoso, desfilando as roupas caras que haviam ganho e cantando uma canção que ele escolhesse entre suas favoritas.
Leandro tinha tanta certeza de que esta era a coleção mais rara do mundo, que há tempos, nem se lembrava de suas Matryoshkas. Cada filho era em si, uma obra-prima, tão minuciosamente bem cuidado e tão obviamente grato a ele. Porque sabe-se Deus o que teria sido de suas vidas, sabe-se la o que teria feito a vida com eles.
Certo dia, deslumbrado com sua própria criação, Leandro IX pediu que eu enfileirasse seus quinze filhos na sala principal, porque já era tempo de lhes falar sobre algumas coisas da vida. Eu prontamente fui em seus quartos e ordenei que se vestissem e descessem imediatamente. Em 30 minutos estavam todos prontos, vestindo a roupa para cerimônias especiais e catalogados em ordem alfabética.
Meu Senhor entrou na sala com ares de quem podia dar conselhos: Que lindo é ver meus filhos reunidos. Por um segundo, até lembrei de minhas bonecas - e calou-se admirando a perfeição de sua prole. Eram ainda mais perfeitos que um dia imaginara e compartilhavam talentos que nenhuma outra prole daquela idade facilmente deteria. Percebeu, de repente, Juliette, a sua primeira aquisição: uma jovem de olhos azuis amendoados. Pegou em seu queixo, fazendo-a olhar em seus olhos: Filha, por que tem esta cara tão triste? - mas a menina recuou-se em pavor. Leandro tornou-se pálido. A sua filha tinha se esquivado como quem se esquiva de um monstro. Encarou-me espantado: Ela parece ter medo de mim - e voltou-se para a menina: Juliette, eu sou seu pai. Não deve ter medo de mim. Você me ama, não ama? Mas no lugar de palavras, da menina só escaparam lágrimas.
A vida desmoronava impiedosa diante dos olhos de Leandro. Tão tarde, ele dava-se conta de uma tragédia inconciliável. Procurava nos olhos dos filhos qualquer vestígio de amor, mas não encontrava nada além de velha gratidão: Eu dei tudo a vocês – esbravejava como a criança que sempre fora - E o que vocês querem mais? O que eu preciso fazer? Para salva-lo do próprio vexame, me aproximei discretamente de seu ouvido e sussurrei: Senhor, o amor é inegociável.
7
Um homem atento sabe diferenciar um silêncio de outro silêncio. Aquele que instaurou-se em Leandro era tão quieto, tão profundamente calado, um pouco como depois do silêncio, depois do luto, depois do nada. Além dele não existia nem a lembrança de si mesmo, assim como o que deve haver dentro da última Matryoshka, que de tão completa é indivisível, nele tudo se acabava.
Leandro subiu para o seu quarto. Estava em pedaços. Antes, fez apenas um sinal para que eu mantivesse as portas destrancadas. Ouvimos seus passos cansados e o relinchar de uma porta se fechar. Os meninos se entreolharam espantados. Não existia nenhuma regra para esta noite, eles poderiam inclusive, mas isso era muito estranho se pensado pela primeira vez, poderiam inclusive ir embora.
Do alto de sua janela, Leandro podia ver todo o jardim da frente, os bosques que permeavam a casa e um grande portão por onde saíam e entravam os carros e os convidados (que nunca de fato tivera). A lua cheia desenhava uma sombra azul nas paredes do quarto e Leandro simplesmente esperava que a noite lhe trouxesse algo inesperado.
Em cada sala do casarão, elementos raros enfileirados, etiquetados, catalogados. Desde sempre, o mundo inteiro representado por pequenas amostras de si, pedaços que ele pudesse guardar, pedaços que pudesse chamar de seu. Dono de tudo e de nada, porque embora suspeitasse que lá no fundo nem amor é remédio para a solidão, Leandro não sabia viver sem ter para si tudo o que quisesse ter, e agora, a única coisa que desejava era o sorriso sincero e desarmado de um filho, um detalhe banal e assustadoramente gratuito.
Aos poucos, cada um dos quinze jovens saiu pela porta da casa. Nenhum deles olhou para trás uma única vez. Leandro segurava-se para não se desfazer. Nunca mais ouviria falar dos filhos, sua pequena coleção de pessoas. Bem provável, que algum deles até sentisse saudade, porque não tinham exatamente ódio do pai, assim como um passarinho acostumado a viver na gaiola não sente exatamente ódio de quem o manteve enjaulado, mas quando se esquece a porta aberta, o pássaro escapa, porque esta é a sua natureza mais particular: ser livre e amar quando se é livre. E agora, Leandro, abandonado e mal acostumado, já não sabia amar as Matryoshkas, porque Matryoshkas não fogem nunca, Matryoshkas simplesmente existem entregues à própria sorte.
A casa vazia, o eco impertinente dos poucos passos nos corredores, os selos calados, as borboletas caladas, as flores caladas. Leandro sentou-se no chão e pensou: tudo isso é meu. De seus olhos caíam as lágrimas que havia guardado a vida inteira, e eram tantas lágrimas, que Leandro não teve dúvidas: esta é verdadeiramente minha coleção mais grandiosa.
FIM.
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