<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248</id><updated>2012-02-02T17:27:48.431-02:00</updated><title type='text'>The Damned Tripper</title><subtitle type='html'>Follow me on: http://twitter.com/robertovitorino</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>86</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-2890366113719416142</id><published>2012-02-01T16:13:00.003-02:00</published><updated>2012-02-02T01:29:57.028-02:00</updated><title type='text'>Um bilhete, um girassol</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;Pela manhã, quando acordou e a procurou ainda de olhos fechados na cama, encontrou seu lado vazio e quente, como se não fizesse muito tempo que houvesse partido para sempre. Levantou-se assustado. Na mesinha ao lado encontrou um papel escrito a mão e um girassol num copo de vidro. No bilhete, ela dizia:&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;“Eu teria te amado a vida inteira. Teria esperado mais, se houvesse qualquer possibilidade real para o que era nosso, mas eu sei que não importa o tempo que passasse, eu seria para sempre essa pessoa que te faz companhia enquanto amor de verdade não chega. E mesmo que não chegasse pelo resto da vida, mesmo que fosse comigo que estivesses em todos os teus dias na espera desse amor atrasado, eu seria somente essa espera, e veria nos teus olhos o reflexo indelicado de um quase amor, esse hiato que se aperta entre duas grandes histórias, então me definharia em todos os meus encantos,&lt;span&gt; &lt;/span&gt;e com os anos me tornaria amarga e subserviente ao teu tempo e ao teu gosto. Quando teu amor de fato chegar, eu já terei ido embora. Mas se ele nunca mais voltar, não serei eu a te consolar ou a te convencer das vantagens deste quase amor.”&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-2890366113719416142?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/2890366113719416142/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=2890366113719416142' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2890366113719416142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2890366113719416142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2012/02/um-bilhete-um-girassol.html' title='Um bilhete, um girassol'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-3973186896459895041</id><published>2012-01-31T12:19:00.006-02:00</published><updated>2012-01-31T12:27:05.052-02:00</updated><title type='text'>O Tal Inimigo</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Eu o vi de longe. Alguém apontou e disse: &lt;i&gt;Aquele é o&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;seu inimigo. É ele quem te odeia&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;. E eu, que nunca o havia visto na vida, senti de repente um respeito inesperado por aquele homem, uma curiosidade atroz, como se ninguém no mundo me conhecesse mais do que ele. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Preciso falar com essa criatura, preciso conhecê-lo&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;. Os meus amigos ficaram atônitos, como se eu tivesse dito barbaridade tão insana que fosse preciso me amarrar em algum lugar, me impedir de qualquer atitude estúpida. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;O senhor espera que ele mude de opinião a seu respeito? Este homem anda sempre armado, ele é capaz de qualquer coisa para acabar com a sua vida.&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt; E então, uma vez mais, eu tive a sensação de estar diante do encontro mais importante da minha existência. Não se deve ignorar jamais alguém que lhe odeia com tanta paixão. Ninguém havia me tido tanto valor antes. Aquele estranho nutria ódio tão profundo por mim, que estragaria todo o curso de seu destino para me ver morto. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Qual é o seu nome? O que faz da vida? &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;Meu inimigo era minha nova obsessão. Eu passaria minhas últimas horas com ele em uma longa conversa, que revelaria, quem sabe, tudo o que eu jamais suporia sobre mim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Atravessei o salão em sua direção. Eu estava tão certo, que não pestanejei um único segundo. Ele me olhava de longe inquieto, procurou na bainha o revólver e se certificou de que estava tudo pronto para quando precisasse. Eu parei a um metro dele: seus traços cansados, uma dignidade no olhar que eu não havia encontrado nem no mais querido amigo. Eu lhe estendi a mão, olhei nos seus olhos: &lt;i&gt;Senhor, é um enorme prazer conhecê-lo, mas antes que atire, preciso de verdade fazer umas perguntas.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-3973186896459895041?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/3973186896459895041/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=3973186896459895041' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/3973186896459895041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/3973186896459895041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2012/01/eu-o-vi-de-longe.html' title='O Tal Inimigo'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-8332023018143208740</id><published>2012-01-25T13:36:00.005-02:00</published><updated>2012-01-26T00:53:06.697-02:00</updated><title type='text'>Meu Filho</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Corre pela casa, inventa seus brinquedos, não entende grande parte dos velhos rancores. Ama, porque é fácil. Não sabe se é preto, branco ou furta-cor, porque não pinta as pessoas em aquarelas psicóticas. Seus amores são líquidos, preenchem qualquer espaço, tomam a forma de garrafas, copos, vasos exóticos. Evita instintivamente os batizados malditos. Não acredita em deus, mas tem uma enorme admiração pelo que não entende e não vê. Desenha no corpo cruzes, estrelas, frases em sânscrito. Adora contar que teve seu corpo fechado por uma velha bruxa, que provavelmente nunca existiu de fato, mas é que adora contar qualquer coisa. Quando me olha, é como se soubesse de tudo que eu nunca vou saber na vida, e diz: &lt;i&gt;Take it easy, man, a vida é bem mais simples do que parece.&lt;/i&gt; Depois se atrasa em viagens insólitas sentado na areia de frente para o mar. Meu filho se atrasa em tudo. Desde a primeira hora do dia, desde o tempo em que é só uma ideia (e faz muito tempo), meu filho se atrasa nas circunstâncias que o impedem de existir. Sempre é cedo demais, complicado demais. Meu filho ainda não nasceu, porque para ele nascer, eu teria que me tornar o homem que eu já sou, e para isso, já disse alguém muito antes de mim, seria preciso muita coragem. &lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-8332023018143208740?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/8332023018143208740/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=8332023018143208740' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8332023018143208740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8332023018143208740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2012/01/meu-filho.html' title='Meu Filho'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4731148067723142978</id><published>2012-01-19T22:10:00.010-02:00</published><updated>2012-01-20T11:46:57.967-02:00</updated><title type='text'>O Conto Moral II</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Contam que nas agruras de uma guerra sem fim, um soldado capturado teve que viver uma escolha cruel: entre três mulheres, deveria escolher a que seria executada com tiros de metralhadora na manhã seguinte. &lt;i&gt;Não será escolha fácil &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;- bradava um general raivoso. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Até amanhã de manhã, você deverá decidir dentre essas pobres criaturas quem lhe é menos valiosa&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;, e colocou três fotografias sobre a mesa. O soldado transtornado engoliu seco quando viu a primeira foto.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;Era a sua ex-esposa, alguém com quem em algum outro momento tinha dividido as melhores histórias, mas que a vida havia tratado de torná-la amarga e distante; a mãe de seus dois únicos filhos, uma mulher que ele havia verdadeiramente amado, mas pela qual não restava nada além de um terno respeito pelas coisas que viveram juntos. Fitando aquela foto, no espaço que separava seus olhares insistia o silêncio pesado de tudo que se calou por tanto gritar. Um passado não exatamente envergonhado, mas sem anseios de nova felicidade. O soldado então pensou nos seus filhos, na tragédia ingrata de assistir a um pai executar uma mãe. Por mais que o amor já não existisse, por mais que o passado fosse assunto acabado, ele tremeu de pavor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;A segunda fotografia era de seu novo amor, a mulher por quem ele sonhava sonhos bons e suava frio com uma doce saudade todas as vezes que ficavam mais de um dia sem se ver. Uma jovem ideia esculpida nas tardes quentes, um desenho inacabado ainda sem seus pequenos detalhes, mas que anunciava tudo de bom que se pode querer de alguém. Uma suposição, um desejo, um lugar para esquecer a solidão. Quando eles se tocavam, um pedaço de tudo parava para ver e ouvir. O mundo girava a favor deles, as coisas respeitavam seu ritmo. Até a natureza mais amoral e sem sentido assistia entusiasmada ao alvoroço daquela nova paixão. O soldado então deixou escorrer uma lágrima, lembrou-se dos longos domingos, do cheiro que esqueciam um no outro, dos planos ao pé do ouvido. O presente físico e absoluto ameaçado por uma escolha cruel.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;A terceira fotografia era de uma mulher linda, mas que ele nunca havia visto na vida; um rosto sem qualquer conexão com lembrança boa ou ruim. A completa falta de razão e sentido. Mesmo que ele se enveredasse por todos os caminhos, não encontraria explicação para defendê-la ou acusá-la. Era simplesmente uma estranha. Sofrer por ela era tarefa difícil. Talvez sofresse apenas pela natureza de missão tão aterradora, mas nada muito além disso. Se tivesse mesmo que escolher entre a mãe de seus filhos, a mulher que ele amava e uma moça sem nome nem nada, estaria quase que oficialmente autorizado a executar esta última criatura: pobre caderno em branco, livro que não se escreveu.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O soldado levantou-se da cadeira aliviado. &lt;i&gt;Amanhã será um dia triste - &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;pensou &lt;/span&gt;&lt;i&gt;-&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;mas qualquer homem em minha posição faria o mesmo.&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt; Deixou o quartel escoltado pela guarda inimiga. Dormiria para assistir cena cruel: no paredão sujo, três mulheres desamparadas aguardando uma sentença capital. Mas alguns passos após deixar o quartel, como num conto moral, o soldado sentiu uma dor no peito, o mundo rodando, algo parecido com a morte, e caiu desfalecido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Abriu os olhos horas depois para encontrar uma jovem segurando a sua mão: &lt;i&gt;Pensei que você fosse morrer.&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt; Era a moça da terceira foto, linda como quem só existe em histórias de mentira. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Você é um homem forte, quando te encontrei parecia morto. Que bom que te trouxe de volta - &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;disse a médica na enfermaria de um quartel insólito.&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O soldado entendia pela primeira vez a sua tragédia. Traços delicados rascunhavam em um caderno já não mais em branco. A primeira mulher guardava a sua história, o amor por seus filhos e um bocado das coisas que o haviam feito o que era hoje. A segunda mulher guardava a sua paixão, seu desejo de eternidade e a expectativa de que algum dia se tornasse ela mesma parte fundamental de sua história; e a terceira mulher guardava a sua vida, era a força anônima e sem pretensão que o fazia vislumbrar além da névoa pesada o futuro.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;No dia seguinte, o soldado foi então levado para sentenciar uma daquelas três figuras no paredão de fuzilamento. O general esbravejava&lt;i&gt;: Escolha dentre essas três mulheres quem merece menos viver&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;. Da carroceria de um caminhão desceu primeiro a jovem senhora que ele havia amado na juventude. Uma mulher endurecida com os anos, meio pálida, meio feia - tão diferente de quando se prometeram todas aquelas coisas lindas, mas dona irrevogável de seu passado. Sem dúvida, era a pessoa no mundo que mais o conhecia em minúcias. Acorrentada atrás dela, desceu a sua jovem paixão, por quem ele esperava ansioso por cada novo sorriso e agora ali chorava inconsolável por seu destino. Não tinham vivido muito tempo juntos é verdade, mas no pouco tempo que dividiram&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;toda a felicidade parecia conspirar. Sentiu apertar seu peito, quis dizer alguma coisa para que ela lesse em seus lábios, quando então desceu a terceira mulher, parecia calma, certa de seu destino. Não o encarou uma única vez, apenas caminhou descalça até o paredão e aguardou intacta por sua sentença final.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;O general improvável pela última vez perguntou: &lt;i&gt;Quem deve ser executada, a mãe de seus filhos, a mulher que você ama ou a mulher que salvou a sua vida? &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;E o soldado não parecia ter dúvidas. Olhou uma última vez nos olhos de cada uma das três mulheres e disse sem hesitar: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Mate a mulher que eu amo.&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4731148067723142978?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4731148067723142978/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4731148067723142978' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4731148067723142978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4731148067723142978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2012/01/o-conto-moral-ii.html' title='O Conto Moral II'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-6846677080344523469</id><published>2012-01-07T01:58:00.003-02:00</published><updated>2012-01-07T02:17:48.204-02:00</updated><title type='text'>Para não passar Janeiro</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Janeiro não tem calma, quase não dá tempo para tanto janeiro. Os dias fáceis no Alto Leblon, seu sorriso desarmando o Rio inteiro. Porque quando faz sol, é como se o sol fizesse só para nós; e quando chove, o Rio é a melhor desculpa para se passar o resto da tarde na cama. A tarde é o resto da vida. Me faz querer remendar de verão as outras estações.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Eu tento fazer o meu melhor, recontar minhas histórias para que tudo o que existiu antes de hoje seja apenas um pretexto para agora. O verão escaldando nossas ideias, nossas verdades bronzeadas, silhuetas de verdade sombreando as areias de Ipanema. O que seria da cidade sem esse nome?&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;O que será do ano inteiro?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O verão promete mais do que a primavera agüenta. O inverno debocha do que o outono já nem se lembra mais. Mas se janeiro for tudo o que existe para nós e se tornar ele mesmo uma cidade; este lugar será para sempre meu e seu, não interessa o tempo que em janeiro faça, não importa o tempo que janeiro dure.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-6846677080344523469?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/6846677080344523469/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=6846677080344523469' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6846677080344523469'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6846677080344523469'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2012/01/para-nao-passar-janeiro.html' title='Para não passar Janeiro'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4105816163153597051</id><published>2011-11-11T14:11:00.000-02:00</published><updated>2011-11-11T14:12:31.899-02:00</updated><title type='text'>11.11.11</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Estava selado. Dava para ver nos seus olhos, pobre menino encantado com a própria sorte. Pensava nas coisas que poderia fazer agora que a vida seria para sempre fácil. Nem o dinheiro viria sofrido, nem o amor, nem os becos escuros daquela cidade. Quando um relâmpago varreu de luz a sua estrada e os pesadelos todos definharam a olhos vistos, ele, sem que uma palavra sequer fosse dita, teve certeza de que nunca mais haveria um dia triste. A felicidade era um pacto selado com as sombras. E enquanto descia o morro e enxergava lá embaixo a profecia inexata das curvas do Rio, era como se música nascesse de dentro dele, como se cada outro detalhe que não fosse música esperasse para existir depois, porque agora tudo era bossa, tudo era samba. &lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4105816163153597051?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4105816163153597051/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4105816163153597051' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4105816163153597051'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4105816163153597051'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/11/111111.html' title='11.11.11'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1459432016507000580</id><published>2011-09-24T12:16:00.003-03:00</published><updated>2011-09-29T18:15:35.003-03:00</updated><title type='text'>Embaraço</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Essas pessoas guardadas, esses lugares guardados como coisas que se amontoam em armários mofados. E a gente sem coragem de jogar fora. E então, maldita a hora em que as rádios tocam as músicas guardadas e a cidade pára na volta para casa. Maldita sexta-feira. Você era uma piada antiga. Você era uma daquelas lembranças que a gente chama de&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;“eu não me arrependo”, um frio na espinha interrompido há tanto tempo, exatamente quando eu tive coragem de dizer: “sou um adulto agora”. Maldita chuva, malditas luzes derretidas. E esse quadro abstrato, esse videoclipe absurdo, esses anos 90?&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;Eu não sei de onde raios surge uma ideia, de que fenda no tempo me escapa esse embaraço. Eu não te aceitaria nem em mil anos, mas essa chuva e a rima fácil das músicas que não se pode gostar em público... não conta para ninguém, vai. Chegando em casa, passa.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1459432016507000580?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1459432016507000580/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1459432016507000580' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1459432016507000580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1459432016507000580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/09/embaraco.html' title='Embaraço'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4034464618657039524</id><published>2011-07-01T06:58:00.020-03:00</published><updated>2011-09-26T19:21:47.680-03:00</updated><title type='text'>O Viajante Condenado</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:medium;"&gt;Andou demais. Andou tanto, que se perdeu do próprio destino. As coisas todas lá esperando: sua casa, seu nome, seu futuro, mas escolheu ser ele a própria estrada, escolheu não se chamar por nome, nem desenhar territórios com palavras.  E em algum momento, a vida era tão urgente e tão longe de entender, que o futuro se tornou um presente eterno. Ele, viajante condenado a si mesmo, dessa estrada não escapa jamais. A estrada que é muito antes e bem depois de tudo que se consegue compreender e amar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4034464618657039524?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4034464618657039524/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4034464618657039524' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4034464618657039524'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4034464618657039524'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/07/o-viajante-condenado.html' title='O Viajante Condenado'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-9039381655020371656</id><published>2011-06-27T18:36:00.006-03:00</published><updated>2011-09-11T12:55:01.079-03:00</updated><title type='text'>Não fosse esse pequeno detalhe</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Não fosse esse pequeno detalhe, seria uma madrugada bastante normal: as luzes dos prédios quase todas apagadas, a noite cansada de um domingo cheio de coisas para fazer amanhã. Mas lá no alto daquele prédio, no penúltimo andar, uma luzinha fraca cintilava em um quarto quase esquecido. E debaixo de um edredom bordado com delicados ursinhos vermelhos, um garotinho de sete anos segurava uma lanterna e lia baixinho um livro para os seus brinquedos, que eram os únicos amigos a quem pudesse contar aquela história já tão tarde da noite. Ele segurava um livrinho desgastado com uma das mãos e a lanterna com a outra e apontava para seus desenhos coloridos com lápis de cor. Com aquela vozinha pequena, ele dizia: “Foi então que o Patinho virou-se e disse: Deixa estar, Jacaré, esta lagoa ainda há de secar. E não haverá nada além da lembrança deste lugar, desta hora e deste tempo eterno. Porque não tardará para que as folhas caiam e a natureza retorne ao que é sempre dela. A noite esfriará os seus dias mais quentes, os campos se definharão e a relva verde morrerá pálida e estéril. E nesta hora, Jacaré, você olhará dentro dos meus olhos e sentirá tanto frio e tanta medo, que lhe faltará coragem para fazer qualquer outra coisa além de apontar para essa lagoa seca e vazia e se calar de vergonha e solidão.” &lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;O menininho então fechou o livro e disse para os seus brinquedinhos: “Boa noite, amiguinhos, amanhã eu conto outra história para vocês dormirem” - e foi então fechando os olhos sem saber o que traria segunda-feira. Os sonhos todos misturados aos livros que gostava de ler, seus desejos tão pequenininhos e tão gigantes, os ursinhos bordados adormecidos e aquela vontade imensa de viver.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-9039381655020371656?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/9039381655020371656/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=9039381655020371656' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/9039381655020371656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/9039381655020371656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/06/deixa-estar.html' title='Não fosse esse pequeno detalhe'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7205091217020923970</id><published>2011-06-16T18:00:00.008-03:00</published><updated>2011-06-16T19:47:03.769-03:00</updated><title type='text'>O Bom Amante</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;Não me telefonaram para contar. Eu li pelo jornal, apertado em um obituário tímido de dois centímetros quadrados, como deve ser o obituário de quem, supõem, não fez nada de mais da vida.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;Lembro-me de deixar a xícara de café sobre a mesa e dizer: &lt;i&gt;Ele está morto&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;, e então passar um tempo calada só com os primeiros cochichos da manhã, sem ninguém com quem poder conversar, sem ninguém por perto há tanto tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;     &lt;/span&gt;Fosse anos atrás, e eu usaria talleur preto, chapéu e óculos escuros em seu funeral. Fosse anos atrás, e eu estaria aos prantos escondida no chão do banheiro para não me notarem toda despedaçada. E depois, apareceria em seu enterro elegante como nunca, fumando como ele havia me ensinado a fumar e cantarolando alguma música que ele gostasse de ouvir depois do sexo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;     &lt;/span&gt;Hoje, estou velha demais para sofrer com tanta força. E ele mesmo se decepcionaria bastante comigo. Posso claramente ouvi-lo perguntar: &lt;i&gt;Que tipo banal de mulher chora abraçada a um caixão?&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;, como se ainda tivéssemos trinta e poucos anos e o mundo lá fora fosse um espetáculo completamente irrelevante - nós dois trancados em um quarto de hotel, os carpetes mofados e o perfume pesado de uma noite inteira sobre a cama.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;     &lt;/span&gt;Levantei-me da mesa sem saber o que fazer. Um telegrama de pêsames seria de extremo mau gosto. Sua esposa estaria agora desolada entre filhos e netos, um tanto embriagada por ansiolíticos, e oficialmente autorizada a amá-lo para sempre, como devem ser as viúvas dos bons amantes. Na parede da sala, fotografias antigas, gerações inteiras de suntuosa felicidade e aquelas viagens para Paris, batizados e casamentos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;     &lt;/span&gt;Comigo era diferente. Ele aparecia geralmente em maio, pouco antes do tempo mudar de vez, naquela primeira noite de frio, quando o inverno ainda é uma vaga lembrança das outras estações; e não era de me perguntar coisas, nem se demorava em especulações de qualquer natureza. Por uma noite apenas me procurava, dizia: &lt;i&gt;Estou só, não será por muito tempo, então tome um banho, compre um vinho e venha para cá&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;, e assim passávamos horas nos acasos de nossas vidas, porque não éramos dessa gente nascida uma para a outra, muito pelo contrário, apenas dois acasos; ele tão seguro de sua família, eu sempre certa de meu futuro, mas por aquelas poucas horas, uma única vez ao ano, a lógica cansada de nossas regras estava suspensa. Casada e feliz, eu precisava que uma noite existisse para que todas as outras fizessem sentido, como vir à tona e respirar para mergulhar mais fundo em nossas pequenas circunstâncias.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;     &lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;i&gt;Você não pode estar falando sério, quando diz que me ama &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;- perguntou assustado certa vez sobre nossa cama.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;   &lt;/span&gt;E a minha vergonha por ter-nos traído tão descaradamente. Bons amantes não se amam, e quando amam, é de tal forma organizada e discreta que não revelam em palavras soltas sobre a cama. No começo, nem seu nome eu estava autorizada a saber.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;Tive a chance de ver um dia gravado em um envelope, mas que amante ruim eu seria se me preocupasse com sua rotina, e quando quisesse,  pudesse facilmente encontra-lo, e soubesse onde mora, onde vai, ou se me espera? Era ele quem deveria escolher o dia. Qualquer dia. E viver da ingênua satisfação de me ver desfazendo de tudo para ter com ele uma única noite. Às vezes, me trazia presentes, pedaços de suas viagens, livros sublinhados ou o que quer que acreditasse me “ensinasse a viver”. &lt;i&gt;Você já viu Cassavetes? Já leu William Faulkner? Já provou Cocaína? &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;Às vezes, não me trazia nada, entrava quieto, pedia que eu ficasse calada e o abraçasse forte – o olhar distante de uma criança triste.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;      &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;No segundo em que eu pisasse naquele cemitério, mesmo tão velha, mesmo completamente anônima, eu tenho a impressão de que nossos segredos seriam revelados. Portanto, eu não pude me despedir. &lt;i&gt;Você fica mais bonita a cada ano - &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;me disse na última vez em que nos vimos, certamente mentindo, ou confuso com o tempo, porque os anos passavam&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;impiedosos; os anos nos traziam novas histórias: um neto, um novo casamento, mas não importava em que momento estivéssemos da vida, restava a velha certeza de que maio sempre chegaria. Foi assim por muito tempo. Até que em um ano, maio não veio. Nem qualquer outro maio de qualquer outro ano. Uma espera gelada e vazia. Tenho por mim, que uma tarde qualquer, o bom amante se cansou de vir à tona e foi viver submerso na tranqüilidade de um amor de todos os dias. Porque é assim que acontece, mesmo os bons amantes se traem. Não compreendem  a raridade de seu amor e um dia se banalizam em caprichos mundanos. Foi se trancar em uma daquelas fotografias. Foi ser covardemente feliz.  Meu&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt; café frio sobre a mesa. O jornal se esforçando em qualidades resignadas: &lt;i&gt;médico, exímio pai de família, deixa mulher, três filhos e cinco netos.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;    Teve uma vez, nós dois bêbados, os pés descalços sobre o sofá, já quase amanhecendo, e ele me perguntou: &lt;i&gt;Você deixaria tudo para viver comigo? Deixaria seus filhos, sua vida para viver uma outra vida? &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;E eu&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;me calei completamente estarrecida. Um frio na barriga, os olhos molhados. Então, ele soltou um sorriso: e&lt;i&gt;stou brincando, boba. &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Georgia;"&gt;E um alívio soprou a minha espinha. Mais um pouco, e eu me revelo. Nem sei o que seria se tivesse tido tempo para pensar. Alguns segundos a mais e ele teria ouvido “sim”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7205091217020923970?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7205091217020923970/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7205091217020923970' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7205091217020923970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7205091217020923970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/06/o-bom-amante_16.html' title='O Bom Amante'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-5442398707371897523</id><published>2011-06-05T01:55:00.007-03:00</published><updated>2011-06-05T09:34:34.408-03:00</updated><title type='text'>Duas solidões</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Sabe o que disseram? Que você não se parece comigo. Eles dizem essas coisas quando não entendem bem. Disseram que você é minha construção, que na verdade nem de longe é o que parece ser aos meus olhos. Como se tudo isso aqui agora fosse uma vida inventada: nós dois, tão perto e tão distantes, entende? Um conto para acalmar duas solidões. Eu para você, um remédio, um divertimento, e você para mim, um capricho, uma vaidade. É que as pessoas sempre deixam escapar explicações sensatas para o que é dos outros, quando no fundo, nós dois bem sabemos que quando estamos sós somos bastante convincentes em nossos papéis. E se ficamos calados assim olhando nos olhos um do outro, sem mexer, sem piscar, sem fazer juízo de nada, por alguns segundos quase acreditamos em nós dois.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-5442398707371897523?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/5442398707371897523/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=5442398707371897523' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/5442398707371897523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/5442398707371897523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/06/duas-solidoes.html' title='Duas solidões'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-6322676299958409887</id><published>2011-06-01T16:20:00.014-03:00</published><updated>2011-07-20T15:51:03.895-03:00</updated><title type='text'>Todas as vezes que te fiz chorar</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Existe, não sei onde, um tal vilão, como aqueles das histórias em quadrinhos, que vaga disfarçado pela noite, fugindo de inimigos cheios de virtudes e planos bons. Ele mesmo, esse monstro, nascera com poderes sobre-humanos, mas a sina do pobre desgraçado era perder cada um de seus poderes toda vez que encontrasse perdido pelo mundo um jovem de coração selvagem, e se apaixonasse terrivelmente por ele. A sua paixão seria de tal forma arrebatadora, que ele cederia, quase sem escolha, alguma de suas próprias virtudes, até o dia em que se tornasse uma figura tão monstruosa, que já não pudesse ser amado nem pelas criaturas que ajudara a formar. Luz e sombra em um mesmo rosto, vida e morte. Dizem que com os anos, super-homens ingratos se voltaram contra ele, pela vergonha indiscreta de serem filhos tortos de todo o avesso do mundo, do oposto da beleza e da bondade. Vez ou outra,  ainda o enxergam de relance em espelhos, reflexos n'água, vitrines das lojas, mas tudo tão rápido, que quando voltam à consciência, já não o encontram mais. Apenas o supõem para além de toda banalidade, apenas suspeitam que em algum lugar, implacável e ausente, um monstro resiste, vivo, e nem o dia mais ensolarado fará amanhacer os cantos mais escuros de sua alma.  &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-6322676299958409887?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/6322676299958409887/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=6322676299958409887' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6322676299958409887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6322676299958409887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/06/todas-as-vezes-que-te-fiz-chorar.html' title='Todas as vezes que te fiz chorar'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7717938771881239875</id><published>2011-04-25T14:32:00.006-03:00</published><updated>2011-06-03T20:55:39.477-03:00</updated><title type='text'>Esses marginais</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;São meio tortos, meio avessos, meio filhos de tombos e levantadas, daquelas trombadas de caminhão com bicicleta; tão calejados, sobreviventes, a vida nunca foi fácil, mas é tanta beleza, o deus do acaso consola, da malandragem, da sapiência, quem foi que os fez assim? E seguem na sombra, na vadiagem, na cartada de mestre,  e a malícia inocente de quem nem sabe o que é, apenas joga, apenas continua instintivamente, como se fosse da própria natureza jogar. E ganham quase sempre, porque quando se perde foi a vida que entrou no meio e nem interessa mais o que foi que os deixou assim: lindos, como quem só tem defeitos. Ninguém jamais beijou como eles, porque ninguém entendeu o beijo com tanta sabedoria. É ali que eles descansam da guerra, ali que confessam seus segredos desesperados, e é tanto desespero, é tanto segredo e é tanta vontade, que beijam como beijam os deuses. &lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7717938771881239875?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7717938771881239875/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7717938771881239875' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7717938771881239875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7717938771881239875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/04/esses-marginais.html' title='Esses marginais'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7214508845603345531</id><published>2011-02-25T00:42:00.013-03:00</published><updated>2012-01-31T16:48:01.020-02:00</updated><title type='text'>Só</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-gLS6qTeJ8Gg/TWwIPaQj1pI/AAAAAAAAAEM/FCuubEpoK4w/s1600/_DSC0118.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 156px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-gLS6qTeJ8Gg/TWwIPaQj1pI/AAAAAAAAAEM/FCuubEpoK4w/s400/_DSC0118.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5578843099245041298" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="color:#0000EE;"&gt;&lt;u&gt;&lt;br /&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todo dia, janta na mesma mesa, depois anda a mesma rua, sussurrando o mesmo verso da mesma estrofe de tantos anos agora. E não conhece ninguém além de si e suas frágeis suposições sobre a gente que passa. Porque além dele há outros, muitos, das mais variadas espécies, que também andam, e cruzam as ruas e voltam para casa,  mas naquela dimensão mais particular de suas ideias existe um homem só, indivisível e irremediável.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7214508845603345531?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7214508845603345531/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7214508845603345531' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7214508845603345531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7214508845603345531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/02/so.html' title='Só'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-gLS6qTeJ8Gg/TWwIPaQj1pI/AAAAAAAAAEM/FCuubEpoK4w/s72-c/_DSC0118.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-8977841586240451312</id><published>2011-02-15T19:47:00.014-02:00</published><updated>2011-02-27T19:41:26.030-03:00</updated><title type='text'>A Velha Casa</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Não é só o Natal que faz isso comigo, mas também o Natal. A velha casa embalsamada na infância, as paredes trincadas remendadas com cal. Quem vive aqui não percebe com tanta clareza, mas eu que fui embora vejo funcionar as entranhas do tempo; esse tempo que não perdoa a mais delicada memória. Por que sentimos tanto respeito pelas lembranças felizes? Vejo os nossos rostos jovens encarcerados nas fotografias, e nós aqui fora, envelhecidos de tanto viver. Quando nos mudamos para cá, esse bairro, essa rua, esse prédio eram todo o futuro.  Mas tudo envelhece. Até o futuro envelhece. &lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-8977841586240451312?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/8977841586240451312/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=8977841586240451312' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8977841586240451312'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8977841586240451312'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/02/velha-casa.html' title='A Velha Casa'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-2242475937170110452</id><published>2011-01-22T20:44:00.016-02:00</published><updated>2011-02-03T20:20:16.028-02:00</updated><title type='text'>O Homem que Colecionava Bonecas</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;      &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A mais antiga lembrança que guardo daquela casa é também a lembrança que mais me assombra os dias. Lembro-me de Leandro com pouco mais de três anos, como a imagem hesitante do adulto viria a ser. Eu havia sido recentemente contratado por seu pai para cuidar da rotina da casa, e então recordo-me de ver o menino sozinho no canto da sala enfileirando uma dúzia de carrinhos exatamente iguais. Fiquei um tempo reparando naquela brincadeira organizada. Era curioso perceber a sua rotina particular, que a qualquer outra criança não teria a mesma graça, mas que a ele revelava-se o mais sublime dos hábitos. Existia certa ternura na maneira como mantinha seu pequeno mundo sob controle, como elegantemente ditava as suas regras e os limites de seu próprio universo.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Mais tarde, eu viria descobrir que aqueles carrinhos de madeira não eram brinquedos para qualquer um: tinham sido esculpidos à mão por um famoso artesão italiano. O artista esculpira doze carrinhos apenas, não por acaso os doze que Leandro enfileirava com curioso esmero. Seu pai, num gesto de orgulho irreparável, gabava-se em voz alta para quem quisesse ouvir: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Não existe no mundo outros carrinhos como esses&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; – e sorria orgulhoso do território do filho : &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;todos os que existem estão aqui.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Ele mesmo, o pai, guardava nos amplos salões da casa os seus próprios brinquedos. Dizia-se o maior colecionador vivo de selos raros, o maior colecionador de antiguidades egípcias, de fósseis de invertebrados, de borboletas e orquídeas tropicais. Mesmo seu nome, Leandro Afonso VIII, era parte de uma coleção familiar de filhos únicos, que naturalmente estendia-se ao menino Leandro IX o peso de uma responsabilidade histórica, um pouco como se desdobrasse ele mesmo em uma existência futura ou fosse a extensão viva de um passado eterno. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Por aqueles dias, o Sr. Leandro VIII vagava pelos corredores da casa obcecado com uma nova coleção, queria completar sua estirpe extraordinária  de Matryoshkas, ou bonecas russas, como eram vulgarmente chamadas desde sempre. Elas compunham juntas exatamente 172 peças, todas de valor inestimável, e haviam sido espalhadas pelo mundo especula-se que por volta de 1890 por um milionário ressentido, o que custara ao Sr Leandro VIII uma vida inteira para reuni-las uma a uma em um salão especial da casa. Faltava-lhe agora uma única peça, tão pequenina e delicada que só poderia ser apreciada com a ajuda de uma lupa de precisão, mas que sem ela sua coleção estaria vergonhosamente incompleta, como se aquela peça sustentasse as bases de sua dignidade.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;2&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Foi em maio de 1934, que o Senhor Leandro Afonso VIII e sua  esposa partiram em busca da adorável Matryoshka. Obstinado com a ideia de que encontraria na boneca finalmente o seu descanso, o Sr. Leandro  prometera ao filho de apenas dez anos, que esta seria a última peça de sua última coleção. Depois dela, viveriam sempre juntos na plenitude exata de quem conquistara rigorosamente tudo o que desejara da vida. Por isso mesmo, tudo foi ainda mais trágico; por isso a notícia da queda do avião nas águas do Atlântico foi ainda mais perturbadora e arrebatou de tristeza inconsolável todos os recantos da casa.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Não nos proibiram formalmente de falar sobre o assunto, mas ninguém disse uma única palavra por dias, nem os empregados, nem as babás, nem o pequeno Leandro. Quando finalmente resgataram os corpos do casal e então foram cremados em uma cerimônia sem grandes rompantes dramáticos, um menino de dez anos, calçando sapatos indefectíveis para um domingo de chuva, recebeu em seus braços, como quem quase não agüenta o peso do mundo, duas urnas de prata contendo as cinzas de seus pais. E com os olhos secos de quem se acostumou cedo demais com a saudade, Leandro IX subiu as escadas do salão central sem hesitar um único degrau e depositou as urnas no lugar dedicado a elas desde muitas décadas. Todos os Leandros pregressos enfileirados militarmente, todos os velhos sonhos muito bem guardados, se é que existiam sonhos tão diferentes dos sonhos de agora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Nos dias que se seguiram à chegada das cinzas, eu ordenei a todos os empregados da casa que a rotina se mantivesse absolutamente inalterada. Uma tia solteira do pequeno Leandro se mudaria para a mansão e seria responsável por sua educação a partir de agora, e então eu poderia finalmente voltar aos trabalhos domésticos. Mal suspeitava o que conspirava a minha sorte. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Passaram-se então semanas, meses, anos. No aniversário de 13 anos de Leandro IX, enquanto eu limpava e organizava os livros da biblioteca, o menino, com a segurança irrepreensível de um senhor adulto, não fosse somente uma criança triste, veio até mim e disse: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;O Senhor deve partir e encontrar aquela boneca. Não importa quanto tempo leve nem quanto dinheiro gaste. Volte apenas quando tive-la em mãos. Nenhuma coleção permanecerá incompleta nesta casa&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;3&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Eu parti sem pistas, sem saber para onde. O ano de 1937 foi especialmente tenebroso na Europa, os humores prestes a desabar. E assim, por acaso, eu conheci o mundo,  quase sem querer. À procura de uma boneca impossível, andei por esses becos todos, percorri as montanhas, os castelos, os lugares mais lindos. E posso dizer que para tudo que existe de diferente e inusitado no mundo há algo ainda maior que sustenta todo o encanto, que faz dos trejeitos do homem mais distante alguém estranhamente familiar, porque não importa o quão longe se esteja de casa, um homem só é tão somente um homem só, e a solidão faz de nós assustadoramente iguais.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Quando eu pensava em meu pequeno chefe, uma criança de olhos tristes dizendo: vai! - o dono de todas as vontades e de quase todas as coisas que alguém pudesse ter, eu seguia em frente à procura do elo que pudesse lhe trazer, quem sabe, a paz. Ou pelo menos amenizasse a dor constrita em uma pobre criança fadada a si mesma. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Para um criado como eu, que absolutamente tudo o que levava da vida cabia em meus bolsos rasos, uma viagem pelo mundo era um pouco como conquistar as minhas próprias coleções. Sem nunca ser dono de nada, mas sempre muito perto de tudo, eu secretamente roubava os rostos, as histórias, os lugares, e os enfileirava em lembranças tristes, felizes, incríveis, como se fossem as prateleiras de uma estante imaginária.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Pelos próximos meses, eu visitei cada vilarejo por onde passara uma Matryoshka. Colhi informações preciosas sobre o possível paradeiro daquela pequenina, para finalmente concluir que nem que levasse a vida inteira, eu jamais encontraria a boneca que faltava àquela coleção, e mesmo que eu a encontrasse, nunca teria certeza do que eu realmente tinha em mãos.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Com a Europa em Guerra, ficava difícil circular como antes, e então no sul da Irlanda, no começo do ano de 1940, eu conheci uma jovem (meio bruxa meio donzela), que me prometeu forjar uma boneca exatamente igual ao desenho que eu carregava a tiracolo. A ela eu pagaria 200 xelins e este seria nosso segredo eterno.  Com a precisão extraordinária de uma grande artista, a boneca forjada era a réplica perfeita da Matryoshka perdida. Pude finalmente voltar para casa carregando um pequeno regalo, que definiria o sentido de nossas vidas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;4&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Eu não saberia dizer o tempo que leva para que os olhos de um homem se cansem de todas as coisas livres, ou o tempo que alguém precisa para se entediar do mundo assim como é: inconstante, e deixar-se inebriar pela ideia de um mundo completamente sob controle. Desde a derradeira lembrança de Leandro enfileirando os carrinhos iguais, era assim que o mundo se apresentava a ele: em linhas retas demarcando territórios muito bem definidos. Mas Leandro IX, a criança que eu havia aprendido a amar como um filho, teria quase tudo o que desejara da vida, quase tudo, mas algumas pequenas coisas não dependeriam de sua vontade.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Quando cheguei à velha casa depois de três anos fora, os jardins estavam terrivelmente mal cuidados. Imaginei que desastre teriam sido esses anos todos, a displicência dos novos empregados, e lembro-me de me desculpar ao meu patrão antes mesmo de dizer-lhe qualquer coisa sobre a viagem. Ele respondeu duramente fitando-me de sua baixa estatura: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Não me importa o jardim. Encontraste a boneca?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, eu então saquei um pequeno embrulho de couro de minha mala e com a outra mão lhe entreguei uma lupa: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A boneca está aqui, Senhor&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;. Ele me olhou entre susto e gratidão, retirou-se imediatamente e foi ao salão onde guardava as outras 171 Matryoshkas. Ali dentro, permaneceu por longas horas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Cada Matryoshka estava devidamente posicionada ao lado de uma réplica de si mesma, apenas um pouco menor. A maior delas tinha cinco metros de altura e a menor, quase imperceptível, não passava de um grão de arroz. Porque assim são as bonecas russas, um desdobramento contínuo de versões menores de si mesmas, uma se abrindo à outra, uma contendo a outra. Até que a última delas, a única que jamais é oca, dá fim à sucessão de existências iguais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;    &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Leandro estava inerte diante desta metáfora maldita: uma existência que se repetia à exaustão até atingir o nada absoluto, como se o nada fosse a conseqüência inevitável para o seu legado. Mas o que o mantinha de fato ali parado, completamente absorto, não era a amplitude poética do significado que as bonecas guardavam, nem o respeito devoto à memória de seus ancestrais mortos. O que o mantinha intacto era a certeza de que sua tristeza não se aplacaria com aquela coleção de bonecas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;       &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Pelos próximos dias, ele andou pelos salões da casa tentando descobrir qual seria a sua próxima obra, o quão complexo e espetacular seria seu novo feito. Passou noites imaginando as nuances delicadas que teriam cada peça, quais as idiossincrasias, o potencial de raridade de cada elemento. Ele sabia que precisava de algo tão poderoso, que tomasse por completo os seus dias de jovem adulto e quem sabe, ocupasse a sua vida solitária por longos anos. Ele seria portanto maior que seu pai, seu avô e seus parentes perdidos, seria a versão definitiva de um monte de rascunhos incompletos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;       &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Exausto e sem ter ideia do que colecionar, Leandro IX pediu que eu preparasse o carro para leva-lo a Paris e lá aflorassem melhor seus pensamentos. Com a Alemanha em franca expansão sobre a França, não era aconselhável sairmos da propriedade para qualquer passeio pelas cercanias da cidade, mesmo assim, Leandro exigiu que eu o levasse de carro, pelo menos por uma tarde, para que as visões da Paris o inspirassem. Sabíamos dos riscos, mas saímos ainda de madrugada. Lembro-me que na relva molhada daquela manhã de primavera já se desenhava o terror dos próximos dias, como se o vento trouxesse de longe o mau cheiro dos soldados de Hitler.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;                        5&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;      &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Bem antes que chegássemos a Paris, em uma pequena bifurcação da estrada, nos deparamos com uma família de imigrantes poloneses, que inesperadamente caminhava em direção contrária ao carro. Tomamos um susto. Que tipo de gente estaria andando àquela hora pela estrada? Leandro ordenou que eu parasse o carro. Ficamos cara a cara com aquele homem maltrapilho, sua mulher cansada agarrada à mão de um filho pequeno e com outra criança no colo colada a seu seio. O bebê não deveria ter mais de 3 meses e mamava como se saído das páginas de Victor Hugo, eles todos meio sujos, todos com olhos de fome e desespero, pousando para um retrato ao mesmo tempo insólito e grotesco da vida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Leandro, então, desceu do carro. Ele reparava atentamente aquelas pessoas, como se as ideias finalmente transbordassem de seus olhos: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;É claro! &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;- dizia em voz alta. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;É isso o que eu quero&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; - balbuciava em êxtase. Eu não conseguia entender, ou talvez me demorasse, porque no fundo não quisesse entender. Que tipo de loucura juvenil poderia tomar a cabeça de um menino a esta hora da manhã? Toquei em seu ombro e lhe perguntei sem querer ouvir: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;O que exatamente o senhor deseja desses pobres homens?, &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; e a resposta que tive fez ventar tão forte o vento, que as copas das árvores se encontraram como se cochichassem verdades eternas. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Eu já sei qual será a minha nova coleção &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;– ele respondeu, apontando seguro para a criança no colo da mulher.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;“&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Um homem não tem preço”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, minha mãe diria. Talvez até eu mesmo dissesse, talvez qualquer um. Faz sentido, parece razoável, não vivemos mais como os velhos imorais que acorrentavam negros pelos tornozelos e os escolhiam pelos dentes como cavalos. Somos criaturas mais sofisticadas. Em que momento, meu Deus, esta criança fora privada tão completamente da realidade para pensar que ali diante daquela pobre família de imigrantes, eu pudesse lhes fazer uma oferta  para comprar seu filho como se fosse um pequeno móvel de antiquário?  Que reação bestial terá este pai quando ouvir de minha boca barbaridade tão insolente? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;    &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;No meio da estrada, Leandro me encarou de novo. Estava seguro como nunca estivera antes. Esquecera de repente de sua herança de selos raros, entediantes e inanimados, e já não podia com as bonecas e as orquídeas. A sua nova coleção derrubaria de vez os paradigmas de seus antigos finados. Seria obra tão deslumbrante, que cada peça só se formaria ao longo dos anos, na doce inconstância dos humores e das contingências inesperadas das criaturas pensantes.   &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Pois compramos o bebê por 1000 francos, um pouco menos, talvez. O pai não disse nada em qualquer língua que eu pudesse me desculpar, mas entendi seus murmúrios como um “muito obrigado”;  a mãe apenas chorou, mas chorou silenciosamente. Não queria de forma alguma atrapalhar o nosso negócio.  Em algum momento do futuro, quando Leandro IX já fosse um adulto, assistiríamos a ele discursando orgulhosamente sobre o dia em que fizera seu primeiro ato de bondade, porque para além da sutil ironia, às peças de sua coleção particular ele teimaria em chamar de “filhos”.   &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;6&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Que tenham tudo&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; - ordenou Leandro com olhos brilhantes. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Que falem a maior quantidade de línguas que alguém jamais falou. E que saibam cantar e tocar piano para que eu os ouça em um domingo à tarde, se assim quiser. Que sejam atletas vigorosos, mas também possam discursar por horas sobre qualquer assunto político. Que conheçam de arte, matemática e filosofia, e que se rasguem em sorrisos de dentes brancos, porque serão gente da melhor espécie, tratados pelos melhores doutores, ensinados pelos melhores mestres.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;    &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;E com a ordem expressa de encontrar, selecionar e adquirir a maior quantidade de peças para seu novo ajuntamento, eu passei os próximos dias negociando com imigrantes foragidos um futuro melhor para os seus filhos desenganados. Nem era tão difícil encontrar argumentos para fazê-los  acreditar em minhas palavras. Qualquer sopro de esperança já acalmava o calor dos fatos. Enquanto mal podiam alimentar a família, eu oferecia aos seus pequenos filhos o mundo inteiro pela frente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Entre tutores e roupas caras criaram-se assim 15 jovens perfeitos. Seis homens e nove mulheres. E toda manhã por dezoito anos, acordavam e beijavam a mão de Leandro IX, “Obrigado&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;, pai” - &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;e só então desciam para as suas atividades matinais. No verão, tinham aulas de línguas, lutavam esgrima, andavam a cavalo. No inverno, tocavam piano, jogavam xadrez, encenavam peças de Shakespeare. Todo sábado, não importava a época do ano, eles não se deitavam sem antes desejar boa noite ao pai orgulhoso, desfilando as roupas caras que haviam ganho e cantando uma canção que ele escolhesse entre suas favoritas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Leandro tinha tanta certeza de que esta era a coleção mais rara do mundo, que há tempos, nem se lembrava de suas Matryoshkas. Cada filho era em si, uma obra-prima, tão minuciosamente bem cuidado e tão obviamente grato a ele. Porque sabe-se Deus o que teria sido de suas vidas, sabe-se la o que teria feito a vida com eles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Certo dia, deslumbrado com sua própria criação, Leandro IX pediu que eu enfileirasse seus quinze filhos na sala principal, porque já era tempo de lhes falar sobre algumas coisas da vida. Eu prontamente fui em seus quartos e ordenei que se vestissem e descessem imediatamente. Em 30 minutos estavam todos prontos, vestindo a roupa para cerimônias especiais e catalogados em ordem alfabética.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Meu Senhor entrou na sala com ares de quem podia dar conselhos: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Que lindo é ver meus filhos reunidos. Por um segundo, até lembrei de minhas bonecas - &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;e calou-se admirando a perfeição de sua prole. Eram ainda mais perfeitos que um dia imaginara e compartilhavam talentos que nenhuma outra prole daquela idade facilmente deteria. Percebeu, de repente, Juliette, a sua primeira aquisição: uma jovem de olhos azuis amendoados. Pegou em seu queixo, fazendo-a olhar em seus olhos: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Filha, por que tem esta cara tão triste? &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;- mas a menina recuou-se em pavor. Leandro tornou-se pálido. A sua filha tinha se esquivado como quem se esquiva de um monstro. Encarou-me espantado: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Ela parece ter medo de mim &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;- e voltou-se para a menina&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;: Juliette, eu sou seu pai. Não deve ter medo de mim. Você me ama, não ama&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;? Mas no lugar de palavras, da menina só escaparam lágrimas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;     &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A vida desmoronava impiedosa diante dos olhos de Leandro. Tão tarde, ele dava-se conta de uma tragédia inconciliável. Procurava nos olhos dos filhos qualquer vestígio de amor, mas não encontrava nada além de velha gratidão: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Eu dei tudo a vocês&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; – esbravejava como a criança que sempre fora - E&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; o que vocês querem mais? O que eu preciso fazer? &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Para salva-lo do próprio vexame, me aproximei discretamente de seu ouvido e sussurrei: &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Senhor, o amor é inegociável.&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align:center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;7&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;          &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Um homem atento sabe diferenciar um silêncio de outro silêncio. Aquele que instaurou-se em Leandro era tão quieto, tão profundamente calado, um pouco como depois do silêncio, depois do luto, depois do nada. Além dele não existia nem a lembrança de si mesmo, assim como o que deve haver dentro da última Matryoshka, que de tão completa é indivisível, nele tudo se acabava.  &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;            &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Leandro subiu para o seu quarto. Estava em pedaços. Antes, fez apenas um sinal para que eu mantivesse as portas destrancadas.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; Ouvimos seus passos cansados e o relinchar de uma porta se fechar. Os meninos se entreolharam espantados. Não existia nenhuma regra para esta noite, eles poderiam inclusive, mas isso era muito estranho se pensado pela primeira vez, poderiam inclusive ir embora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;       &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Do alto de sua janela, Leandro podia ver todo o jardim da frente, os bosques que permeavam a casa e um grande portão por onde saíam e entravam os carros e os convidados (que nunca de fato tivera). A lua cheia desenhava uma sombra azul nas paredes do quarto e Leandro simplesmente esperava que a noite lhe trouxesse algo inesperado. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;         &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Em cada sala do casarão, elementos raros enfileirados, etiquetados, catalogados. Desde sempre, o mundo inteiro representado por pequenas amostras de si, pedaços que ele pudesse guardar, pedaços que pudesse chamar de seu. Dono de tudo e de nada, porque embora suspeitasse que lá no fundo nem amor é remédio para  a solidão, Leandro não sabia viver sem ter para si tudo o que quisesse ter, e agora, a única coisa que desejava era o sorriso sincero e desarmado de um filho, um detalhe banal e assustadoramente gratuito.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;       &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Aos poucos, cada um dos quinze jovens saiu pela porta da casa. Nenhum deles olhou para trás uma única vez. Leandro segurava-se para não se desfazer. Nunca mais ouviria falar dos filhos, sua pequena coleção de pessoas. Bem provável, que algum deles até sentisse saudade, porque não tinham exatamente ódio do pai, assim como um passarinho acostumado a viver na gaiola não sente exatamente ódio de quem o manteve enjaulado, mas quando se esquece a porta aberta, o pássaro escapa, porque esta é a sua natureza mais particular: ser livre e amar quando se é livre. E agora, Leandro, abandonado e mal acostumado, já não sabia amar as Matryoshkas, porque Matryoshkas não fogem nunca, Matryoshkas simplesmente existem entregues à própria sorte. &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;A casa vazia, o eco impertinente dos poucos passos nos corredores, os selos calados, as borboletas caladas, as flores caladas. Leandro sentou-se no chão e pensou: &lt;i&gt;tudo isso é meu&lt;/i&gt;. De seus olhos caíam as lágrimas que havia guardado a vida inteira, e eram tantas lágrimas, que Leandro não teve dúvidas: esta &lt;i&gt;é verdadeiramente minha coleção mais grandiosa. &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;FIM.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;      &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:14.0pt;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;     &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-2242475937170110452?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/2242475937170110452/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=2242475937170110452' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2242475937170110452'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2242475937170110452'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2011/01/o-homem-que-colecionava-bonecas.html' title='O Homem que Colecionava Bonecas'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-8277376674235602040</id><published>2010-11-28T00:25:00.010-02:00</published><updated>2010-12-05T09:19:29.773-02:00</updated><title type='text'>Sobre a queda livre dos anjos</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Em memória de Ian Curtis, Kurt Cobain, Virginia Woolf, Torquato Neto e Ernest Hemingway&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Muito perto de desmanchar, como um desenho na areia. Frágil assim como todas as coisas belas. A vida é grande demais, bonita demais, eu sei. Mas aqui sozinho na angústia desses dias, eu entendo todos os anjos que caem. Respeito rigorosamente a queda livre dos anjos. São como irmãos. Porque nem todo mundo pode com o que é grande e só. O céu é a solidão, não restam dúvidas de que seja assim. E eu sou quase nada hoje. Quase um copo cheio de vodka, quase a casa vazia, quase o amor, que já não acontece fácil como era antes. Sou adulto, e adulto é ser discreto nos seus sonhos. Você não veio como me prometeu, mas eu juro que fui feliz. Hoje, já não me bastam as horas como antes. Eu me encantei perdidamente pela certeza do nada. E preciso prová-lo até a última gota.&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-8277376674235602040?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/8277376674235602040/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=8277376674235602040' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8277376674235602040'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8277376674235602040'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/11/sobre-queda-livre-dos-anjos.html' title='Sobre a queda livre dos anjos'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7949342660439132556</id><published>2010-11-03T14:45:00.012-02:00</published><updated>2011-02-21T03:38:38.032-03:00</updated><title type='text'>Deus é o Mar</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Menino curioso quis saber porque o pai chorava, pés fincados na areia, rede cheia de peixes. A Lua solta gabava-se da noite linda, um céu profundo desenhado no balanço das ondas. Tudo bom desde sempre. Tudo muito bom. Os barcos dançando para ninar as crianças pequenas. Hoje tem moqueca de camarão para jantar. Mas o pai soluçava inconsolável, cabeça escondida entre joelhos afoitos. Eu odeio este mar, dizia, eu odeio este mar. Filho então chegou perto, sentou-se ao lado do pai na areia da praia. Mas se o senhor é quem diz que o mar é a coisa mais linda do mundo? E eu não minto quando digo isso – chorava o pai com mais dor e fúria. Na penteadeira do quarto ainda esperam colares de búzios. Pendurada na parede, na altura dos olhos, uma concha ainda guarda o som das marés mais altas, que sua mulher tanto gostava de ouvir antes de se deitar. Mas ela se foi e já não volta. Ao mar deve-se tudo. Ao mar não se pergunta nada. Deus é o mar.&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7949342660439132556?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7949342660439132556/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7949342660439132556' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7949342660439132556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7949342660439132556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/11/deus-e-o-mar.html' title='Deus é o Mar'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-553753906635213241</id><published>2010-10-20T00:26:00.013-02:00</published><updated>2010-12-14T00:31:28.757-02:00</updated><title type='text'>Última vez</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify; font-family: arial;"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;  &lt;span class="Apple-style-span"&gt;Distraídas que estavam, trombaram-se no saguão do aeroporto. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Me desculpe, é que essa música me tira a atenção.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; E quando se olharam reconheceram-se velhas amigas, bem mais de mil anos atrás. M&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;eu deus, é você? &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Mas ficaram assim constrangidas, porque tão fácil se notaria que não eram nada do que um dia prometeram ser. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Tantos anos e você não mudou nada. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Mentiam inquietas, uma vontade estranha de sair correndo, uma vergonha do tempo. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;E como estão os seus pais, o seu irmão? &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Aquelas perguntas tolas para tentar sobreviver. E pensar que mesmo a mais antiga intimidade desvanece impiedosa com o passar dos anos. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;São Paulo? Não, Madrid.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;  Seria melhor morrer sem ter visto aquelas rugas desmoralizarem tão completamente a velha infância. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;É uma pena que eu esteja tão atrasada, queria poder ficar e conversar mais.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; Agonizavam de angústia e desespero. Quando eram meninas, fizeram um juramento no alto de uma árvore do quintal: envelheceriam juntas e seus filhos se casariam entre eles, outorgados a professar eterna amizade. &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; Vamos tentar não perder o contato desta vez, por favor.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" &gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; E assim, viraram as costas e partiram. Como tinha que ser. E aos poucos, recolheram-se cansadas no conforto da nova estranheza. Foi a última vez que se viram.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--StartFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-553753906635213241?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/553753906635213241/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=553753906635213241' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/553753906635213241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/553753906635213241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/10/distraidas-que-estavam-trombaram-se-no.html' title='Última vez'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-2431581408222357977</id><published>2010-10-15T23:10:00.004-03:00</published><updated>2010-10-16T15:20:29.175-03:00</updated><title type='text'>Amor em preto e branco</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Eu queria dizer o que não te disse. Nem é caso de culpa. Culpa é para gente pequena. Mas as coisas assim como eram tão grandes e tão desesperadamente lindas me davam bastante medo, porque provavelmente eu teria que escolher entre ser apenas feliz ou ser apenas triste, como se existisse (e existe, porque eu vi nos teus olhos) possibilidade tão definitiva. Mas eu não sou de grandes virtudes. É preciso um bocado de talento e paixão em tanta tristeza e tanta felicidade.&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-2431581408222357977?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/2431581408222357977/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=2431581408222357977' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2431581408222357977'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2431581408222357977'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/10/amor-em-preto-e-branco.html' title='Amor em preto e branco'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1447360316610657732</id><published>2010-09-10T01:37:00.010-03:00</published><updated>2010-09-10T14:40:24.204-03:00</updated><title type='text'>Dois de mim</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Eu queria deixar coisa escrita para lacrar e guardar no tempo, como um lembrete delicado para depois. E quando eu fosse mais velho viria a encontrar, completamente distraído, esse relicário, igual àqueles&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;que os astronautas mandam para o espaço para os homens do futuro saberem exatamente como viviam os seus ancestrais. Guardar no tempo um pedaço desta noite larga – eu, ancestral de mim.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Tentaria escrever as palavras certas para embalar de doçura os meus anos velhos. A melancolia que é doce agora, como ainda é doce o sonho de me perder no mundo e encontrar apenas os bons encontros: a língua que roça o pé do ouvido, a solidão que não abandona nas horas imensas dos aeroportos e que me faz sonhar com todos os cais e todas as luzes acesas na madrugada.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Os dois homens se sentariam um de frente para o outro, um deles abriria um envelope antigo, o outro, ainda jovem, olharia fundo nos olhos do abismo, e notariam como eram frágeis os seus primeiros planos (asinhas de borboleta), e como é lindo não ter sabido quase nada para ter&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;descoberto por acaso todas as coisas novas e todas as coisas que mudam muito pouco.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Eu queria guardar os segredos desta noite larga numa cápsula do tempo, e a decisão que eu tomasse agora seria a curva da estrada para onde supõe-se o resto da minha vida -  eu, esta garrafa vazia, o eco na sala do apartamento e todas as almas roubadas.&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1447360316610657732?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1447360316610657732/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1447360316610657732' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1447360316610657732'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1447360316610657732'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/09/dois-de-mim.html' title='Dois de mim'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-128085380019584683</id><published>2010-08-30T15:17:00.021-03:00</published><updated>2011-01-23T14:52:20.334-02:00</updated><title type='text'>Antes que fosse Jack</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Veio um carro na contramão e a pancada o alçou em voo como um pássaro errante. Quando acordou, chamava-se Jack, e isso era tudo o que sabia - mas Jack é um nome tão estranho por esses lados de cá. O passado como era já se foi, e quando volta é como um refluxo amargo. Sorte a dele, porque tudo agora parece mais com um alívio, que uma dura pena, como se lhe dessem a chance de ser uma pessoa nova e então, ele se reinventasse e escolhesse somente as lembranças que o fizessem um grande homem.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Jack precisa aprender a fumar, a fazer pequenos furtos, a gastar seu dinheiro com drogas e putas caras. E não haverá alma viva que possa lhe constranger, mesmo que use a velha jaqueta de couro verde, mesmo que ande como se anda nos filmes e se emocione com memórias falsas; Jack, 25 anos, projetado em tela branca, recém-nascido há poucos minutos, não tem mais nada que possa temer.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Alguém bate na sua cara : &lt;i&gt;Fique comigo, Jack, fique com a gente. &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;Jack abre os olhos desnorteado. Quando o carro apareceu na contramão, Jack, bem antes que fosse Jack, já tinha vivido o bastante para ser um tanto arrogante com as coisas pequenas da vida, mas de repente, ali estirado sangrando no asfalto, os carros todos passando, as letras das músicas, as cidades, as coisas todas se permitiam a uma segunda paixão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Levantou-se cambaleante com a ajuda de estranhos. Olhou em seus rostos, tentou decifrá-los respeitosamente, mas nenhuma palavra lhe veio à boca. A cidade inteira se rasgava num abismo entre tudo o que se prometeu viver e tudo o que se viveu de fato. Jack já não podia sofrer pelos amigos perdidos, não se lamentava por sua orfandade de pais vivos. Cada encontro que tivera antes simplesmente desvanecia na memória. Era homem livre agora. Se por acaso, no futuro,&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;uma criança aparecesse para reivindicar pelo pai ausente, ele não sentiria remorso ao vê-la soluçar de saudade. E quando escrevesse seu livro de memórias, escolheria as histórias lindas e sujas do tempo em que acordava entre corpos estranhos, do tempo em que não sabia se comportar em mesas bem postas, e fugia de casa pela janela do quarto, e deixava bilhetes apaixonados debaixo das portas, e preferia as piadas (e os amores) que durassem o instante exato para que não fossem apenas disfarces da solidão.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Jack pede um cigarro a um transeunte. Passeia com a&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;cabeça por imagens desconexas. Na calçada, um mendigo toca violão lindamente. Ele para para ouvi-lo cantar, deposita duas moedas em seu chapéu, depois fecha os olhos tragando a fumaça; as notas da música vão o deixando especialmente melancólico. &lt;i&gt;A melancolia é uma tristeza tão elegante&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt; – pensa Jack quase embriagado &lt;/span&gt;&lt;i&gt;- é uma saudade que inspira sem nem ter alguém para faltar. &lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;Porque ainda que fosse homem recém inventado e não guardasse quase nada de outros tempos, aquele domingo tinha a aparência exata de todos os outros domingos e seguia rigorosamente a liturgia cansada das coisas prestes a acabar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Jack deitou-se no banco da praça, a cabeça lhe doía como nunca, mas não podia se esquecer da única coisa que lhe restava agora, então repetia baixinho: &lt;i&gt;Jack, Jack, Jack&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;. &lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;E assim, completamente livre, completamente novo, como calhamaços de um livro escrito a lápis que alguma ironia da vida tratou de apagar, Jack morreu sem nunca ter vivido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-128085380019584683?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/128085380019584683/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=128085380019584683' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/128085380019584683'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/128085380019584683'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/08/antes-que-fosse-jack.html' title='Antes que fosse Jack'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1968735435853399474</id><published>2010-07-12T15:20:00.020-03:00</published><updated>2010-11-03T10:17:06.375-02:00</updated><title type='text'>Arquitetura</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Francisco gostava de música mais do que gostava de pessoas, e gostava de Ipanema mais do que gostava de música, mas gostava demais das pessoas. E foi às onze e trinta da manhã, do dia treze de julho de mil novecentos e noventa e oito, parado de frente para o mar, em um dia insuportavelmente lindo e fácil, que Francisco desistiu de entendê-las. Até pensou em escrever uma carta, vasculhar velhos recortes, deixar ao pé da porta de não-sei-quem uma caixa de chocolates amargos com um girassol amarelo e um disco de jazz, mas teve tanta preguiça. O sentido das coisas lhe dava tanta preguiça, e as coisas fáceis eram tão mais belas, que ele preferiu esperar, aproveitar o dia quente de um inverno insólito.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Naquela tarde, enquanto dirigia de volta para casa, Francisco pensou: “também somos as cartas que não escrevemos” e sorriu. Não acreditava em signos ou em búzios ou em deuses, e não sabia ao certo se o destino era mais um devaneio tolo que uma dura realidade, mas não podia negar que a vida parecia mesmo ter sido escrita para ser assim: fácil. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;No rádio tocava Miles Davis; na pedra alta, umas casinhas pobres incrustadas feito litogravura e na cabeça um monte de gente. Francisco gostava de música mais do que gostava de pessoas, e gostava de Ipanema mais do que gostava de música, mas gostava demais das pessoas, tanto que não podia parar de pensar nelas, porque pessoas são como música, grudam na cabeça e nos lugares. Já não sabia a diferença de um rosto, de uma esquina e de um trompete. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial;"&gt;Até pensou em escrever uma carta, mas no rádio tocava Miles Davis e não sabia ao certo se era mais um devaneio tolo que uma dura realidade. Francisco não acreditava em signos ou em búzios ou em deuses, e deixar ao pé da porta de não-sei-quem uma caixa de chocolates amargos lhe dava tanta preguiça, porque grudam na cabeça e nos lugares como um girassol amarelo e um disco de jazz. E foi às onze e trinta da manhã, do dia quente de um inverno insuportavelmente lindo e fácil, que a vida parecia mesmo ter sido escrita para ser assim: música.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:16.0pt;text-align:justify;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:arial, serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1968735435853399474?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1968735435853399474/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1968735435853399474' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1968735435853399474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1968735435853399474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/07/tambem-somos-as-cartas-que-nao.html' title='Arquitetura'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-236594057023290253</id><published>2010-07-07T19:43:00.011-03:00</published><updated>2010-07-16T00:18:48.840-03:00</updated><title type='text'>Efeméridas</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Efemémidas nascem em maio e voam aos montes pelas beiradas dos rios. Pequenos insetos primitivos, vivem da sutil ironia: não importa o que a vida lhes traga, morrerão antes do sol nascer de novo. Tanta pressa e vivem a vida em um único dia. De manhã, uma grata infância, como o céu que faz sonhar vôos mais largos. À tarde, já são jovens, apaixonam-se pela primeira e última vez, mas jamais se entendem breves, muito pelo contrário, festejam embriagados seus planos tortos de eternidade. Não esperam a noite e ela simplesmente anoitece. Então dançam e se acasalam bêbados pelos postes das cidades (uma luz que embriaga a alma). Mal sabem que terão uma única chance: deverá ser hoje tudo o que jamais existiu. E se o dia foi triste, aos efeméridas a vida é toda tristeza. Mas se foi feliz o dia, não deverá haver na lembrança das horas qualquer outra coisa, senão pura felicidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-236594057023290253?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/236594057023290253/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=236594057023290253' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/236594057023290253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/236594057023290253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/07/efemeridas.html' title='Efeméridas'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-663684103899599165</id><published>2010-06-08T22:46:00.005-03:00</published><updated>2010-06-09T12:12:02.659-03:00</updated><title type='text'>Terça-feira vadia</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ele fala palavras difíceis e encena a vida quando se olha no espelho. Ela dedilha o cabelo quando pensa em algo sério, procura fios imperfeitos e os elimina instintivamente. Somos todos meio loucos. Ontem mesmo eu te amava, hoje já não me lembro mais. Eu digo “não me lembro mais”, mas tudo o que eu penso é em você nesta terça-feira vadia. Tudo é meio químico ainda, o amor, as pessoas. Os dias tem cores fortes, depois vão empastelando com o tempo. Terça-feira é azul bem clarinho. Lembro-me de te ver levantando as mãos em reverência aos deuses da música. Você parecia tão feliz naquela noite, ou eram os meus óculos escuros? A saudade me trai. Os goles, as raias, os doces, os desenhos que anunciam a nossa sorte em pequenos comprimidos cor-de-rosa. Eu penso em você, sabe? Eu penso em todos nós. Nossos filhos caretas culpando-nos por tanta liberdade. E os meus sonhos pequenininhos numa cidade assustadoramente vasta. Ele sente raiva de tudo, medo, falta das coisas e a vontade de matar pessoas e fazer filhos com elas. Ela gosta de inventar histórias, calada, imersa no silêncio de seus olhos distantes. Mas o que desejamos do mundo ninguém sabe assim de nos ver passar. O mundo rodando, a vida, a cabeça girando em formações geométricas, flores impossíveis, estrelas no céu. Um caleidoscópio de dias e sonhos e almas. Todas as pessoas que eu jamais troquei um olhar me reparam aqui sozinho. Todos os velhos encontros buscavam um encontro só. Os dias foram todos ensaio para agora. Porque apenas terça-feira existe e ela é azul da cor dos seus olhos.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;        &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-663684103899599165?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/663684103899599165/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=663684103899599165' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/663684103899599165'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/663684103899599165'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/06/terca-feira-vadia.html' title='Terça-feira vadia'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4503440157651023690</id><published>2010-05-27T01:33:00.025-03:00</published><updated>2012-01-17T16:43:02.326-02:00</updated><title type='text'>Quando Saturno Voltar</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Para todas as pessoas que não cabiam...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  Não sei se o vi, ou se era o vento forte agitando os galhos perto do rio. Se era ele mesmo, estava de costas, ajoelhado, como se rezasse ou buscasse com as mãos água para beber. Nunca terei certeza. De longe, era um fantasma, um perfume. Os que o conheceram de perto dizem que era tão fraco e tão feio, que mal se podia encará-lo por muito tempo, porque dava agonia vê-lo viver. Como se notá-lo fosse forte o bastante, então evitavam os olhos para protegê-lo do constrangimento da própria existência. Talvez por isso, ele tenha vivido sempre muito só,&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;mas eu duvido das boas intenções dos que o evitavam. A verdade é que tinham medo de que por algum descuido, aquele menino franzino revelasse o que se anunciava em cada olhar. É que, desde muito criança, o pobrezinho carregava a graça (ou a sina) de ver o futuro anunciado nos olhos de quem o encarasse fixamente. Ele dizia que naufragado em nosso olhar, desenhado feito tatuagem, estava o céu do dia em que nascemos, e a ele, bastavam alguns segundos para que o destino emergisse como um velho segredo guardado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;     &lt;/span&gt;Bernardo Alejo Carreras nasceu em um outono de 1981 e morou por 17 anos na mesma casa amarela à beira do barranco, onde o sol morre mais de perto. Depois que seus pais faleceram, ele continuou ali sozinho e, enquanto viveu na cidade, Bernardo raramente foi visto caminhando fora de casa; ninguém jamais teve com ele qualquer intimidade. Ainda assim, não existe dia em que alguém não conte a sua história, saudoso pela única curva de uma estrada quase sempre reta. É que nada jamais aconteceu antes de Bernardo chegar ou depois de Bernardo partir. Nem o outono virou inverno outra vez, nem a chuva voltou a chover. A vida tornou-se a encenação diária de uma derradeira lembrança, dos dias insólitos e das coisas estranhas que antecederam a sua partida.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;      &lt;/span&gt;Naqueles dias, lembro-me de olhar pela janela e ver no céu um azul eterno e sem compaixão. Nem era final de janeiro e o jornal noticiava o quarto garoto morto encontrado nas valas perto da estrada. Morriam asfixiados sem arranhão ou marcas de luta. Não existia nada que ligava os garotos a um único suspeito e não havia provas de que se conheciam entre eles. Moravam em cantos extremos da cidade, mal eram vistos pela vizinhança e a única coisa em comum, mas isso parecia abstrato demais para supor qualquer ligação, é que os quatro meninos guardavam o desejo antigo de um dia irem embora daqui. Mas que espécie de assassino mataria pelo sonho de alguém? &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;     &lt;/span&gt;Andava pela cidade, também por aqueles dias, um forasteiro. E como tudo que é de longe e de fora, não demorou para que o povo o tomasse como&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;principal suspeito dos desarranjos do lugar. Ele era um homem silencioso, de idade e sotaque incertos, branco queimado de sol, com um chapéu que lhe protegia o rosto e lhe dava certa dignidade estrangeira. Seu nome até hoje não se sabe. Solitário, mas bastante elegante em sua solidão, como se gritasse sem ter que dizer que se existe uma única verdade na vida - e as outras todas seriam variações passageiras – é que somos irremediavelmente sós. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;      &lt;/span&gt;As autoridades da cidade apressaram-se em um plano para agarrar o suspeito e impedi-lo de mais um ataque. Mas não tinham prova alguma nem estavam exatamente certos da lógica que emoldurava as suas vítimas. Especulavam sobre a vulnerabilidade dos “meninos delicados”. Chegaram a aconselhar as famílias que tivessem dentre os seus filhos um jovem frágil que porventura mencionara o desejo de ir embora recentemente, que o mantivessem dentro de casa, sob o risco de ser raptado por um estranho, asfixiado até a morte e desovado em uma vala à beira da estrada. Foi quando meus pais trancaram a porta e me proibiram de sair do quarto até que resolvessem os crimes lá fora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;       &lt;/span&gt;Da janela, o mundo era uma rua estreita de terra, às vezes crianças jogando bola, às vezes um homem fumando, um moço entregando a namorada antes das onze. Um deserto para nascer e morrer, as árvores tortas como bailarinas que perderam a graça, as casinhas coloridas no esforço de fazerem rir uma cidade triste. Quando pequeno, eu pensei que se fosse possível fugir sem que as pessoas notassem, e quando notassem, já fosse tarde e não sofressem, porque diriam coisas do tipo: “ele não nasceu para viver aqui” , ou “eu sempre vi no jeito daquele menino uma coisa estranha, como se ele viesse de outro lugar”, enfim, se fosse possível ir embora sem que a casa fosse devastada, eu teria partido, mas não fui.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;    &lt;/span&gt;Lá perto do barranco, dava para ver o sobrado amarelo de onde Bernardo Carreras nunca saía. E me lembro de pensar como ele devia cobrir os espelhos com grandes lençóis brancos para evitar qualquer encontro desagradável com seus olhos. Porque se o povo estava certo, Bernardo ao se ver, enxergaria a vida inteira até a sua morte, e a vida guardada é uma condenação.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;     &lt;/span&gt;Foi numa noite sem lua, quando os homens bons já dormiam e estava escuro demais para se ter certeza de qualquer coisa, que o forasteiro cruzou a rua em direção à casa de Bernardo. Confesso que vi um vulto passar, mas os detalhes que narro aqui são de colecionar pelos anos. Naquela noite ventava muito. Contam que o estrangeiro bateu em sua porta três vezes, mas o menino não demorou em abrir, como se o esperasse a vida inteira. E então, quando Bernardo olhou fundo nos olhos do visitante, ele viu somente chuva. E a chuva, conhecíamos dos livros, mas não de temporal. E era tanta água, que não se pôde ver mais nada.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;     &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;       &lt;/span&gt;Bernardo teve medo. O homem por duas horas falou do mundo, dos lugares que tinha visto, das possibilidades que se desdobravam além da estrada. Disse que nem tudo era igual. Se o verão é um sonho, o inverno é a consciência das coisas. E as coisas todas mudam, em algum outro lugar elas se permitiam às suas diferenças, se revelavam&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;particulares. E se Bernardo teve medo, é porque sabia desde sempre a escolha que faria. Depois de falar por horas, o estranho, que até hoje não se sabe o nome, lhe perguntou:“Você quer que eu te leve daqui?”&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;       &lt;/span&gt;Quando a primeira gota d’água tocou a terra virgem, corremos para ver a chuva e gritávamos palavras que não se deve dizer - tão obscena a nossa alegria.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;A vida de Bernardo, que morava no final da rua, apenas supúnhamos para além do temporal, mas naquela hora não preocupávamos com mais nada. Alguns rezavam com pavor do que mandava o céu, alguns corriam para fora de suas casas, alguns tiravam as roupas e dançavam feito crianças loucas. E chovia apaixonadamente. Demorou mais de uma semana para que passasse a ressaca e voltássemos à vida de antes. Mas nem Bernardo nem o forasteiro jamais foram vistos de novo.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;No horizonte aberto, a casa amarela e vazia.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;    &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;        &lt;/span&gt;Por trás dos olhos de chuva existia o mundo inteiro ou uma cova rasa. Bernardo não sabia, mas preferiu arriscar. Alguns homens da cidade procuram até hoje o seu corpo, certos de que em alguma quebrada encontrarão seus restos esquecidos. Mas a cada dia sem notícias, quando os vejo voltando para casa de mãos vazias, eu aperto os olhos e imagino como deve ser este lugar onde pertencer raramente importa. Hoje, já me deixam sair de casa, mas se chove, já não molha mais.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;      &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4503440157651023690?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4503440157651023690/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4503440157651023690' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4503440157651023690'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4503440157651023690'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/05/quando-saturno-voltar.html' title='Quando Saturno Voltar'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-6066196026390760022</id><published>2010-03-29T18:42:00.003-03:00</published><updated>2010-05-18T18:23:13.005-03:00</updated><title type='text'>Gente de ir embora</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;     &lt;/span&gt;Existe gente de nascer e morrer, e existe gente de ir embora. Nenhuma explicação é tão dura, nem tão simples.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;A ternura é poder entender que por mais que se ame e se queira atravessar os séculos na insistência de um encontro, o tempo prescreve as coisas para que elas signifiquem mais longe que a própria vida.&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-6066196026390760022?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/6066196026390760022/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=6066196026390760022' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6066196026390760022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6066196026390760022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/03/gente-de-ir-embora.html' title='Gente de ir embora'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4488684189849508564</id><published>2010-03-18T19:12:00.014-03:00</published><updated>2010-03-19T17:28:33.307-03:00</updated><title type='text'>O Conto moral</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Como num velho conto, ele encontrou no meio da estrada um animal caído, desses que não se deve aproximar jamais, a&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;não&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;ser quando completamente fragilizados. E levou-o para casa, contrariando os melhores conselhos. Cuidou de suas feridas como quem cuida de um filho doente, na tortura incerta de que a cada dia, o animal estivesse mais forte e mais próximo do que realmente era. Mas para aquele homem, não devia existir no mundo prazer maior que ver o pobrezinho desabrochar em toda a sua natureza selvagem, porque&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;amor inteiro ele só conheceria quando fosse devorado pela fome voraz de seu filho.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; Até que chegou &lt;/span&gt;o dia, em que entrando no quarto onde dormia o bicho, encontrou o lugar devastado - cada detalhe destruído pela fúria de um monstro. Em um instante, sentiu seu bafo quente bem atrás de seu pescoço e, por uns poucos segundos, pôde ouvi-lo salivar; suas narinas abertas respirando com pressa e fome. O homem não duvidou de seu futuro e foi de fato mastigado sem piedade. Mas enquanto morria, pôde ver que bem fundo nos olhos da fera, escondia-se, quase que envergonhada, uma certa gratidão.&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4488684189849508564?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4488684189849508564/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4488684189849508564' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4488684189849508564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4488684189849508564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/03/o-conto-moral.html' title='O Conto moral'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7009697568491378045</id><published>2010-01-07T19:36:00.004-02:00</published><updated>2010-03-19T15:05:07.121-03:00</updated><title type='text'>A Ciência</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Marie nasceu inapta. Não era doença nem covardia, simplesmente estava ausente de sua natureza mais particular. Como um artista daltônico fadado a não ver os tons do verde, que chora pela suposição abstrata da beleza que não vê, ela apenas imaginava o amor, vagamente. Leu todos os romances, estudou filosofia, química, biologia. Tornou-se, talvez, a maior autoridade viva no assunto. Observou de longe o comportamento dos casais, recolheu amostras de sangue, saliva e suor; analisou a questão dos odores, dos perfumes, dos segredos da neurolinguagem. Chegou muito perto de desmentir as paixões em equações matemáticas e teorias evolucionistas, debruçou-se sobre longas teses acadêmicas e fichas de crimes passionais para, mais tarde, escrever um ensaio que rodou o mundo e a fez famosa mulher das letras.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Certa vez, rascunhou em um caderno: “Eles se encontram por acaso e,  como por resultado de uma conjunção astral, resolvem conviver intimamente pelos próximos meses. Mal se conhecem e já dormem e acordam juntos, algo muito além da necessidade do sexo, porque sentem falta um do outro, e se comunicam várias vezes ao dia para narrar os detalhes mais banais de suas vidas. Curioso, porque muitas vezes nem guardam grandes afinidades, mas se bastam e então trocam títulos e compromissos públicos. Até que por outra conjunção, ou desarranjo, o que eu também não entendo, algo se quebra abruptamente. Assim frágil, inexplicável. E a intimidade de meses se desfaz em segundos. Tornam-se estranhos, ou percebem-se os estranhos que eram de fato. Não se cumprimentam mais nas ruas e se evitam pelo desconforto da estranheza. Tudo rápido. Estranho e íntimo confusos em um mesmo retrato”.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Mas Marie não era triste, nem louca, nem só. Sua condição não se tratava do avesso do amor, como em um psicopata; nem de rancor e amargura, como em alguém que amou demais e sofreu muito por isso. Ela simplesmente havia nascido desprovida da qualidade banal aos outros homens, daquelas tais sinapses nervosas, ou o que quer que fosse a razão para aquilo tudo. E, então, haveria de passar a vida para entender o que era tão simples e fácil, tão antes de qualquer razão e qualquer sentido. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Quando cantava canções, elas eram melodias com palavras impróprias; toda poesia carecia de maior utilidade além da métrica e da rima. O sentido das coisas – e isso era o mais insuportável- revelava uma dependência crônica a um único e infindável elemento. Mesmo as guerras e os deuses; mesmo as dores e os surtos, tudo era mantido por um solitário denominador comum. O amor impregnava os hábitos, apertava-se nos parênteses da História. Civilizações inteiras se explicavam a partir dele, pela falta ou pelo excesso. E as coisas todas, apenas utilitárias e funcionais como lhe eram aos olhos, não pareciam ter a mesma graça que aos outros mortais, então ela buscava obstinadamente.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Um dia, resolveu proceder uma experiência insólita. Em laboratório, com a ajuda dos mais renomados cientistas, e por semanas inteiras, ela ativou seus neurotransmissores e estudou a fisiologia secreta das paixões. Simulou as reações físicas de um beijo, de um abraço, da própria saudade. Como se adestrasse seu corpo a sustentar novos sentidos espontaneamente a partir de então. E não é preciso dizer que foi experiência vã. Neste período, traçou gráficos desconexos; pela casa deixava anotações rebuscadas, palavras com ímãs na porta da geladeira. Entre fotografias em gôndolas de Veneza ou em cafés de Mont Martre, expressões como feniletilamina, dopamina, serotonina, norepinefrina.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Sobre o amor perdido, Marie escreveu: “Parece ser o mais abominável dos terrores. Eles se recolhem em quartos escuros, choram ao despertar da manhã ou ao cair da tarde. Choram, na verdade, a qualquer momento, em qualquer lugar. A mais inocente canção desata fantasmas remotos. As coisas belas são pálidas e mortas. E mesmo assim, e muito frequentemente, se auto-flagelam, porque existe prazer inconfessável na dor, uma adoração popular celebrada em ritos milenares que a cultuam em música, verso e prosa. Parecem querer sofrer.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Seu inferno era sua sabedoria. Os anos passavam e Marie, incólume, sobrevivia intacta aos desafetos, se é que existiam. Até bem velha, tinha o hábito de passear pelo parque sozinha e escrever sob a sombra de uma árvore as suas sóbrias conclusões. O outono era bonito, mas não lhe fazia lembrar de ninguém; não existia qualquer intenção no amarelo além da cor do sol e o vermelho das folhas quase mortas era silenciosamente vermelho. Bem que podia pensar, que o amor era então o seu único amor, mas nem isso. A sua curiosidade era meramente técnica, não lhe suava as mãos, nem lhe dava calafrios.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Certa vez, já nos seus últimos dias, pagou um garoto que passava e lhe fez a seguinte oferta: “Venha para a minha casa. Não quero que me desnude, nem faça sexo comigo. Diga simplesmente que me ama repetidas vezes, milhares de vezes se possível, de todas as maneiras que existirem”,&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;e o pobre desentendido passou as próximas horas inventando o amor. Marie, de olhos fechados, como se respeitasse a robustez de sua esfinge, ouviu e esperou que algo acontecesse. Mas nada. Nem uma brisa soprou.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Em seu túmulo, pediu que estivesse escrito: “Eu te respeito, porque mesmo eternamente imune, eu nunca serei tua cura”. Mas infeliz de Marie que não viveu o amor de fato. Não sentou-se à noite na areia da praia para escrever um nome e esperar que o mar acalmasse a sua saudade, nem jamais acreditou que os anos trariam melhores lembranças para o azul daqueles olhos. Marie não amou nem sofreu. Nem teve culpa disso. Sob os seus pés o mar cravejava desenhos calados; sobre a cabeça, as estrelas não conspiravam nada além das pobres estrelas que eram. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt; &lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7009697568491378045?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7009697568491378045/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7009697568491378045' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7009697568491378045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7009697568491378045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2010/01/ciencia.html' title='A Ciência'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4775986560424328724</id><published>2009-12-31T17:54:00.001-02:00</published><updated>2009-12-31T17:55:42.449-02:00</updated><title type='text'>Sorte no Jogo</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Alguém ainda celebra desavisado a noite de ontem, cambaleante na chuva, canta música para o ano que nasce. E o humor desajeitado dos que venceram e olham o céu cansado de tanta promessa - cinza, na medida do possível.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;   &lt;/span&gt;“Seremos ricos, saudáveis e felizes no ano que vem”, prometem de novo com seus velhos trejeitos, mas ninguém ousa cantar que tudo será exatamente igual, mesmo quando nada foi de todo ruim, apenas estranho, apenas rápido demais, sempre cantam uma vida nova, envergonhados do que já passou, ou simplesmente calejados pelos amores antigos. Mas que bobagem. Seremos iguais e choraremos os mesmos erros em repetições sistemáticas de nós mesmos, nossos espelhos eternos virados um para o outro num corredor sem começo nem fim.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; Eu sei que eles venceram. Preciso reconhecer que era guerra vã desde muito antes de eu existir, mas não me pareciam tão alegres assim, talvez por isso se agarrassem àquelas horas úmidas de pretensa felicidade e olhassem para mim exaustos de tanto esperarem por ontem. Eu os olhei de volta e prometi que saberia perder , mas perder não é uma sabedoria. Sempre se perde pela primeira vez, e é como se a vida não nos tivesse ensinado nada até então. Então eu olhei nos seus olhos pela primeira vez, me despedi pela primeira vez, e andei na chuva, cada paisagem escura e vazia pela primeira vez, porque o Rio dormia cansado da guerra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;                                                               &lt;/span&gt;***&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O tempo sempre invejou o meu humor. E é porque estou triste, que chove, chove, chove. Hoje, eu pintaria de cinza todas as outras cores, só para vê-lo sorrir como num retrato antigo, só para juntar areia, mar e céu num horizonte que não se enxerga a sete passos daqui.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;margin-left: 36pt; text-indent: -36pt; "&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4775986560424328724?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4775986560424328724/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4775986560424328724' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4775986560424328724'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4775986560424328724'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2009/12/sorte-no-jogo.html' title='Sorte no Jogo'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-2036010780474140994</id><published>2009-10-27T17:46:00.007-02:00</published><updated>2009-11-05T00:47:07.250-02:00</updated><title type='text'>A saudade é uma cidade vazia</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SuyjMTzJyGI/AAAAAAAAADA/J7CoZUKc5uc/s1600-h/NY9.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SuyjMTzJyGI/AAAAAAAAADA/J7CoZUKc5uc/s320/NY9.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5398869485178964066" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era o dia seguinte de tudo, a cidade devastada por um terremoto, os corpos semivivos entre espasmos, e o mar se curando de uma ressaca há dias, aliviado de um estranho carnaval. Eu acordei bem cedo, caminhei pela orla sem perceber a cidade vazia, li duas páginas de um livro, rascunhei umas palavras no caderno para lhe dizer depois. O mundo estava visivelmente diferente de quando fomos para a cama. Os jornais noticiavam a colisão frontal de dois planetas, com conseqüências devastadoras que ainda era cedo demais para entendermos. Então eu esperei que você acordasse, sentado sozinho na areia da praia. Talvez você nunca viesse, talvez o mundo estivesse mudado demais para falarmos de coisas amenas como antes de tudo e você preferisse nunca acordar, mas eu esperei, não sei por quanto tempo esperei. A cidade silenciosa como um sonho, o verão glacial dos meses que não existem dava saudade de tudo que foi bom entre nós.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-2036010780474140994?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/2036010780474140994/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=2036010780474140994' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2036010780474140994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2036010780474140994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2009/10/saudade-e-uma-cidade-vazia.html' title='A saudade é uma cidade vazia'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SuyjMTzJyGI/AAAAAAAAADA/J7CoZUKc5uc/s72-c/NY9.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-3166001311134246130</id><published>2009-08-24T12:17:00.005-03:00</published><updated>2010-04-12T17:26:39.096-03:00</updated><title type='text'>O que resta de nós</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;- Um brinde a nós – gritou André, equilibrando-se do alto de um banquinho de madeira, com um copo de cerveja na mão e lágrimas nos olhos - porque somos os filhos da puta mais felizes do mundo – completou o brinde, agora ainda mais entusiasmado, ameaçando começar um discurso apaixonado, que ele mesmo desistiu alguns segundos depois.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;      &lt;/span&gt;Tínhamos setenta e poucos anos e estávamos em um boteco da Rua Ataulfo de Paiva&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;discorrendo sobre o que havíamos feito da vida, enumerando nossas pequenas revoluções. Em 2054, o Rio de Janeiro era a memória inconveniente de todas os amigos perdidos, uma cidade ofegante aniquilada pelos próprios caprichos e mesmo assim um tanto mimada por deus; e nós não tínhamos nem idade nem paciência para tantos rancores, então simplesmente amávamos a cidade e as nossas lembranças de lá. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;      &lt;/span&gt;-&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;Para os nossos pais foi mais fácil - disse Camila, interrompendo o silêncio com uma frase estranha, olhando para dentro do seu copo como se encontrasse ali as suas secretas conclusões – Eles já nasceram entre inimigos postos. Nós tivemos que inventar os nossos - depois calou-se com a frase suspensa no ar, que de tão vaga e leve, flutuava entre as nossas cabeças brancas, despejando aqui e ali doses particulares de sentido.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;       &lt;/span&gt;Quando inventaram as primeiras drogas para esquecer amores, éramos jovens e fomos para a rua brigar pelo direito sagrado à dor. Lembro-me de nossas exatas palavras: “quem não sofre desaprende a amar”, uma bobagem romântica para combater inimigos abstratos. Mal sabíamos que era parte de um movimento muito maior. Em pouco tempo, os sentimentos eram todos catalogados em cores, as intenções eram medidas em doses terapêuticas e distribuídas nas prateleiras das farmácias. Tomava-se remédio para tudo, para se ver mais graça nas coisas, para se ter razão para acordar, para se ter vontade de criar os filhos. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;        &lt;/span&gt;- Vejam vocês que engraçado – falou Beto com a voz ligeiramente embargada – Eu estava exatamente aqui há quarenta anos, quando acendi o meu último cigarro. E me lembro como o fumei demoradamente, tragando e enchendo o pulmão com aquela fumaça suja, saudoso por uma liberdade perdida, por meus personagens do cinema, por qualquer coisa que aliviasse. Naquele ano, nos proibiram de fumar nas vias públicas, no calçadão e na praia, e então, eu e mais quatro amigos, que já não podíamos fumar quase em lugar nenhum, nos juntamos para nosso último trago. O Governo havia decidido que homem bom era homem feliz e saudável, e as pessoas todas pareciam concordar com ele, menos eu. Hoje, meu médico disse que aos setenta e três anos, não existe mancha no meu pulmão. Disse que eu devo viver mais uns trinta anos, que eu sou homem de sorte, forte e feliz.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;        &lt;/span&gt;A lamúria de um cavaquinho embalava a tarde vermelha e vazia. E bebíamos saudosos de nós mesmos, recitando profecias cansadas e falando as bobagens que os velhos falam quando sentem saudade das coisas que deveriam ter sido e não são. Mas éramos convenientemente felizes. Nossa&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;antiga idéia de futuro vagamente se parecia com o futuro de fato. Este lugar, por exemplo, de alguma forma já era o futuro há quarenta anos, quando Beto acendeu o seu último cigarro. Estava tudo anunciado. Andávamos nas ruas com medo, as pessoas se matavam por dinheiro, diziam que a corrupção era a nossa argamassa genética, e então decidiram que deveríamos ser todos tratados. Nosso medo foi quimicamente remediado, nossa violência e corrupção foram dissipadas com intervenções químicas de passividade, e nos tornamos serenos e pacíficos. Hoje ninguém tem medo de andar nas ruas ou de nada mais no mundo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;         &lt;/span&gt;Camila sacou da bolsa um vidrinho azul, pingou duas gotas em cada um dos nossos copos e disse: “Para o dia entardecer mais bonito”. Demos todos um gole e contamos até dez para sentir a brisa soprar mais fresca. Então eu disse:&lt;i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;        &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-style:normal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;- O meu neto se casa amanhã com uma amiga da faculdade e um colega do bairro. Vão viver os três em uma casa linda de Santa Tereza. Ela congelou os óvulos para os seus quarenta anos. Antes, disseram que querem aproveitar a vida. Estão certos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;          &lt;/span&gt;Daí, André subiu no banquinho mais uma vez, fechou os olhos molhados e gritou: “um brinde a nós, que somos os filhos da puta mais felizes do mundo”, que era a frase que mais adorava dizer. Todos rimos e brindamos pela tarde, pelas mil nuances do vermelho no céu. E ficamos assim calados, Beto com os olhos fechados, Camila procurando algum novo segredo perdido em seu copo, André no alto do banco e eu olhando para eles, tentando encontrar palavras que descrevessem nossa felicidade. Duas gotas e a tarde caía mais bonita. Não sabíamos ao certo o que era verdade ou mentira, nossas contingências sempre muito bem tratadas, nossos desejos nunca tão arredios. A brisa soprava fresca e tudo de ruim parecia não existir.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-3166001311134246130?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/3166001311134246130/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=3166001311134246130' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/3166001311134246130'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/3166001311134246130'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2009/08/o-que-resta-de-nos.html' title='O que resta de nós'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-112021655233981911</id><published>2009-05-27T15:52:00.001-03:00</published><updated>2009-05-27T15:54:35.795-03:00</updated><title type='text'>Nossa história não daria um filme</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;Somos dois homens sentados na sarjeta. Eu sou ele e eu. Às quatro da manhã, eu sou tanta gente, nós dois bêbados sem rumo, ainda bem que nos sentamos aqui, porque sei lá se tivéssemos batido o carro em um poste ou nos arriscado por caminhos escuros e cheios de possibilidades. Resolvemos nos sentar, conversar um pouco, por mais que tudo fosse devagar agora, e as verdades saíssem desimpedidas por entre as sombras (eu tenho vontade de ficar sozinho, você me entende?), ele fala sem parar, porque desta noite virá o sentido dos próximos dias: um fantasma esquizofrênico no meu ouvido, mesmo que tão longe já levando a sua vida. Um dia, recebo uma carta perguntando como anda tudo, faz tanto tempo que não nos vemos, espero que tudo vá bem com a família, etc; mas agora estamos realmente embriagados, eu ainda penso antes de dar um último trago no meu cigarro: e se nos acorrentássemos aos meses em que fomos felizes? Mas essas coisas não acontecem. Algumas semanas e seremos estranhos, eu sei como é, nos encontraremos na entrada de algum cinema do centro e diremos breves e educadas palavras (não seja assim tão dramático), o mundo balança e fomos esquecidos neste barco à deriva, não há terra a vista. Eu soluço numa embriaguez patética. Fazia tempo que&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;  &lt;/span&gt;não vivíamos uma noite suja assim, só nos livros (você sempre escreve, eu leio as suas coisas, você sempre escreve, mas nunca escreveu nada sobre mim), os carros passando, um frio tímido em São Paulo, ele se levanta cambaleante, solta uma gargalhada triste (para dormir, você precisa de duas gotas de Rivotril), eu deito a cabeça sobre o seu ombro, eu deito a cabeça sobre o meu ombro. Sentado na sarjeta, existe um homem só.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;  &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;   &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-112021655233981911?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/112021655233981911/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=112021655233981911' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/112021655233981911'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/112021655233981911'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2009/05/nossa-historia-nao-daria-um-filme.html' title='Nossa história não daria um filme'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4710256787942561041</id><published>2009-05-12T07:01:00.010-03:00</published><updated>2011-09-04T12:39:04.555-03:00</updated><title type='text'>O Tempo das Coisas</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;margin-bottom: 13pt; line-height: 20pt; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:TrebuchetMS, serif;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Quando nasceu, ele teve muita febre. A mãe, em desespero, prometeu depressa que faria qualquer coisa para que o filho vivesse. E a promessa que fez, guardou em segredo até que o menino fizesse catorze anos. Em seu décimo quarto aniversário, ela lhe revelou: “&lt;i&gt;Agora, você tem que partir. E enquanto eu viver, não poderá escolher um único lugar para ficar. Terá sempre que ir embora, passar em cada cidade o tempo de quatro luas. E logo que a lua crescer, encher no céu, minguar e sumir, você terá que escolher um outro destino. Nada será maior nem mais insistente que a estrada: nenhum amor, nenhum lugar. Se não o fizer como digo, eu morrerei pelos seus desatinos&lt;/i&gt;.” &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Então o menino partiu, e assim, por anos, ele andou quase todo o mundo. Conheceu os homens em pedaços, aprendeu a vida em migalhas, como histórias partidas e espalhadas no ar, as cidades não se explicavam em mapas, as pessoas se prolongavam umas nas outras, uma briga aqui era perdoada lá, porque tão logo ele apreciava o instante, a lua minguava no céu, e ele as deixava para trás, nenhuma carta, nenhuma flor, simplesmente acordava sem fazer barulho e ia embora. Não havia nada que pudesse fazer, e se tentasse explicar, não o entenderiam de fato. Algum dia, quando conhecesse uma outra pessoa, tentaria descobrir um gesto perdido aqui que o fizesse lembrar de alguém abandonado em outro lugar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Os anos passaram, e o homem que se fez daquele menino não dividia os mesmos escrúpulos dos homens banais: nada lhe cortava o coração, nem o choro aflito de uma moça na janela, nem os meses contados de um velho doente. A saudade era a simples certeza das coisas, porque bom ou mau, ele não veria um amor definhar-se no tempo, nem o rosto de um homem se transfigurar com os anos. Tudo era abandonado num eterno presente, sem passado ou futuro. Nenhuma cidade teria a chance de se domesticar, nenhum sotaque tomaria os trejeitos do hábito, nenhum endereço se tornaria um vício. De passagem, ele estava ou atrasado demais ou muito antes de tudo, mas não existiam planos nem arrependimento. Era saudade sem dor: um perfume, uma música, um sorriso fácil.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;margin-bottom: 13pt; line-height: 20pt; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:TrebuchetMS, serif;"&gt;2&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;margin-bottom: 13pt; line-height: 20pt; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:TrebuchetMS, serif;"&gt;Apaixonou-se por Laura assim que desceu do trem. Era maio de um ano bom, e ele andava pelo sul da França. Ela não conseguia carregar sua valise, ele a ajudou na estação. E tão rápido passaram 28 dias juntos. Pela primeira vez, ele teve medo que acabasse. A casa aconchegava estranhos planos, Laura acordava e ele trazia torradas e suco de laranja na cama. Em segredo, ele vislumbrou um lugar no mundo em que fosse só seu, um discreto território, como um pequeno país onde as leis fossem suas com um templo onde  pudesse suspender os deuses que lhe fossem afins. Laura tocava piano lindamente e ele a ouvia encantado. O mar dava para ver da varanda, o vento úmido da Costa do Azul fazia tudo como um sonho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Mas quando estava prestes a abandonar Laura, ele telefonou para a sua cidade natal, como fazia ao final de cada nova viagem. Já era um homem de quarenta anos, e por mais irônico que pudesse parecer, esta era uma de suas poucas tradições. Também gostava de Miles Davis e Clint Eastwood, e no inverno tomava chocolate quente com uma dose de conhaque, mas ligar para a sua mãe a cada 28 dias era seu mais sagrado juramento, talvez porque dela dependesse sua natureza e condenação. Do outro lado da linha, uma moça atendeu o telefone, e para a sua surpresa lhe informou que sua mãe estava morta. Tinha morrido dormindo, morrido de velha. Ele desligou o telefone atônito. Reparou Laura, que ainda tocava o piano sem se dar conta do que acontecia. Então, ele perguntou a ela : “Laura, quanto tempo levou para que você&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;aprendesse a tocar piano tão bem?” E ela lhe respondeu: “Quase quinze anos”. O homem sentiu um vento gelado percorrer a sua espinha. O tempo era um visitante inusitado. E aquela podia ser a sua casa agora. Ele era livre para escolher ficar.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:13.0pt;text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style=" ;font-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; Na manhã seguinte, Laura não comeu torradas na cama. Seu amor havia partido (e ir embora já não era  mais sua sina). Naquela tarde, ele encostou a cabeça na janela do avião e viu na altura de seus olhos a linha turva da noite engolindo o dia. Não havia escrito livros, nem feito filhos, nem deixado nada para ninguém, mas sentiu-se realizado por um instante, como a lua nova que só existe em sua ausência e não brilha no mar, mas insiste em sua influência secreta sobre as pequenas coisas, ele também insistia numa quietude sem pressa: um quadro que não se pintou ainda. Laura chorou por seis meses, depois conheceu outro moço com quem se casou e foi feliz. E o viajante, condenado a si mesmo, amou e deixou todas as mulheres e todas as cidades do mundo. Quando no fim da vida, um de seus breves amigos quis pintar seu retrato, fez um esboço abstrato cheio de curvas que até lembravam um rosto, mas bem que podiam ser paisagem. De qualquer ângulo que se olhasse, ele não estava lá.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4710256787942561041?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4710256787942561041/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4710256787942561041' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4710256787942561041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4710256787942561041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2009/05/lua-nova.html' title='O Tempo das Coisas'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7338064269415984100</id><published>2009-02-16T13:01:00.015-03:00</published><updated>2010-07-19T03:39:03.781-03:00</updated><title type='text'>O Fim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style="mso-font-kerning:.5pt;mso-ansi-language:EN-USfont-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Coisa nova existia quase no canto dos olhos, apertada entre movimentos curtos, nem mesmo um relance, coisa tão simples e breve que era impossível aprisionar num instante. Mas Isabela sabia, de longe, enquanto reparava nos velhos trejeitos de Carlos, que vivia ali entre um gesto e outro algo inominável, secreto e dissonante, um hospedeiro dissimulado entre os beijos de boa noite, que de tão novo e breve, nem Carlos sabia ainda. Mas Isabela esperava.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style="mso-font-kerning:.5pt;mso-ansi-language:EN-USfont-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style="mso-font-kerning:.5pt;mso-ansi-language:EN-USfont-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Os filhos corriam pela casa, brincavam de esconder por entre os móveis velhos. As esquinas já carregavam o cheiro acre daquelas pessoas. Engraçado isso - Isabela pensou, pessoas que passam muito tempo juntas dividem o mesmo cheiro juntas. Depois, ela olhou para o calendário esquecido na estante, dezembro era longe demais de agora, quase não se via dezembro daqui.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style="mso-font-kerning:.5pt;mso-ansi-language:EN-USfont-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:20.0pt;mso-pagination:none;mso-layout-grid-align:none;text-autospace:none"&gt;&lt;span lang="EN-US"  style="mso-font-kerning:.5pt;mso-ansi-language:EN-USfont-family:TrebuchetMS;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Do outro lado da porta de vidro, Carlos percebeu sua mulher, que o olhava serena, e sorriu. Fez um aceno, disse uma coisa qualquer, que ela não pôde ler em seus lábios, mas entendeu que era algo bonito, então sorriu de volta, como se respeitasse o que o que iria nascer daqueles próximos dias, mesmo que não soubesse ao certo o que de fato nasceria. Naquela semana, Isabela teve vontade de escrever, ouvir música, cozinhar velhas receitas. Um dia, as coisas fariam sentido.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;   &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7338064269415984100?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7338064269415984100/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7338064269415984100' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7338064269415984100'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7338064269415984100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2009/02/o-fim_16.html' title='O Fim'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1824324125723204187</id><published>2009-01-09T18:50:00.004-02:00</published><updated>2009-06-15T17:43:22.053-03:00</updated><title type='text'>Breviário das tardes sujas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SZmRpowWTRI/AAAAAAAAACA/JpCPoFPFbjE/s1600-h/DSC_0400.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 202px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SZmRpowWTRI/AAAAAAAAACA/JpCPoFPFbjE/s320/DSC_0400.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5303430180706340114" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Meu divã é a coisa mais cafona que existe. Sorrateiro, dissimulado, couro de vaca malhada de pelo escovado. Eu não entendo o meu analista, por que alguém compraria aquele divã? Mas meu analista é tão vago e silencioso, que parece ser bom. Para ele eu conto o que se fez da vida, depois faço um cheque e encenamos educação protocolar. Existem tantos livros na sua estante, que eu penso que, se por acaso, ele tiver lido a metade deles, pelo menos é uma pessoa educada. Numa terça, lia Nietzsche, outro dia, A Obra Completa de Nelson Rodrigues - quase o suficiente para entender a mundo. Mas eu evito as fotografias pela casa, todo dia, enquanto ando pelo corredor até o quarto onde fica o meu divã, sinto a presença de pequenas memórias pregadas na parede, mas não ouso virar o pescoço, olho para baixo, sigo em frente. A foto de um analista criança não deve ser jamais revelada, porque eles não nasceram, nem tiveram história. Quando eu fecho a porta de seu apartamento e vou embora, ele se apaga, recolhe-se em uma dimensão particular. Prefiro não saber demais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Nunca soube se Freud fazia sexo, Nietzsche definitivamente não fazia. Eu chego em casa e devoro uma caixa de torrones caseiros, enquanto assisto à Dexter na televisão. Quando eu era pequenininho, queria muito ser psicopata, mas isso não é uma questão de escolha, de acordo com a &lt;i style=""&gt;Superinteressante&lt;/i&gt;, psicopatas nascem psicopatas, são seres extremamente sedutores, mais inteligentes que a média e com incapacidade inata para sentimentos banais. Todos os meus sentimentos são banais. Talvez por isso eu repita dez vezes a mesma cena do dvd para chorar pelos mesmos motivos. O choro conduzido é um poderoso exercício de auto-conhecimento, ensaiamos assim nosso próprio vexame. Eu já chorei a morte de todos os meus parentes vivos, já ensaiei o que diria em seus enterros, já, inclusive, escolhi a música do meu próprio funeral. Quero poucas flores, melhor que não seja em igreja, melhor que não tenha padre, melhor que toquem a nona de Beethoven. Eu sei que soará óbvio, mas é melhor que me enterrem também. Eu acho um tédio a nova moda das cremações, mais cafona que vaca malhada no estofado do meu analista.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Eu chego atrasado no trabalho. Fui cooptado pelo trabalho há pouco mais de dois anos. O trabalho não me trouxe dignidade, me trouxe só um pouco de dinheiro. Eu deixei de gostar de cinema no dia em que entrei em uma produtora pela primeira vez, porque o amor não pode ser técnico, só romântico. Não me espantaria se um louco dissesse que todos os floristas odeiam flores, todos os taxistas odeiam carros e todos os ginecologistas são gays.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Além disso, eu vivia num prolífero ócio criativo às custas do meu pai, e embora eu definitivamente não queira voltar a ser sustentado por ele, era um tempo de muitas idéias. Hoje, eu sei que o segredo do Cinema se esconde nas linhas de uma planilha Excel, e isso não é nada encantador. Pedi para que me contratassem um estagiário para que eu possa fazê-lo deixar de acreditar no que mais ama. Será um exercício sádico, mas ter um estagiário é um pouco como ter um filho. Eu sinto que o caráter dele será formado a partir do meu, e eu fico pensando nos prazeres que terei com ele. Talvez ele chore algum dia, talvez vire um monstro, ou quem sabe supere o mestre em tudo, daí, eu, &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;mais velho e morto de inveja, diga a odiosa frase: “não se esqueça de onde veio, garoto”.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Eu não me esqueço, fui criado por revistas em quadrinhos da Mônica, programas de auditório da Xuxa, aulas de catequese frustradas, discussões calorosas sobre o governo de Collor de Mello, festas de rodeio no asfalto em Goiânia, filmes pornográficos nas tardes rarefeitas de São Paulo, banheiros inexplicáveis de uma boate vermelha da Rua da Consolação, pequenas moedas de Euro para comer congelados na Espanha, sexo anônimo na Internet, livros baratos sobre o nada e suas variações esquemáticas, pequenas concessões ideológicas pelo amor ao dinheiro e à Paris, de modo que, embora não pareça a princípio, eu sou uma pessoa boa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Meu analista cruza as pernas desgostoso. Faz cara de nojo e preguiça, mas não diz o que verdadeiramente pensa de mim. Eu tenho a impressão de que ele, a qualquer momento, chegará à conclusão de que sou inapto para o convívio social, e me despachará para um desses asilos psiquiátricos, onde as pessoas fumam e conversam com as suas próprias fezes. De repente, um pigarro. Ele arranha a garganta, passa uma mão na outra, vasculha alguma bobagem lacaniana no cérebro, e diz: você disse blá, mas quando você diz blá, o que é blá blá blá para você? Eu penso um pouco. E no milésimo de segundo antes da resposta, ele me antecipa com uma alegria que não se esconde no olhar: vamos parar por aqui? &lt;i style=""&gt;You, son of a bicth&lt;/i&gt;. Claro, até terça que vem. Maldita educação, que mamãe me deu. Corredor-cheque-não posso ver as fotos na parede-aperto de mão apertado-até logo. A primeira coisa que ele me ensinou a duvidar foi de tudo que eu tinha certeza demais, depois ajudou a tornar verdade todas as minhas mentiras e mentira todas as minhas verdades. Talvez, ele seja um psicopata, meu deus, como eu não pensei nisso antes? Talvez ele tenha matado a vaca que cobre este divã com as próprias mãos, e depois escovado seus pelos por noites a fio, cantarolando alguma música estranha, que só ele entende o refrão.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A vida é uma ficção. O que conta é o conto que se conta, o resto é bobagem. Alguém bate na porta da minha casa. Eu dou uma pausa no Dexter, é Mariana, a vizinha ao lado com um dedinho do pé quebrado, dividida entre dois amores. As minhas pausas para fumar, eu que não fumo, uso para contar a ela episódios da minha vida sexual; e ela, romântica, conta episódios em que quase fez sexo. Daí convivemos pacificamente nas construções diárias do que pensamos de nós mesmos, dos personagens que preferimos atuar, dos nossos próprios folhetins. E ela fuma, fuma. Já é quase noite. Você acha que essa roupa me engorda? Não, Mariana, essa roupa não.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1824324125723204187?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1824324125723204187/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1824324125723204187' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1824324125723204187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1824324125723204187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2009/01/brevirio-das-tardes-sujas.html' title='Breviário das tardes sujas'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SZmRpowWTRI/AAAAAAAAACA/JpCPoFPFbjE/s72-c/DSC_0400.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1984921389852335447</id><published>2008-12-15T20:15:00.005-02:00</published><updated>2008-12-22T12:33:50.219-02:00</updated><title type='text'>La Cubanita</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O mar batia forte na parede de pedra. Eu assistia intacto à menininha que rodopiava. Era um pouco de tudo, crioula, criança, cigana, puta. Veio chegando e disse que eu era bonito, sorriu e mostrou que não tinha todos os dentes na boca, mas cheirava a lavanda, como se acabasse de se banhar. E me mostrava a calcinha sempre que dava, perguntava se eu queria me casar com ela, se eu queria mostrar para ela o mundo do lado de lá, do lado de fora, mas a ilha é tão linda, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;pero una isla es una porción de tierra rodeada de água por todos los lados,&lt;/span&gt; e era tanta água, que a parede de pedra não agüentava e deixava derramar na calçada uma espuma escura de petróleo e sal, como se mesmo o mar quisesse invadir de novos sonhos aquele lugar. E a menina dançava, piscava os olhos e paquerava comigo, me dizia que tinha todo o futuro pela frente, e me prometeu de joelhos, que se eu a levasse dali, não me atrapalharia em nada, nem me amar me amaria, se eu preferisse, não sentiria gratidão, e quando chorasse, seria de saudade da ilha, porque mesmo velha e abandonada, a ilha era a sua casa, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;comprendes, chico&lt;/span&gt;? Yo comprendo. Ela contou como seria a tatuagem no seu braço, as cores da bandeira que faria no punho esquerdo, para mais tarde, quando fosse mulher, explicar seu desapego, porque também se abandona por amar demais. É louco isso, eu pensei, por gostar demais você vai embora, mas ela, tão danada, me contou que a ilha não passava de um plano: a ilha era um projeto em mil. Outras ilhas viveriam dentro dela, perto ou longe, trancada ou livre.  &lt;span style="font-style: italic;"&gt;No puedo casarme contigo, mi amor&lt;/span&gt;. Ela me olhou desapontada. Levantou mais uma vez a saia no último passo daquela dança, para que eu visse bem acima dos seus joelhos. Na triste incerteza das calçadas de Havana, la cubanita só pensava em negociar sua alforria. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1984921389852335447?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1984921389852335447/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1984921389852335447' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1984921389852335447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1984921389852335447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/12/la-cubanita.html' title='La Cubanita'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4221907225607579713</id><published>2008-10-06T16:44:00.002-03:00</published><updated>2010-11-03T14:53:05.897-02:00</updated><title type='text'>Você</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;  &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Na única manhã azul, de um mês quase todo cinza, o amor que eu não senti foi embora. E a profecia dissimulada nos arranha-céus de onde ninguém mais salta se calou. Os carros não atropelaram, os loucos não estrangularam ninguém. A contra-história do mundo se fez na paz de um dia inteiro sem guerra. O conto não se contou em todos os seus percalços, e o &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;que era estranho nem teve tempo de se acostumar. Foi o avesso de tudo, um silêncio feito da pura expectativa do som. Mas a voz não disse nada. O mar não se revoltou, nem trouxe segredos com ele. De longe, de perto, tão rápido, você não aconteceu. &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt; &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4221907225607579713?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4221907225607579713/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4221907225607579713' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4221907225607579713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4221907225607579713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/10/voc.html' title='Você'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7518105671034461648</id><published>2008-08-25T13:15:00.005-03:00</published><updated>2009-01-05T19:24:01.573-02:00</updated><title type='text'>Lá vai ele</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Para Manuel de La Serna&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;Lá vai ele, o menino de tantos adeuses. Já vai ele com fome de outro lugar. Não sabe porque vai, mas vive de ir embora. Então chora. Escondido. Porque a vida não pode ser triste. E antes de partir, amanhece. Eu, que fui só um dos seus tantos adeuses, queria saber o que fica, o que busca o menino perdido nesse esforço de nunca encontrar.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7518105671034461648?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7518105671034461648/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7518105671034461648' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7518105671034461648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7518105671034461648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/08/l-vai-ele.html' title='Lá vai ele'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-8211822217711170392</id><published>2008-08-06T14:36:00.001-03:00</published><updated>2008-10-08T14:42:13.436-03:00</updated><title type='text'>Dia feliz</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Clarice acordou feliz. Que estranho - pensou, justamente hoje, quando a tristeza tinha planejado um jantar para dois, eu acordei feliz e só. Levantou-se da cama cantando, dava para ouvir do outro lado da rua. Colocou batom vermelho, e na pele branca, parecia que era toda feita de boca. E cantava, e cantava. Escreveu um parágrafo no diário, fez caretas horríveis no espelho. Os vizinhos acotovelavam segredos. Que outra pessoa fosse feliz, tudo bem, mas Clarice?&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Ela abriu a janela do quarto, sentiu que o sol dourava o seu rosto, sorriu.  Às vezes, a felicidade é mesmo uma surpresa indecorosa. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-8211822217711170392?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/8211822217711170392/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=8211822217711170392' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8211822217711170392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8211822217711170392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/08/dia-feliz.html' title='Dia feliz'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-8901739167363847146</id><published>2008-07-16T12:32:00.005-03:00</published><updated>2008-07-16T17:28:28.468-03:00</updated><title type='text'>Lapso</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;span style=""&gt;     &lt;/span&gt;- Você é o pior tipo de puta – disse Maria entre um trago e outro, só interrompendo seu raciocínio para tirar um pedaço da erva que tinha ficado preso na língua:&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;  &lt;/span&gt;- Puta apaixonada é o pior tipo de puta. Não dá para conviver em paz&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;com essas duas coisas, ou você é puta, ou você é mulher apaixonada.&lt;br /&gt;  Engoliu a fumaça, ficou um tempo curtindo a vertigem:&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;  &lt;/span&gt;- Você quer? É da boa.&lt;br /&gt;  Então, passou o cigarro para Amanda, que em prantos, repensava a vida na parte de baixo do mesmo beliche.&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;  &lt;/span&gt;- Agora, tenha dignidade e apague o telefone deste homem do celular.&lt;br /&gt;Maria era dura, porque sabia que nessas horas não se pode amolecer nem um pouquinho. Outro dia, voltaria ao assunto com mais serenidade; hoje,  preferia não dar chance para lapsos daquela natureza:&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;  &lt;/span&gt;- Na Suíça as putas são sindicalizadas, sabia? Eu vi no Globo Repórter.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-8901739167363847146?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/8901739167363847146/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=8901739167363847146' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8901739167363847146'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8901739167363847146'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/07/lapso.html' title='Lapso'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7987312698168722735</id><published>2008-07-13T12:09:00.006-03:00</published><updated>2008-07-17T12:03:52.493-03:00</updated><title type='text'>Por enquanto</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;No começo, não se conta as horas em horas, nem os dias em dias. É tudo sensação. Uma vaga idéia do tempo que passa, porque é escuro e claro lá fora, porque às vezes se trabalha e outras vezes não, porque os amigos fazem anos, os feriados acontecem, mas não existe lógica, nem total apreensão das coisas. Se eu choro, o meu choro é devaneio abstrato. A saudade é tão primeira e irracional, que ainda sinto o seu cheiro na saudade. Você há pouco estava aqui. &lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Depois, as formas vão de novo desenhando as coisas. Devagar, eu reconheço o meu quarto. Sei que está vazio. Já sou capaz de discernir algumas vozes, ler o jornal, tomar o café, responder a pequenas questões sobre a vida. Eu tenho noção do que acabou, do que esteve e já não está. A saudade é segunda – compreendida e qualificada. De repente, me deixou triste saber que não fizemos fotos, mas eu já solto risadas para surpreender o silêncio. &lt;i style=""&gt;Na primeira semana, o silêncio é de ensurdecer a alma&lt;/i&gt;, me diz o horóscopo.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;O horóscopo se apropria de fragilidades. Diz que o inferno começou no instante em que o Sol flertou com Câncer. Repara como não temos culpa de nada: somos fantoches dos astros. Como um louco, eu te pergunto as coisas, e você responde. A sua imagem é relutante como a de um holograma, e já passa pela minha cabeça a idéia, que ainda nego ferozmente, que talvez eu esteja completamente só.&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;Então, deixa passar a solidão por Câncer, deixa assentar a poeira das estrelas, dos humores, cessar de vez a rebordosa astral. Eu ando calado, como um bichinho cooptado pelos hábitos domésticos, falando pouco, de poucos amigos. Veja você que ironia, eu ando falando quase nada. E ainda me deito e levanto abstinente, como se faltasse uma última dose na veia. Era químico o meu amor, eu acho. &lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;E acho em versos toscos, não me arrisco em estrofes articuladas (não nasci para a poesia). Meus pesadelos são como aqueles que devem ter os adictos, cheios de refluxos e personagens falhos. E você vive livre neles, transita desimpedido entre maus e bons sonhos, enquanto eu te adoro, te odeio, te justifico, te invento e te mato. Agora é deixar que a Lua se entenda com Escorpião. E alguém virá recolher as garrafas vazias, limpar as cortinas do cheiro do cigarro, dizer: &lt;i style=""&gt;amanheceu, rapaz; outra festa só amanhã&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Quando o sol passar por Leão, eu serei feliz de novo. Por enquanto, ainda te amo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7987312698168722735?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7987312698168722735/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7987312698168722735' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7987312698168722735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7987312698168722735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/07/por-enquanto.html' title='Por enquanto'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-4244229736901870907</id><published>2008-07-08T13:25:00.011-03:00</published><updated>2010-11-04T01:25:14.799-02:00</updated><title type='text'>Plácido</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Plácido gostava de escrever cartas. Várias, longas, memoráveis. Falava de amor e das coisas difíceis. Depois, as abandonava sob as portas das casas, órfãs, na esperança inconfessável de ser revelado. Foi assim por muito tempo: as cartas anônimas e as almas despertas da madrugada. Até o dia, acho que em julho, que Plácido estancou completamente. Já não encontrava mais palavras nas suas idéias. E por várias noites, seus amantes cativos se sentiram profundamente solitários. Plácido vivia um vazio tão grande que não podia dividi-lo.  Acho que se o fizesse, devastaria o mundo inteiro com tanto silêncio. Concluiu, sábio, que para voltar a escrever  não lhe faltavam idéias, mas  angústias. Resolveu angustiar-se. Pela primeira vez em semanas, escreveu longamente.&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-4244229736901870907?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/4244229736901870907/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=4244229736901870907' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4244229736901870907'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/4244229736901870907'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/07/plcido.html' title='Plácido'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-484057231812634841</id><published>2008-07-01T19:35:00.005-03:00</published><updated>2010-11-04T01:25:50.447-02:00</updated><title type='text'>Quando morre</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;O amor nunca recorre,&lt;br /&gt;depois que a mentira afana,&lt;br /&gt;reluta, agoniza, engana&lt;br /&gt;mas dá para ver nos olhos, quando morre.  &lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-484057231812634841?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/484057231812634841/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=484057231812634841' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/484057231812634841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/484057231812634841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/07/quando-morre.html' title='Quando morre'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7600046472505784539</id><published>2008-04-01T20:30:00.015-03:00</published><updated>2010-02-26T16:27:43.075-03:00</updated><title type='text'>Da Natureza imóvel</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Eu vou logo dizendo, que Mariana vai esperar por longas horas na mesa daquele bar, e que ele nunca vai aparecer. E amanhã, alterada e enlouquecida de raiva, ela vai tatuar no ombro direito uma serpente enrolada mordendo o próprio rabo. Quando lhe perguntarem sobre as razões da serpente, Mariana vai dizer que “Ouroboros” são símbolos milenares da eternidade, como o ciclo de sua existência que se repete. E vai, por certo, chorar,&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;enfraquecida por variações hormonais, defendendo a estranha tese de que o melhor erro é o que se comete repetidas vezes na vida, porque daí não é mais um erro, apenas a expressão involuntária de si mesmo.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Hoje, Mariana espera. Repara inquieta no hábito das outras pessoas. Passa por sua cabeça idéias do tipo: “talvez eu não esteja aqui, talvez esta casa amarela, esse cheiro azedo de cerveja no chão, o vermelho volúpia do meu esmalte simplesmente não existam, porque hoje é o dia que não aconteceu”. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Do outro lado da rua, trancado num quarto de hotel, Joaquim testa a perigosa possibilidade de uma corda. Será especificamente hoje, o dia em que pela primeira vez fracassará. Quando aos oitenta anos, escrever o famoso livro de suas memórias, usará metáforas cósmicas para descrever &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;suas experiências de quase-morte, dirá que eram como um buraco negro, de um escuro tão profundo, que engoliam tudo, incluso a luz. Agora, ele ata o nó. Não supõe que a eternidade virá em páginas senis, nos anos em que o passado se tornar a elegante mistura das coisas que realmente aconteceram com as coisas que muito se desejou viver. Por enquanto, seu domingo insiste num parêntese absurdo, apertado entre a euforia alcoólica de ontem à noite e os carros parados nas filas de amanhã. E por mais aceitável que parecesse, que do sábado, a vida tivesse saltado para uma segunda-feira agitada, Joaquim precisa mesmo se enforcar. Ele sobe num banquinho de madeira, coloca cuidadosamente a corda em volta do pescoço e salta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Alice não escuta nada. Trancada no apartamento de baixo, tenta entender o que acaba de acontecer: está molhada entre as pernas de um líquido espesso, que escorreu sem que ela desse conta para se derramar no chão do quarto. Ela tem a estranha impressão que viveu este instante muitas vezes antes, desde o tempo das suas bonecas, ou antes delas, muito antes de Alice, como se desde sempre, as coisas todas conspirassem para agora. Quando pequena, ela desejou viver para sempre, mas como duvidava do céu e das alternativas trágicas, imaginou que o melhor fosse ter uma filha e chamá-la de Alice, assim, prolongaria a sua existência, e se Alice fosse justa e gerasse uma outra Alice, a eternidade existiria tímida, mas em algum lugar. Talvez por isso, doa agora toda a dor do mundo. Ela sabe o que vai nascer dela mesma. E da sucessão dos seus velhos erros, dará à luz.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;“Fuck you, Babe”, escreveu Mariana em um guardanapo, “you don´t deserve my love”, rabiscou no resto do papel. A última vez que a abandonaram assim foi numa boite moderninha da Barra Funda, a próxima  será num apartamento decorado da Vila Madalena – ela sozinha com a mesa posta, ele comprando um maço de cigarros há alguns meses.&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;Joaquim levantou-se cambaleante do chão. Odeia essas construções frágeis e suas complicações gravitacionais.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Tentará navalha afiada em banheira de louça branca em uma outra oportunidade, e quando fracassar, arriscará uma overdose de heroína pela referência estética aos astros do Rock. E em Alice já não dói, porque Alice nasceu com três quilos, trezentos gramas e nenhuma ajuda. Não se sabe se puta ou santa, mas nasceu em todas as suas possibilidades. Deverá um dia, e desde já, parir Alice e  herdar de Alice todos os seus bens.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7600046472505784539?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7600046472505784539/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7600046472505784539' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7600046472505784539'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7600046472505784539'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/04/eu-vou-logo-dizendo-que-mariana-vai.html' title='Da Natureza imóvel'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-5576568403224920468</id><published>2008-02-14T13:16:00.006-02:00</published><updated>2010-08-30T16:09:11.998-03:00</updated><title type='text'>Eu te prometo o meu carnaval</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Esther se entendeu no reflexo que fazia o vidro da janela. O mau tempo facilitava que as coisas se mantivessem dentro de casa. Naquela hora seria insuportável se escolhesse outra música, repetiu o samba, disse que o vinho, que tinha comprado na Toscana, havia guardado para ocasião especial. E seguiu num discurso sóbrio, maquiando de azul Ipanema lá fora, fingindo não ver que chovia sobre os blocos de carnaval.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;- Eu já cansei de entender. E eu sei que definitivamente não existe mais nada que eu possa fazer ou falar, enfim. Essa é das poucas coisas que não se convence ninguém. E é, afinal, sempre mais vulgar quem agoniza antes de morrer. Prefiro morte civilizada. Eu não quebrei nenhum prato, você há de concordar. Eu não tenho raiva de você, sei que para essas coisas não existe culpa. Nós não vamos nos confundir agora com as amarguras dos pobres mortais. Seremos altivos, racionais.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;E porque era civilizada, falava baixo; porque não compartilhava das amarguras dos pobres mortais, não se desesperava. Esther comparou a relação a um livro bom que se acaba, citou estudos de Ortega y Gasset, concordou que haviam tentado de tudo, que generosamente haviam se arriscado em muitas possibilidades, mas que era certo que já não existia nada entre eles, e que enfim não poderiam viver mais juntos.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Gabriel ouvia tudo sentado em sua velha poltrona, ou nem sei se ouvia, simplesmente olhava para aquela mulher de costas, as gotas escorrendo no vidro à sua frente, um céu devastado em tons de cinza que não penetravam o quarto, porque o quarto estava blindado com uma paz exausta das últimas semanas, dava quase para ouvir as paredes ofegantes. Esther nem se incomodava em perceber Gabriel,&lt;span style="font-size:0;"&gt; &lt;/span&gt;continuava intacta, como num transe.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;-&lt;span style="font-size:0;"&gt; &lt;/span&gt;Não se preocupe comigo, Gabriel, eu vou levar o mínimo, alguns retratos, as minhas coisinhas. Você me conhece bem, não será um escândalo a minha mis en scene. &lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Depois eu volto para buscar o que for importante. Eu respeito a sua escolha. Eu não te contei, mas eu fiz questão de conhecê-la, me pareceu uma mulher bem resolvida. Eu a vi descendo de seu carro no Leblon, carregava uns livros no braço, se eu não me engano lia Borges, era elegante, sem grandes cacoetes de mulher solteira. &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Gabriel baixou o braço e deixou a taça de vinho no chão, mas o fez sem barulho, sem atrapalhar o caminho sem pedras por onde passeava Esther. E ela não se traiu, não caiu na armadilha fácil da nostalgia. De onde reparava Gabriel, ela era a deusa irrepreensível da polidez, a consciência absoluta do ritmo e da natureza das coisas, a anti-Hera. Seu vestido azul quase tocava o chão, seu cabelo longo cobria suas costas magras, a mão direita delicadamente segurava uma taça de vinho bom.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;- Eu não me arrependo de nós, Gabriel. Foi Camus quem disse que “não existe amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular”? Pois é lindo isso, passageiro e singular como tudo que vale a pena. Se eu pudesse desfazer qualquer das coisas que fiz, talvez a única, ou quem sabe nem esta, teria sido dez minutos atrás ter envenenado a sua taça de vinho. Eu ainda acho que você deveria descer uma última vez e curtir esse carnaval. Eu vou. Eu te prometo o meu carnaval.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-5576568403224920468?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/5576568403224920468/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=5576568403224920468' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/5576568403224920468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/5576568403224920468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2008/02/eu-te-prometo-o-meu-carnaval.html' title='Eu te prometo o meu carnaval'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-6920329469959977640</id><published>2007-11-26T20:15:00.001-02:00</published><updated>2010-03-25T18:14:59.626-03:00</updated><title type='text'>Entremundos</title><content type='html'>&lt;div align="left" style="text-align: justify;"&gt;Eu preciso escrever, me lembro de quando era fácil. Já não posso. Não estou triste o bastante (só a tristeza tem um sorriso que não se esconde). Agora tudo é mudo e calmo. É um tempo de absoluto cotidiano, eu acordo e trabalho e volto para casa, as coisas recolhidas na paisagem, as coisas dentro delas mesmas, profundamente elas mesmas e eu. Cada parte dormindo, cada pedaço formigando a vida sentada encima. Eu espero. Os poetas ainda não nasceram. Da espera cria-se um espaço lógico impossível - um lugar que não se localiza, embora eu esteja tão somente nele, um lugar que não compreende territórios nem é compreendido por coisa alguma. Eu vivo entre mundos, na possibilidade invisível entre dois átomos, onde nada significa ao certo, ao todo, ainda. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Faz tanto tempo que eu não escrevo.Por enquanto, a vida é isso, páginas brancas da cor do céu.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-6920329469959977640?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/6920329469959977640/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=6920329469959977640' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6920329469959977640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6920329469959977640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/11/entremundos.html' title='Entremundos'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-81194152944991734</id><published>2007-07-18T23:23:00.000-03:00</published><updated>2007-07-25T01:41:04.818-03:00</updated><title type='text'>Metonímia</title><content type='html'>Passou rápido. Existiu em tão breve instante, que sem grande esforço não teria mais lugar. Mas veja como a vida é irônica: o sopro fez lembrar o furacão. No quarto de uma noite só, eu arrumo a bagunça de uma vida inteira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-81194152944991734?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/81194152944991734/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=81194152944991734' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/81194152944991734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/81194152944991734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/07/parte-e-todo.html' title='Metonímia'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7406488245856780103</id><published>2007-07-09T17:32:00.000-03:00</published><updated>2007-07-16T19:30:52.286-03:00</updated><title type='text'>A Queer Story</title><content type='html'>Para Dominic Wetzel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pergunto: &lt;em&gt;are you?,&lt;/em&gt; ele responde: &lt;em&gt;not exactly&lt;/em&gt;, mas depois fica meio calado, kind of blue. No bar toca uma música triste, dessas inglesinhas que fazem a gente chorar. Eu quero saber mais sobre ele, mas ele não quer falar sobre o assunto. Poor guy, penso comigo, mas fala para mim: &lt;em&gt;what did you mean when you said “not exactly”?&lt;/em&gt; – sou curioso, as pessoas passam espremidas entre a parede e o balcão (isso é basicamente um corredor sujo, chamar de “bar” foi com a melhor das intenções). &lt;em&gt;I am queer&lt;/em&gt;, ele diz de repente e o mundo inteiro pára. Impossível não voltar milhões de vezes à mesma cena para assistir de novo: ele virando a cabeça de saco cheio, pausa dramática, voz grave, sotaque de Nova York, &lt;em&gt;I am queer, and that is not exactly so many things...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eu uso uma camiseta marrom, presente de aniversário de três anos atrás. A camiseta tem a foto do James Dean segurando um cavalo, com uma tarja preta nos olhos e chapéu de cowboy. “The lonely hunter” está escrito em vermelho. &lt;em&gt;Are you the lonely hunter?-&lt;/em&gt; ele pergunta e dá um gole no vinho barato em copo americano, eu reconheço a breve oportunidade: T&lt;em&gt;ell me, boy, do you wanna go for a ride? Do you wanna see where this road really ends?&lt;/em&gt; Ele sorri um sorriso de meia boca, diz que sim com a cabeça, e daí por diante, gestos e palavras. Nem seria preciso tantos detalhes dramáticos, porque neste momento, o mundo foi superado em séculos, não há entre nós ruínas, ninguém conta a velha história dos derrotados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não quero perder de vista este lugar. Não quero descartar qualquer hipótese de amor, químico, físico, geográfico, em progressão geométrica. Neste canto do mundo, as pessoas escorregam feito sabonete. Nada é muito íntimo - só alguns segredos no calabouço. Essa gente estranha me olha cheia de piedade (estranha no sentido bom da estranheza), e eu já não me assusto com eles, muito pelo contrário, eu me apaixono nem duas horas depois, subo no telhado com qualquer um, e eu quero ser tão louco e tão prático e tão claro. Fechem os portões! Daqui ninguém sai. Viveremos para sempre trancados, escreveremos nossos próprios livros, picharemos nossos próprios muros, enrolaremos nossos próprios cigarros. Não teremos nem polícia, nem governo, nem semana que vem. O crime será revisto, revisitado. Estou pessoalmente proibido de amanhecer sóbrio numa segunda-feira para negar todos os sábados de festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele prende o cigarro entre os dentes, pergunta: &lt;em&gt;do you smoke,boy?,&lt;/em&gt; eu digo: &lt;em&gt;not anymore&lt;/em&gt;, mas nunca aprendi a fumar. Ele acende o fósforo em uma telha, e eu tenho a impressão de que somos mesmo pessoas estranhas - impressão que não se confessa, mas que, do alto do telhado, se acredita e se faz caras de que o mundo é tacanho demais para gente como nós. &lt;em&gt;You know, boy, a word can make you a prisoner &lt;/em&gt;- ele diz e consegue ser ainda maior que todos os bandidos e todos os cowboys- &lt;em&gt;you believe a name is what you need , but all you need is a territory.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eu vejo as fronteiras cada vez mais tênues, a noite desandando em dia, a natureza como uma invenção. Eu vejo diluírem fêmeas e machos, músculos e fragilidades, e o território que me interessa é a simples lembrança deste lugar. &lt;em&gt;Man, you might think I am drunk, but I love you already&lt;/em&gt; - digo com toda sinceridade do mundo. Ele acha engraçado, sorri, toma um pouco de ar. De novo uma daquelas cenas para repetir milhões vezes (sua voz é só ouvindo para saber): &lt;em&gt;Boy, so queer is what you are.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7406488245856780103?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7406488245856780103/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7406488245856780103' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7406488245856780103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7406488245856780103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/07/queer-story.html' title='A Queer Story'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-2842705769720252296</id><published>2007-06-23T22:58:00.000-03:00</published><updated>2007-06-24T17:58:47.022-03:00</updated><title type='text'>De graça</title><content type='html'>Cinco metros quadrados, cortinas verdes para esconder que a vista é quase feia. Este quarto de hotel é a minha nova casa. Chamo de casa, porque é para cá que eu volto toda noite, depois de me meter com todo tipo de gente. Eu não sou muito higiênico na escolha das pessoas. Quando falo de imundices, são todas baseadas em fatos reais. É que ninguém acredita quando eu digo, vão logo pensando que é minha imaginação, mas não, eu juro. Outro dia, eu quis vender minha alma, me disseram que era tão barata que não valia o aluguel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-2842705769720252296?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/2842705769720252296/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=2842705769720252296' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2842705769720252296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2842705769720252296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/06/de-graa.html' title='De graça'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7431026973824988634</id><published>2007-06-03T00:35:00.001-03:00</published><updated>2010-10-05T15:38:02.284-03:00</updated><title type='text'>À margem do outro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Falávamos de tudo, mas preferíamos as bobagens. De amigos, tínhamos um ritual: sentava um à margem do outro, como se cada dia, um fosse o rio, e o humor fosse uma lua nova. E aquele que tivesse os pés molhados, ouviria as estórias do amigo, ali sentado na beirada, de cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça deitada sobre as mãos. O outro era, então, paisagem (um bocado de verdade, um bocado de mentira), mas por onde tivesse passado, o que quer que tivesse trazido, era bom de assistir, como a tarde inteira se pondo entre bitucas de cigarro e garrafas de Malbec.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os melhores dias não tinham futuro nem glória. Porque éramos meio devassos, pelo menos era assim que queríamos ser, jovens devassos, debruçados para morrer de rir, suportando diferenças quase irremediáveis, não fôssemos tão dispostos um ao outro, exploradores das beiradas do mundo. Tudo que não precisaria ser era melhor se fosse. E os homens de ternos e atrasos, quando passavam nas calçadas de São Paulo, pareciam ainda mais tristes se vistos por nós. Do alto de nossa arrogância desgarrada, pensávamos: “nunca seremos assim, tão patéticos”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas a cidade nos corrompia sem pressa. Ela era paciente. Às nossas margens, iam chegando restos imundos, frases ao pé do ouvido, notas de cem. Tudo pouco a pouco. Um dia, eu acordo, me olho no espelho e penso: “quase tudo está aqui”, e acredito piamente que, enfim, me tornei alguém; que finalmente, eu sou (eis o grande erro).O tempo ia ganhando uma noção sólida, como se fosse possível perdê-lo, como se tempo também fosse uma dessas coisas que se acha e se ganha. E daí, quase sem perceber, as línguas já esbarravam em superlativos imensos, os sentimentos ficavam prolixos demais. As coisas se sobrepunham, se emaranhavam, o mundo acontecia numa sessão &lt;em&gt;privé&lt;/em&gt;: ele só dançava para nós, se despia para nós, enfiava seus dedos em mil buracos. Dizia: “você é”, e eu ecoava baixinho: “eu sou”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sei se tivemos total consciência do processo. Por certo, não a mesma sorte das borboletas. Num instante, e nossos rios já se derramavam em cataratas violentas, podíamos tudo, e poder era como injetar heroína na veia. Nada mais era tão simples, de um simples que envergonhasse aquelas noites de gala – simples, e nos desse vontade de sonhar coisinhas pequenas, tardinhas de chuva, sessões de cinema em casa. Éramos grandes e acreditávamos firmemente que nossas opiniões tinham valor inestimável ao mundo. Na paisagem devastada, o que restavam eram fragmentos do que havíamos sido um dia, mas àquele outro avesso, àquelas velhas margens, onde se suportava o absurdo e ainda assim era possível amá-lo sem medo, não costumávamos voltar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De amigos, nossos rituais eram novos, nada de se perder pelo mundo ou inventar a vida nos rosto de um estranho. Em nossas demonstrações públicas de saudade, escondíamos a eterna preguiça que sentíamos de nós mesmos. Ouvi-lo falar por horas era entediante - a sua voz era a minha voz. Eu reconhecia nele a monotonia dos meus próprios dilemas. E assim, e cada vez mais, evitávamos encontros, adiávamos jantares; quando era mesmo imprescindível, ensaiávamos antes em casa, na solidão gelada dos nossos apartamentos, toda felicidade possível. Era como maquiar de vida uma natureza morta. Até que de repente, e sem grande esforço, já não nos víamos tanto. E era bem melhor assim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não consigo, hoje, olhar para trás e apontar o dia exato, a hora em que começamos a mudar. Primeiro nublou o céu, os olhos nublaram depois, tudo num processo lento. Quando me fazia falta o poder, eu mordia os lábios, virava os olhos, aplicava uma mentira na veia - o torniquete apertando o meu braço, espelhos por todo lado. Para me acalmar, eu abria as cortinas e tentava respirar, além do mofo, a manhã. Mas lá fora não havia nada além de antenas e um futuro cheio de planos. Fracassar era um novo escrúpulo, desses que não existiam antes, mas que agora atormentava o meu sono noite após noite. Com o dedo no copo de uísque, eu dizia&lt;em&gt; calma, homem, por que você tem medo? Você pode tudo. Lá embaixo, as pessoas são pequenininhas. As pessoas são como formigas. Elas andam em bandos, porque são fracas. Elas lhe obedecem e elas lhe desejam em cada fatia, como um pedaço de doce.&lt;/em&gt; E mesmo assim, vez ou outra, no meio do dia, sem qualquer explicação, eu chorava feito criança...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7431026973824988634?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7431026973824988634/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7431026973824988634' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7431026973824988634'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7431026973824988634'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/06/margem-do-outro.html' title='À margem do outro'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1752730092694180887</id><published>2007-05-13T19:52:00.000-03:00</published><updated>2007-06-03T11:17:06.970-03:00</updated><title type='text'>Nenhuma palavra</title><content type='html'>A palavra matou. Foi ela a assassina cruel que empacotou os cadáveres e os desovou em covas repentinas. Quando tudo ainda não era, a palavra apressada, filósofa inconveniente das coisas caladas, sepultou o nada, complicou o óbvio, atingiu flecha certeira na eternidade. E depois, para remediar o dito, para emudecer o verbo todo esforço é ingrato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1752730092694180887?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1752730092694180887/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1752730092694180887' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1752730092694180887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1752730092694180887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/05/palavra-matou.html' title='Nenhuma palavra'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7052938760372824852</id><published>2007-05-02T02:25:00.000-03:00</published><updated>2007-05-03T12:51:25.182-03:00</updated><title type='text'>Assobio</title><content type='html'>Aqui é madrugada. Eu escuto a mesma música há horas. Já é um sussurro, que sai pela janela e passeia, em sono, por cada cidade em que eu estive. Tantas cidades. Sou música e visito os lugares onde dormem todos os meus amigos. Observo a calma em que eles dormem, na minha saudade, eu não desafino. Quero que durmam em paz. Eu gosto de cuidar do sono dos meus. Nem preciso dizer para que eles saibam. Eles sabem. Faz tempo que eu vivo de ir embora. Mas volto, num sopro, eu volto. Num assobio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7052938760372824852?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7052938760372824852/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7052938760372824852' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7052938760372824852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7052938760372824852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/05/assobio.html' title='Assobio'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-870389321232079349</id><published>2007-04-29T22:08:00.000-03:00</published><updated>2007-04-29T22:24:43.758-03:00</updated><title type='text'>Da natureza inevitável II</title><content type='html'>Naquela manhã, ela me ligou. Eu estava regando algumas plantas na janela (o “eu” mesmo que te escreve não tem plantas nem gosta delas, mas o “eu” que te fala estava regando algumas plantinhas na janela de um apartamento em Ipanema). Ela disse: “Alô, e aí? Quanto tempo, né? Não, meu amor, não vai dar. Não sei se te falei, mas estou namorando. Nosso café fica para outro dia. Nem amanhã eu posso, porque ele e eu vamos para uma pousadinha em Parati passar o fim de semana”. Desligamos o telefone. As plantinhas cresciam robustas, eu passava o dedo em suas folhas, e elas eram delicadas e frágeis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana seguinte, eu voltava do supermercado e parei para tomar uma água de coco na praia, tocou o meu celular. Era ela: “oi querido, que saudade. Não, amor, eu não posso. Sabe, eu ando tão feliz, ando fazendo tanto sexo, eu quero ter uns três filhos com ele. Um dia você vai conhecê-lo. Ele é o máximo, jornalista, pegada de homem. Fica para a próxima. Você me entende, né? Sem ressentimentos.” A maresia deixava o calçadão esfumaçado, um cheirinho de peixe e mar. Eu via a minha janela lá no alto do prédio, e das plantinhas já brotavam pequenas flores amarelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mês se passou. Ela me deixa um recado no celular, pede que eu retorne a ligação. “Que bom que você me retornou. Nossa, estou tão cansada. Ontem fomos numa festinha dos amigos dele. Foi a primeira vez que ele me apresentou como namorada para os amigos. Estamos praticamente morando juntos. Ele fala que me ama todo dia. E eu sei que é verdade, sabe? A gente sabe quando o cara fala sério, dá para saber. Ai, desculpa, querido, mas eu vou ter que te deixar agora. Ele está me gritando lá da cozinha. Fez um risoto, eu preparei os mojitos. Quando a gente se vê? Vamos ao teatro semana que vem? Sábado? Fechado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sábado, ela não me liga. Daí, eu mesmo ligo para saber do teatro. “Oi, querido, estou aqui com o meu amor. Não vou poder ir ao teatro hoje. Ontem fizemos sexo dentro do banheiro do restaurante, eu te contei? Fazia tempo que eu não fazia isso. Voltei para a mesa sem a calcinha. Coloquei na bolsa. Na mesa estavam os amigos do trabalho dele. Ele é o máximo. É simplesmente o cara mais espetacular do mundo. Nem é uma questão de beleza, nem nada. É de cheiro, sei lá. Eu gozo só com o sotaque dele. Eu estou muito feliz”. As flores amarelas eram pequenos sóis. Brilhavam como constelações na minha janela. Eu as regava, porque queria que elas crescessem e se destacassem para se fixarem finalmente no universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto foi feliz, eu nunca mais a encontrei. Às vezes, ela me mandava mensagens engraçadinhas pelo celular: &lt;em&gt;Saudade, ass: a mulher mais feliz do mundo&lt;/em&gt;. E eu já não sabia se deveria falar; se eu, como amigo, deveria lhe perguntar o óbvio, mas os dias são tão atarefados, e a gente tem tanta coisa para fazer, trabalhar, regar plantas, tomar água de coco. Depois de sei lá quanto tempo, ela me liga: “ Alô? Olha só, você sabe de algum filme bom que esteja em cartaz? Porque hoje eu vou ao cinema com o meu amor. Não sabe não? Você não sabe de nada. Beijos, tchau”, mas antes que ela desligasse, eu tive coragem para lhe perguntar: “o que te faz tão triste?”, e ela se assustou com a pergunta, porque eu, mais do que ninguém, deveria saber que ela era muito (muito!) feliz. Ela ficou insultada: “como assim? Você é um ridículo”. E, então, eu disse que era um engano meu, que ela esquecesse aquilo e que curtisse o cinema de domingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi bem rápido que ela me ligou de volta. Ela chorava e dizia que não se reconhecia mais, que andava deprimida e insegura. Ela tinha a voz trêmula, eu precisava dizer as coisas certas. E por mais de meia hora, eu tentei dizer, mas eu sabia do que se tratava, sabia que eu pouco poderia ajudar. Ela desligou. Deve ter chorado no quarto um pouco antes de dormir. No dia seguinte, quando encontrou o homem da sua vida, ela foi feliz de novo. E olhou para as outras mulheres que passavam e pensou: &lt;em&gt;eu sou mais feliz do que vocês, eu não preciso de mais nada na vida&lt;/em&gt;. Da natureza inevitável pouco se pode mudar. As flores caladas em minha janela eram mais flores e mais bonitas, porque não me diziam que eram flores. Se, por acaso, me dissessem como eram flores, eu também duvidaria das suas intenções. Pensei que seria este o meu melhor presente, fui até a janela e escolhi o vaso mais bonito, depois pedi que o entregassem na porta de sua casa no outro dia pela manhã.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-870389321232079349?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/870389321232079349/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=870389321232079349' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/870389321232079349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/870389321232079349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/04/da-natureza-inevitvel-ii.html' title='Da natureza inevitável II'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1952855196531013971</id><published>2007-04-19T16:50:00.000-03:00</published><updated>2007-04-26T19:30:26.564-03:00</updated><title type='text'>Pensaram os outros</title><content type='html'>Certa vez, houve um menino, que queria mudar o mundo. No seu aniversário de nove anos, lhe perguntaram o que queria fazer quando crescesse, e ele respondeu: “&lt;em&gt;guerra&lt;/em&gt;”. Não sabe o que diz, pensaram os outros. Com treze anos, ele tatuou no pescoço uma frase do Tennessee Williams. Era só um adolescente. Com quinze, difamou Nossa Senhora em pleno sermão da escola - perguntou alto: como pôde parir uma virgem? Mas lhe calaram a boca com merecidos safanões. Aos dezesseis, engravidou uma menina da vizinhança, e fez ele mesmo o aborto com coca-cola e citotec. Uma tragédia. Aos vinte e dois, se amigou com um companheiro da faculdade, adotou uma criança mulata e foi morar nos Jardins.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1952855196531013971?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1952855196531013971/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1952855196531013971' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1952855196531013971'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1952855196531013971'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/04/pensaram-os-outros.html' title='Pensaram os outros'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-2641053411055465197</id><published>2007-04-17T13:20:00.000-03:00</published><updated>2007-06-08T19:34:53.553-03:00</updated><title type='text'>Da natureza inevitável I</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/RiT1XWYyZ4I/AAAAAAAAAAc/fbKXbp86JxM/s1600-h/para+Lucy.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5054434463311882114" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/RiT1XWYyZ4I/AAAAAAAAAAc/fbKXbp86JxM/s320/para+Lucy.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O mundo é o cenário, a cena é a que está agora. Na fronte se desenha uma luz, que ilumina lágrimas e risos. Minha vida é um filme, às vezes vulgar, às vezes do mais delicado bom gosto. Quando estou feliz, me desperta a infantil arrogância de mostrar os dentes. Eu vejo os outros, e os outros me parecem estagnados numa valsa triste, dois para lá e dois para cá. Mas o filme muda, a música muda o humor das coisas, de repente, a tarde é toda melancolia. Quero estar só, eu e o mar - deixar o mar reviver o que só se viveu dentro dos homens. Ainda não se entende para quê vim. Não se sabe se sou bom ou mau. Existe uma corda bamba: hoje, dou a mão para alguém no precipício; amanhã, arqueio a sobrancelha e fumo como os anti-heróis. Se eu pudesse revisar essa história para amenizar o ódio que sentem dos vilões, eu dormiria mais tranqüilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendo um cigarro, tenho cuidado para não queimar a aba do meu chapéu. As mulheres são lindas, meio santas, meio putas. As cidades têm prédios com fachadas elegantes e fundos falsos, como as pessoas que vivem neles. Os carros reluzem mais que os cabelos. Quando penso, toca jazz; quando mato, escorre sangue pelas paredes, pelas manchetes dos jornais. O mundo inteiro esconde segredos muito além dos letreiros de néon, mas é a mim que eles buscam agora, é a mim que querem culpar da natureza inevitável de todos os outros segredos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Desta noite, eu não passo. Já reconheço seus homens disfarçados pelas mesas do bar. Eu peço um scotch duplo sem gelo. A cantora sobe no piano. Eu me lembro de quando a amava em silêncio. Ela canta Summertime e olha para mim. Eu lhe agradeço com um sorriso de meia boca. Daí, me levanto um pouco bêbado. São poucos os minutos que me restam. Viro inteiro o meu scotch. Digo: &lt;em&gt;Jimmy, fica com o troco&lt;/em&gt;. Ando cambaleante até a porta, saio do bar. Faz tanto frio aqui fora, que sobe um vapor dos esgotos, das bocas sujas, das almas insones. Alguém grita atrás de mim: &lt;em&gt;Ei, você.&lt;/em&gt; E eu sei o que vai acontecer, é claro que eu sei, mas não é isso que me interessa agora. Um filme nunca é o que se conta, mas como se conta a história. Eu trago fundo. Meu último minuto é numa tela de cinema, nada poderia ser tão apropriado. Ele pergunta: &lt;em&gt;Você acha, que depois de ter feito o que fez, sairia do bar e voltaria para casa?&lt;/em&gt; Eu lhe respondo: E&lt;em&gt;spero que não&lt;/em&gt;. Ele me aponta uma arma. Sei que é uma arma, porque o cano estremece a minha nuca, como um beijo gelado. &lt;em&gt;Você não vale nada&lt;/em&gt;, ele diz. Olho para a minha frente, e além da câmera, eu vejo poucas possibilidades. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-2641053411055465197?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/2641053411055465197/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=2641053411055465197' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2641053411055465197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/2641053411055465197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/04/da-natureza-inevitvel_17.html' title='Da natureza inevitável I'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/RiT1XWYyZ4I/AAAAAAAAAAc/fbKXbp86JxM/s72-c/para+Lucy.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-6859089748988168152</id><published>2007-04-02T17:13:00.001-03:00</published><updated>2010-11-04T01:29:31.381-02:00</updated><title type='text'>O aforista</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não é difícil entender. Por se estar sempre só, a solidão é a certeza de cada companhia. É por isso que cedo ou tarde, o amor sofre e sangra; o amor, que é o desespero da alma, quer leite do seio desgarrado na infância. E em vida nada será completo, nunca será. Eis o charme da noite: a morte é plena. Viveremos, então, fadados ao desassossego, acreditando que os novos amantes nos farão finalmente felizes, mas tem sempre o dia, quando a tarde cai, e estamos sós e incompletos no vício de nossos erros. A natureza encontra beleza só no que se esvai, e repete a mesma lição desde que é natureza, como se fôssemos tolos (e tolos somos demais); choramos o susto dos amores perdidos como se não soubéssemos de nada. O nosso rosto, no fim da vida, será a coleção de todos os sustos, um sobreposto ao outro. Não entendemos o crepúsculo além de suas cores bonitas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seria tão insuportável um dia sem fim. A eternidade é a anti-beleza das coisas, é um lugar sem angústia e sem artistas. Onde tudo é pleno, não existe vontade, ou intenção, ou movimento. É um nada tão absoluto, tão silencioso, que precisaria se estar morto para decifrá-lo. O céu é o nada. E do acaso de nos encontrarmos e acreditarmos que, enfim, estamos juntos; da delicadeza do acaso de tudo existir sem razão e sem destino, que nascem as melhores histórias. Não viemos de lugar algum e não teríamos que estar aqui por algum motivo, mas por acaso, eu te vi e você me viu, e poderíamos ter visto outros, mas nos encontramos. O bom encontro é descobrir outra solidão na esquina. Fazer da solidão, um plano de fuga e criação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Preferimos os maus encontros, fingimos sempre, guardamos os mesmos segredos, compartilhamos dos mesmos enganos. E nos debatemos sobre nós mesmos, nos dilaceramos, somos cúmplices e inimigos. Ah, como desejamos um pai, que nos julgasse e nos punisse, e depois nos colocasse no colo e afagasse o nosso medo. Pesa sobre nós o imenso esforço da perfeição. E será inútil todo esforço, porque somos feitos de curvas, e becos, e lugares escuros, criptas de morcegos e anjos. Seria tão mais fácil se existissem as coisas simplesmente certas? Claro que não. A ironia é sermos sempre mais patéticos, quanto mais perfeitos parecermos. Os santos são entediantes, por isso viram estátuas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De encontros furtivos, de se apaixonar milhões de vezes pelas mais diversas criaturas é que vive o poeta - sabe que o mundo inteiro caberia num único verso, e que uma só manhã preencheria um poema de mil folhas. O poeta entende a condição fundamental da existência: ele ama o torto. Quando diz: “&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o céu&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;”, o poeta sabe que não existirão livros, nem homens, nem linhas filosóficas, nem nada que se estenda além do território de sua frase.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;"Nós nunca nos realizamos. Somos dois abismos - um poço fitando o céu" é um aforismo de Fernando Pessoa (Bernardo Soares)&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-6859089748988168152?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/6859089748988168152/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=6859089748988168152' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6859089748988168152'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/6859089748988168152'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/04/o-aforista.html' title='O aforista'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-1709120275083202388</id><published>2007-03-21T00:32:00.001-03:00</published><updated>2010-02-11T01:17:01.504-02:00</updated><title type='text'>Solidão guardada</title><content type='html'>Eu não vou dizer - eu disse, porque já não precisa- daí me calei, e teve aquele tempo perturbador dos olhos; éramos bem grandes, ou pelo menos voávamos bem alto, porque dava para ver todo o resto lá embaixo, todo o mundo. Ela disse: se você levanta a mão, sente uma brisa fria tocar nos seus dedos, e flutuávamos despreocupados; as cores eram jovens, meio exageradas, os problemas todos se atrasavam, porque sob a língua existia um segredo dobrado em mil partes, e da língua escorria sub-segredos pela saliva - me beija, eu já beijei tanta gente hoje. De cima, as pessoas eram meio parecidas, quase irmãs. Dividíamos a música de um mesmo ipod, a melodia fazia uns desenhos geométricos estranhíssimos, como os desenhos que eu faço quando falo com as mãos. Os amigos só servem para as horas boas- ela falou, porque amigos para as horas ruins não são amigos, são vampiros. Eu não disse nada, porque não queria responder coisas fáceis, mas traguei fundo o meu cigarro, ela continuou: a verdade é que a Terra é a única divindade possível (e suas palavras saíam cheias de fumaça da boca), o tempo que sempre passa é a melhor das hipóteses de deus. Você diz coisas profundas, falei e enchi nossos copos de martini. A noite era fria, estávamos sentados no parapeito de um prédio no centro de São Paulo, tocava Moon River só no piano (e o piano só tovaca para nós); as poucas janelas despertas na madrugada nos faziam companhia, cada cigarro era uma nova oração. Da vida, como existia antes, já não se tinha notícias há muitas horas...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-1709120275083202388?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/1709120275083202388/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=1709120275083202388' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1709120275083202388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/1709120275083202388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/03/solido-guardada.html' title='Solidão guardada'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-8283472021101203120</id><published>2007-03-18T14:56:00.000-03:00</published><updated>2007-03-18T14:59:23.191-03:00</updated><title type='text'>Café e Areia</title><content type='html'>São Paulo me pede de volta, como uma ex-mulher arrependida, a cidade me ama, quer criar meus filhos. Mas o Rio enciumado me mostra a varanda com vista para o mar. O Rio diz: &lt;em&gt;aqui você é mais sozinho, mas sua solidão tem charme e pés na areia. Eu nunca te darei os amigos de lá, mas quem precisa de amigos quando se vive aqui?&lt;/em&gt; E eu penso que existe certa razão em tudo isso, mas São Paulo me adula com garrafas de vodka e sexo bom, diz: &lt;em&gt;o seu bronzeado te deixou mais bonito, mas eu me lembro quando sentávamos à tarde para tomar um café e falar de cinema.&lt;/em&gt; E eu vivo entre dois amores, me equilibrando e sobrevivendo aos truques dos dois. Seria possível estar aqui e ali para sempre? Porque se fosse, perdoe-me a sem-vergonhice, eu manteria essas duas casas, e teria filhos de esposas distintas e virtudes opostas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-8283472021101203120?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/8283472021101203120/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=8283472021101203120' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8283472021101203120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/8283472021101203120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/03/caf-e-areia.html' title='Café e Areia'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-7323406084106791067</id><published>2007-02-08T16:32:00.001-02:00</published><updated>2010-06-27T15:04:06.242-03:00</updated><title type='text'>Em linhas tortas</title><content type='html'>Paco acordou pensando que tinha morrido e que o céu era um emaranhado de gente nua dormindo de pernas e braços trançados sobre o chão imundo de um apartamento em Barcelona. E o que deixava ainda mais parecido com o céu eram as garrafas de vinho tombadas, carreiras incompletas de cocaína e uma vitrola tocando Nina Simone há horas. Ele coçou os olhos, como faz um menino que não acredita no que vê, e não sabia muito bem como tinha chegado ali, porque acordava entre estranhos anjos caídos - alguns tão jovens e belos, outros com os olhos pintados de negro, e aquela tatuagem de coração cruzado com uma flecha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ocaso já se revelava entre as dobras das cortinas e fazia filetes de luz na atmosfera pesada dos milhões de cigarros apagados. Paco levantou-se e andou até a menina sentada sobre poltrona tão alta, que não lhe permitia tocar os pés no chão. Ela era a única criatura acordada naquele lugar, chupava um pirulito de cereja e cantarolava o refrão da música como se entendesse coisa alguma em inglês. Ele sentou-se numa cadeira ao seu lado, passou um tempo reparando nos seus intervalos – estava completamente nua, protegida por uma palidez virginal, como uma criança que se esconde do sexo no próprio sexo, a garota parecia saída da capa de um disco de Led Zeppelin. Paco não quis interrompê-la, porque ainda que ela não fizesse nada além de cantar, era um nada todo circunscrito, tumultuado, o espelho do nada. Mas foi ela quem disse: &lt;em&gt;sabe o que eu gosto em você?&lt;/em&gt; (depois abriu os olhos, deixou o pirulito em um cinzeiro e preparou uma raia de cocaína sobre o braço da sua poltrona) &lt;em&gt;é que dentre as coisas que você ama, não há nada que não ame profundamente.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Paco enrubesceu as bochechas. Já nem se lembrava mais de seus antigos escrúpulos. Esquivou-se incomodado pela garota e descansou os olhos sobre os corpos que ainda dormiam na sala. Tentou encontrar alguma lógica, procurou neles a sua própria lógica , um resto de coerência naquilo tudo, porque todo tipo de gente dormia ali, silhuetas indecifráveis acumuladas pelas beiradas do sono, e talvez porque ainda dormissem (e só por isso) estavam desarmados de qualquer esquema- eram mais leves porque não se explicavam. Paco teve medo que a garota voltasse a dizer coisas que lhe esquentassem as bochechas, então, colocou depressa um cigarro na boca, levantou-se, e com o cuidado de não pisar em ninguém, saiu pela porta do apartamento. Em menos de quinze minutos, já andava aliviado entre Barceloneta e o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade andava lilás e Paco, um só. E até onde alcançava a tarde, não haveria cor, nem excesso de zelo, nem altura, dinheiro, nem a mais singela história, nem ninguém que o fizesse deixar de ser só um. &lt;em&gt;Você dormiu com todos eles&lt;/em&gt;, poderia ter dito a garota, mas não disse. Paco saiu mais cedo e agora se sentia seguro bem longe do céu (&lt;em&gt;você estava bêbado e sussurrava coisas macias, e era tão patético e desesperado, que penetrava as unhas nas costas do primeiro que lhe desse um pouco mais de atenção&lt;/em&gt;). Paco andava rápido, o cheiro úmido das coisas do mar esfumaçava a paisagem, seus escrúpulos voltavam como refluxos amargos. Viu em sua mão esquerda anotações de uma caneta azul, mas já não podia ler o que estava escrito nela, talvez o nome de alguém, o telefone, a esperança vulgar de, quem sabe, um dia ser dois. Mas o azul suado se enveredava pelas linhas tortas, o futuro era ilegível a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paco sentou-se em um banco perto da praia. Estava exausto, ainda passeava com os dedos sobre caminhos azuis, quando um estranho sem rosto, facilitado pelo tamanho da noite, lhe assobiou a alguns passos dali. Paco levantou a cabeça, apertou os olhos tentando enxergar, acendeu outro cigarro e não demorou para seguir o estranho pelas ruas estreitas de Barceloneta. O homem entrou num prédio velho com cataventos e flores nas janelas, Paco subiu logo atrás dele. No terceiro andar do prédio, havia uma porta aberta. Dentro do apartamento, o barulho do chuveiro ligado e a brisa de um banho morno. Paco entrou, andou devagar até a porta do banheiro, o vidro do box estava embaçado; lá dentro, o homem sem rosto cantava com uma voz de barítono timbrada. Na toalha branca pendurada na porta, Paco viu bordada a letra K, e “K”, de tão pouco, era tudo que ele precisava saber.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-7323406084106791067?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/7323406084106791067/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=7323406084106791067' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7323406084106791067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/7323406084106791067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/02/em-linhas-tortas.html' title='Em linhas tortas'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-116939975705415996</id><published>2007-01-21T15:12:00.000-02:00</published><updated>2007-01-22T08:57:23.046-02:00</updated><title type='text'>Sublime</title><content type='html'>E então no meio da noite perguntou-lhe se era feliz. Como se fosse assim tão simples. Ela respondeu: &lt;em&gt;você sabe...,&lt;/em&gt; andou até a janela, suas unhas postiças cintilavam o estranho azul que fazia a noite e seus cílios enormes quase tocavam o céu, &lt;em&gt;a vida não é um filme,&lt;/em&gt; respondeu procurando na voz a lembrança da mulher noir. Ela era Sublime, não só de fato, mas de nome, era assim que a chamavam desde do tempo do pocket show às terças no antigo teatro do centro. O homem insistiu, queria mesmo saber o que não se pergunta a ninguém depois das onze, &lt;em&gt;é ou não é?, &lt;/em&gt;ela inclinou suave o pescoço para a direita, seus lábios vermelhos borrados de batom, o pó de arroz escondendo as marcas da pele; sob o vestido de gala, os seios de plástico, &lt;em&gt;se eu dissesse que sou feliz, você não entenderia porque toda noite eu desabo e choro. E se eu dissesse que não sou feliz, essa mulher não faria sentido, o tempo que eu levo em frente ao espelho, o cabelo, a boca, os olhos&lt;/em&gt;. E então, o homem que estava sentado levantou-se e encheu as duas taças de champanhe. Sublime deixava cair pequenos pedaços no carpete vermelho que brilhavam mais que as estrelas. O homem a abraçou por trás, ficou parado, apoiando o queixo sobre um de seus ombros. Sublime sorriu, sentiu-se protegida, esforçou-se para não chorar, mas sabia que as concessões da noite jamais sobreviviam aos primeiros caprichos da manhã.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-116939975705415996?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/116939975705415996/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=116939975705415996' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116939975705415996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116939975705415996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/01/sublime.html' title='Sublime'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-116826804937610484</id><published>2007-01-08T12:53:00.003-02:00</published><updated>2010-08-24T11:52:03.024-03:00</updated><title type='text'>Menina na Janela</title><content type='html'>&lt;h3 style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/h3&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Onde não há madeira nem tijolos, existe o vazio onde me ajeito, abraço os joelhos, apoio as costas, encosto a cabeça e deixo ficar. Sem compreender. Passo as tardes assim, se alguém me chama, finjo que não ouço. Do tempo em que estou à espreita dos homens, eu me tornei este lugar. O vão da parede branca e descascada da velha casa é igual a todos os outros vãos de todas as outras casas do mundo. Chama-se janela. Nesta, habita uma menina desgarrada, vestido de algodão cru bordado com finas flores, cabelos loiros embaraçados sobre ombros tão magros; na calçada lá embaixo passeia gente de toda espécie, meu coração partido em tijolos vermelhos e a alma que eu sei lá de que natureza é. Mas não é boa. Outro dia, vieram pedir para que eu não machucasse mais corações (o meu, que é de pedra), disseram: "o seu, que é de pedra, não me interessa, mas não seja mesquinha, menina, não cause nos outros a dor que você não pode sentir".&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sinto esta dor, mas sinto tanta falta. No buraco onde caibo entra vento vindo de todas as partes, mas dor não existe. Quero tatuar a janela nas minhas costas, um desenho simples: retângulo aberto num céu azul de poucas nuvens. Assim serei janela para dentro e para fora. Assim entenderão que onde dor não há ainda existe muita coisa. “&lt;em&gt;&lt;span style="font-style: normal;"&gt;A vida não pode ser só ver passar quem está de fora”&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;i style=""&gt;,&lt;/i&gt; resmunga mamãe lá da cozinha, mas é à noitinha quando me assalta a saudade de quem prometeu um dia chegar e mudar tudo, e mesmo que durasse só um dia, prometeu que seria mais fácil viver dali por diante, daí eu fico calada, mamãe traz meu prato e hoje eu janto aqui mesmo, como todas as noites, na vigília deste céu e deste chão.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, mamãe vem passar a mão nos meus cabelos, e eu reconheço o amor cansado entre os seus dedos, por alguns minutos, ela se demora num cafuné resignado. Não foi sempre assim, não fui eu sempre assim. Eu já guardei um desses diários de colecionar segredos. Eu era menina de roubar rosas e fazer planos bons. Mas numa madrugada qualquer, me desgarrei. O rebanho atravessava o campo, e tudo que eu mais queria era me extinguir, ver minguar nos meus olhos todo aquele alvoroço. Quando cheguei em casa, naquela manhã, sentei-me na janela e deixei que me despedaçasse em porções delicadas do nada. E não foi esforço tão imenso suportar o mundo nas costas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mamãe, enquanto me adula, conta que, antes de eu nascer, viveu nesta mesma rua, um canibal. Diz que não se tratava de canibal qualquer, desses das páginas policiais. Ela conta que "Pancho" só se alimentava da carne de quem ele amasse profundamente. Eis sua grande tragédia: quando amava, sentia incomodar no corpo fome tão incontrolável, que devorava pele, carne, ossos, alma. Daí chorava noites inteiras, como um lobo chora lambuzado em sangue. E pela cidade, seus lamentos ecoavam nas paredes das casas - um grito tão desesperado, que por noites se fazia impossível dormir. Até que um dia, cansado do próprio drama, recuado na natureza de sua fome, Pancho prometeu nunca mais se fartar de carne humana, prometeu nunca mais amar. Mudou-se para uma casinha isolada à beira do rio e ali viveu dezessete anos completamente só. A vida serena como uma paisagem de inverno. Pancho só pescava, lia livros, e a sua solidão era inofensiva à noite e às mulheres, a cidade dormia finalmente tranqüila: Pancho encontrara a sua janela.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas pela ironia dos opostos extremos, do outro lado da montanha, vivia Olívia, mulher que nunca havia sido amada por ninguém. Nem em todos os seus casamentos, nem na meia dúzia de seus amantes, Olívia sabia que amor de fato não tiveram por ela. E era dor tão insuportável aquela verdade triste, que Olívia desejou, um dia, ser amada pelo canibal, porque assim teria a certeza indubitável quando ele a olhasse com tanto amor, que salivasse de fome e gozo. Foi quando resolveu bater à sua porta. E depois, todas as tardes seguintes ela voltou levando presentes. Passaram-se meses: Pancho sem querer amar, Olívia preferindo a morte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da janela, que em princípio só se deflagra o instante, também se enxerga os trejeitos mais antigos do homem. Mamãe nem precisava dizer. É claro que um dia, esfomeado por tanto amor, Pancho devoraria Olívia. O amor sempre foi a loucura desta terra. Na janela, eu espero. Minha sina é ser este lugar; é ser toda fronteira - nem dentro nem fora, como num espaço lógico impossível. Não faço por mal e não faço por bem, não me lembro ao certo do que não me esqueci ainda; nunca tive o que sou inteira feita dele. Quando eu fizer a tatuagem nas minhas costas, ventará vento vindo de dentro de mim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-116826804937610484?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/116826804937610484/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=116826804937610484' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116826804937610484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116826804937610484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/01/menina-na-janela.html' title='Menina na Janela'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-116793080463631538</id><published>2007-01-04T15:10:00.000-02:00</published><updated>2007-01-05T15:23:52.726-02:00</updated><title type='text'>Repara</title><content type='html'>Olha como vivem esses desesperados. Repara como se contorcem em ojeriza enquanto beijam; como são altruístas e dissimulados, como fingem amar o mais louco amor e dão risadas altas e orgasmos desproporcionais. Seus elegantes cortejos são cheios de lamentos e sombras. Eles têm medo da solidão e abraçam qualquer possibilidade de saída. Pobres coitados já não enganam ninguém: a liberdade que procuravam é hoje a mais depravada prisão. E escuta o arredio de suas palavras bonitas; como encantam na maciez da voz, mas nunca convencem de fato. Toda beleza é cansada neles, o sorriso é uma noite fria. E espera para ver como amam esses desesperados, como tudo neles ecoa, como nada conforta a dureza de um domingo em suas companhias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-116793080463631538?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/116793080463631538/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=116793080463631538' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116793080463631538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116793080463631538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/01/repara.html' title='Repara'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-116783452746630666</id><published>2007-01-03T12:27:00.000-02:00</published><updated>2007-01-04T15:24:55.933-02:00</updated><title type='text'>Tão só</title><content type='html'>O tempo sempre invejou o meu humor. E é porque eu estou triste, que chove, chove, chove. Hoje, eu pintaria de cinza todas as outras cores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-116783452746630666?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/116783452746630666/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=116783452746630666' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116783452746630666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116783452746630666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/01/to-s.html' title='Tão só'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-116766553801079634</id><published>2007-01-01T13:23:00.001-02:00</published><updated>2010-10-05T15:39:51.369-03:00</updated><title type='text'>Vampiros não sabem morrer</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sete anos depois do fim do mundo, vagamente me pareço com um homem. Não existe nada que dura em mim por muito tempo: nem o amor, nem a mágoa. Os poucos amigos me visitam com freqüência, mas estar só também é bom. Eu me coloco de joelhos todas as noites e imploro aos deuses que me arranjem qualquer banalidade de brinquedo, porque sobreviver é bom, mas sobreviver a tudo é desumano.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-116766553801079634?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/116766553801079634/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=116766553801079634' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116766553801079634'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116766553801079634'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2007/01/vampiros-no-sabem-morrer.html' title='Vampiros não sabem morrer'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-116305425504576130</id><published>2006-11-09T04:35:00.003-02:00</published><updated>2010-10-05T15:40:23.720-03:00</updated><title type='text'>O Impostor</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/1600/bon??"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center;" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/320/bon%3F%3F%20definitivo.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Paco lambeu os dedos como quem comeu um doce, disse: &lt;em&gt;por hoje é só&lt;/em&gt;, subiu a calça e foi embora, sem um adeus, um aceno sequer. O apartamento ficava num prédio da Rua Avignon, no centro de Barcelona. Por dentro, até lembrava um velho casarão, com o cartaz de &lt;em&gt;Blow up&lt;/em&gt; pregado na parede, um daqueles banheiros de azulejos verde-água, sofá com almofadas encardidas, retratos de antigos amores sobre a televisão. Não havia passado sequer quarenta minutos desde que se conheceram no banco do metrô, e a verdade é que mal trocaram seus nomes, mas à esta hora, Paco descia a escadaria do prédio sem ranço de saudade e deixava para trás um homem inerte, desolado sob um lustre de cristais azuis, uma taça de vinho tinto na mão e uma cara de reticências eternas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando pisou na rua, ele assobiava uma música de Fito Paez. Na passagem estreita, estranhos passavam tão perto, que os cheiros resignados de um dia inteiro criavam coragem e o embriagavam. Ele parou para perguntar as horas, já passava das nove. Pediu fogo a uma puta das Ramblas e com o cigarro entre os dentes ainda cantou &lt;em&gt;Y así tan solo así dejaste ver tu corazón&lt;/em&gt;. Mas a puta chorava. Para arranhar o dia, a puta, enquanto lhe acendia o cigarro, chorava e dizia: &lt;em&gt;esta vida é uma merda&lt;/em&gt;. Paco deu um trago fundo no cigarro e se abateu numa ligeira vertigem, tirou-o da boca, pensou em dizer: &lt;em&gt;Você é uma puta. Quando eu paro todo dia para te pedir fogo, eu sei que peço a uma puta. Mas se agora você chora e se recente, se agora os seus motivos são nobres, o seu filho é doente e seu país, desgraçado, eu não vejo mais uma puta quando te olho. Eu vejo uma mulher feia, gorda e desajeitada. E reconheço no que antes era talento, simplesmente fome&lt;/em&gt;. Mas Paco não disse nada, a Puta chorava, e ele parecia se afogar no barato do seu cigarro. Quando voltou, era como se emergisse de um lago tranquilo e silencioso, o mundo era surdo dentro dos seus olhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E foi assim, em passos bailados, como se existisse uma dança intermitente entre cada passo seu, que ele abandonou a mulher chorando, subiu a Rambla, virou à esquerda na Carrer de Sant Pau e não demorou até chegar ao apartamento que alugava no Raval: um quarto-sala inabitável, se ainda coubesse paradoxos além de roupas sujas sobre o sofá. Paco entrou no apartamento, fez um cafuné no gato, deixou apenas a luz de um abajur acesa no canto da sala e imediatamente ligou o computador, seguindo a rotina de toda noite insone. Porque tudo o que ele queria era tanto e todos, uma coleção de gente, que toda noite, Paco se debruçava no teclado como um menino se debruça na janela para ver o céu. E passava horas, alto, baixo, rico, pobre, costas largas, esportista, intelectual. Daí marcava encontros com estranhos na mesa de um café do centro, sempre no outro dia às quatro da tarde, para chegar com meia hora de antecedência e assistir ao espetáculo que se anunciava e se repetia há séculos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aquela mulher deveria ser Sara. Ontem à noite, ela fez questão de ressaltar seus 1,55 de altura, porque não queria que Paco se desapontasse com sua mirrada figura. Chegou cinco minutos atrasada ao café, sentou-se no lugar exato onde ele determinara: “a segunda mesa da esquerda, mais próxima do canteiro de flores”. Ela trouxe o que pôde consigo: o rosto agridoce da professora universitária, armação vermelha de óculos redondos, um spray para alentar o hálito, um livro de Foucault. Parecia ansiosa ao chegar, suada nas axilas. Certificou-se mais uma vez o hálito, desprendeu e prendeu o cabelo algumas vezes, e em movimentos repetidos, como o de bater os dedos sobre a mesa, ou desfiar a costura da toalha, ela passaria a próxima hora e meia esperando. Porque Paco não viria nunca. Porque Paco já estava ali, sentado no banco da praça, observando de longe o que fazia nascer, aflorar, para viver tão breve instante e depois morrer ofegante à margem de olhos tão tristes. Sempre assim, a mesma espera cruel definhando os traços dos estranhos, apagando os ensaios do outro dia. A mais terrível solidão era aquela, porque se revelava a cada minuto maior, crescendo feito metástase das sombras, trepando nas árvores, tudo grande, sem um grito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E Paco não fazia por mal, mas costumava assistir às esquetes de solidão vespertina: cada estranho encenando a mesma cena a cada dia, à mesma hora. Ele era a sala cheia de um teatro antigo; era o público afoito pelas variações do nada, freqüências cansadas das mesmas ondas. Porque existiam diferentes razões no desespero, um homem peludo e careca não é uma senhora com saia de flores. Os enredos, os atos e as músicas variavam, mas ali, às quatro e meia da tarde, o ridículo e o mais belo era estar sempre só. Como se Paco desnudasse cada alma e, desnudas e envergonhadas, elas procurassem os maiores buracos que pudessem tapar. Mas os pudores da alma são sempre grandes demais para se cobrir com as mãos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Às cinco e meia da tarde, a cortina se fechava. Paco deixava o banco da praça e dava uma volta pela cidade, vasculhando as ruas sujas, perseguindo estranhos de sexo fácil. Mas naquele dia, contrariando a rotina,depois de uma hora e meia, Sara abriu um sorriso. Um homem de chapéu, que acabara de atravessar a rua, se aproximou de sua mesa. Os dois se abraçaram. Ele sentou-se, pediu um chá e acendeu um charuto. Paco estava assombrado: se aquela não era a mulher, se a espera não era por ele, onde estaria? Ele rastreou com olhos atentos cada centímetro do café. Em anos, nunca havia acontecido, onde estaria a mulher com quem passara a noite debruçado em mentiras no teclado? Ela não estava ali, além do casal que agora conversava, não existia mais ninguém. Transeuntes falavam alto, as pombas habitavam a praça, os telhados, os delírios; crianças se desgarravam dos pais e corriam para fazer nuvens de pombas no ar. Era todo um pesadelo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A poucos metros da praça, escondida detrás de uma árvore, uma menina cabelos cor de Merlot, olhos azuis, sapatinhos vermelhos de Dorothy, assistia ao improvável. E não importavam as razões que Paco tivesse, solto entre estranhos, completamente abandonado, era ele quem estava nu em palco aberto, e por hora e meia, a tarde se esforçara para compreender a sua mais secreta obscenidade. A menina tirou da boca o chiclete que mascava, pregou-o na árvore, como se marcasse um ponto na eternidade - tão infantil era o seu deleite que se via transbordar na superfície dos olhos. Era como se proferisse um feitiço, porque repetia mil vezes o mesmo verso. Foi embora dizendo:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal; "&gt;&lt;em&gt;“Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge. Mas finge sem fingimento. Nada esperas que em ti já não exista. Cada um consigo é triste. Tens sol se há sol, ramos se ramos busca. Sorte se a sorte é dada.”*&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;* “Estás só. Ninguém o sabe.” Ricardo Reis (Fernando Pessoa)&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-116305425504576130?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/116305425504576130/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=116305425504576130' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116305425504576130'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/116305425504576130'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/11/o-impostor_09.html' title='O Impostor'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-115812363323468766</id><published>2006-09-13T01:58:00.002-03:00</published><updated>2011-01-29T20:01:43.719-02:00</updated><title type='text'>Em trânsito</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma voz de declives, roucas voltas sinuosas me avisa que, por problemas diversos, os passageiros em trânsito para o Rio de Janeiro terão que esperar mais três horas em solo - três horas e eu devo viver aqui para sempre. Até pensei em ligar para alguém da velha cidade, dizer: &lt;em&gt;oi, tudo bem, faz uns bons anos que a gente não se encontra, eu estou em Congonhas de molho, talvez você quisesse passar aqui e tomar um café comigo&lt;/em&gt;, mas fiquei constrangido com a petulância, já não se faz sexo em banheiros de aeroportos. Seria apenas para passar o tempo, eu não fingiria melhores intenções, depois do sexo, tomaríamos um café, daí eu deixaria que surgisse um daqueles assuntos inacabados - é para isso que existem as pessoas, elas passam o tempo, pedem café, discutem as coisas durante horas, nada profundas, porque coisas profundas são rápidas de se dizer e não tomam as três horas que eu preciso que tomem. &lt;em&gt;Eu sei que não há nada que desculpe meu abandono&lt;/em&gt;, eu diria bem canastrão, pingando gotas de aspartame e remorso,&lt;em&gt; mas faz tanto tempo que eu fui embora, que já existe algo de pálido nas velhas lembranças&lt;/em&gt;, então eu colocaria um cigarro na boca, demoraria um tempo com ele ali apagado, depois me arrependeria e o devolveria à caixa, &lt;em&gt;foi quando eu pensei em você, lembrei-me de como era bom passar as tardes contigo&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: normal; "&gt;&lt;em&gt;O que o senhor deseja? Café com leite, por favor.&lt;/em&gt; Eu cruzo as pernas, a manchete do jornal tem um erro ortográfico pungente, sapatos velhos, o dia todo cinza e ainda faltam duas horas e quarenta e cinco minutos para o avião partir. Em algum momento até o final deste dia, irei cogitar se o amor não é a maior das invenções da indústria farmacêutica, por enquanto, me calo antes de alguma bobagem e fico assistindo ora desiludido, ora extremamente apaixonado a tudo que se movimenta, se transforma e se promete. Eu transito por entre planos, por entre hipóteses de mim mesmo, por corpos e malas feitas para muitos dias de viagem. E sei que a natureza é em si amoral, meus olhos é que são capciosos e olham para ela cheios de sentido. As pessoas passam com pressa de nada, fingem a pressa que deve ter as suas vidas devidamente ocupadas. Celulares impertinentes me perturbam, roupas bem cortadas me dão náusea, eu transito por entre horas de espera, por entre homens cansados, alguns moribundos na fila, fusos horários malditos, crianças chorando, leite, colo, a mulher que perdeu a viagem odeia todos os relógios do mundo. Daí me levanto para ir ao banheiro, preciso mijar urgentemente, mas esbarro neste sujeito desajeitado que corre e sente tanta saudade, que já nem sabe o nome de quem lhe espera, poderá ser qualquer um, contando que exista alguém, poderá ser até eu.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vem então a cena clichê, eu no espelho do banheiro olhando para minha própria imagem. De repente um surto existencial, talvez eu chore, talvez quebre o espelho com um murro e deixe sangrar a mão. Nada é tão banal como essa figura que me olha, nada é tão coadjuvante e corriqueiro. Existe certa dignidade em ser feio, certa condescendência em ser belo, mas assim normal é tão morno e equilibrado, é tão classe média, como alguém que atravessa a rua e hesita no meio, daí os carros passam, abre e fecha o sinal mil vezes e não se decide entre o voltar ou ir em frente, &lt;em&gt;você parece tanto com um amigo meu, nós já estudamos juntos?, você me lembra um cara da minha cidade, ontem eu pensei ter te visto na fila do cinema&lt;/em&gt;. Meus traumas são tão usuais que cabem nos livros, meus medos foram todos catalogados, minha altura é mediana, eu não sou magro nem gordo, nem completamente sóbrio, nem pateticamente embriagado, vivo hoje exilado no sofá da sala de um parente próximo, porque gosto de “não ter raízes”, mas minto constantemente, se algum sujeito desocupado averiguasse todos os meus assuntos, veria que na melhor das hipóteses, eu minto em oitenta por cento dos casos. Eu nunca fui mais que passageiro. Se eu tivesse uma analista, queria que se chamasse Camila.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao meu lado, um rapaz faz a barba. É deselegante fazer a barba no banheiro do aeroporto, e quando vejo sua nécessaire semi-aberta com um medicamento tarja preta lá dentro, quero lhe perguntar: &lt;em&gt;que remédio você toma?,&lt;/em&gt; mas ele me antecipa (talvez para me constranger, talvez para economizar): &lt;em&gt;Aropax. A substância é Paroxitina, ela tem a mesma eficiência da Fluoxetina, mas sem os efeitos indesejáveis.&lt;/em&gt; O que ele quis dizer foi: “eu sou triste, mas não estou broxa”. Eu sorrio com o canto dos olhos e saio do banheiro pensando que deve haver muita gente estranha neste mundo. Se o meu analista fosse homem, queria que se chamasse Flávio. Flávio seria um homem sério, quarenta e poucos anos, divorciado e amigo da ex-esposa. Ia me dizer lá pelas tantas: &lt;em&gt;na quarta-feira passada você me falou de um tal personagem&lt;/em&gt; (mas o que Flávio planeja fazer é desconstruir o tal personagem, o mesmo que planejaria Camila em sua mesma posição). Eu responderia com a voz de veludo vermelho que aprendi a fazer para dias assim: &lt;em&gt;o antigo dono deste corpo era chato, gordo e não fazia sexo. Ele morreu trinta quilos atrás&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" style="text-align: justify;"&gt;Duas horas não são menor eternidade do que três. Eu peço um outro café. Haverá no mundo quem possa me salvar sem a cafonice dos cavalos brancos, alguém que venha me buscar e me arraste pelos cabelos cidade adentro, me afaste deste lugar que perdeu o rumo desde o tempo em que éramos bons selvagens... o&lt;em&gt; seu café, senhor&lt;/em&gt;. Eu agradeço, daí percebo que a garçonete me olha diferente, não vai embora, ou quer gorjeta ou está flertando comigo, ela tem um sorriso sujo do batom vermelho e um lenço amarrado no pescoço, porque sabe-se que, em aeroportos, lenços amarrados no pescoço são sinal de alta civilidade. Mas aí percebo que ela me olha diferente, porque deixou respingar o café quente na minha roupa branca, &lt;em&gt;perdão, senhor, eu posso trazer um pano úmido para lhe limpar&lt;/em&gt;. Eu digo: r&lt;em&gt;oupa suja para gente suja,&lt;/em&gt; e solto um sorriso com a triste lembrança que esta frase me traz. Certa vez, no ano em que eu fui embora, me levaram a uma festa numa fábrica abandonada nas cercanias de Barcelona, e lá eu conheci toda classe de gente suja. Foi a última vez que me senti completamente em casa. Eles pintavam seus rostos de mágoas e encenavam a tragédia que deve ser nosso tempo. Quanto mais forte era o cheiro daquela gente, mais bonitos, tristes e trágicos. Pichavam as paredes com frases fáceis e não queriam dizer nada muito além do que já não diziam aquelas frases. A garçonete desculpa-se mais uma vez, pede licença e vai embora. &lt;/div&gt;&lt;div align="left" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" style="text-align: justify;"&gt;Eu olho para o fundo da xícara, o borrão do café revela vestígios que desenham a minha sorte. Deixo uns trocados sob o pires e vou andando até o vidro gigante, de onde se vê os aviões sendo lavados por uma chuva que não cessa há horas. Deve haver uma dimensão paralela onde coexistem os aeroportos, os hospitais e os dias de luto. As coisas não valem aqui o que valem lá fora, não respeitam a mesma lógica cá e lá. Estamos suspensos, equilibrados na vertigem de uma corda-bamba. Tudo prestes a acontecer, o relógio correndo as horas para trás, e eu trancado no parêntesis desta frase (nem tão cínico e triste, nem tão romântico e tolo).&lt;/div&gt;&lt;div align="left" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left" style="text-align: justify;"&gt;Camila toca o meu ombro. Eu não preciso me virar para saber que é ela, &lt;em&gt;a gente precisa conversar&lt;/em&gt;, diz com seu sotaque carioca e seu pigarro de enfisema pulmonar. Se Camila souber administrar o tempo, fará bom uso da hora e meia que me resta. Eu nunca vi o seu rosto, também nunca vi o de Flávio, mas os conheço muito bem. Camila gosta de fumar, bate as unhas no braço da poltrona quando está nervosa e adora Magritte. Engraçado eu me lembrar disso agora, porque se alguém me vir de costas aqui parado vendo a chuva cair sobre os homens e os telhados nessa janela gigante do aeroporto, e as janelas já são tantas: janelas de aviões partindo, janelas com vasos com flores, janelas imunológicas terríveis, se alguém me notar agora, verá um quadro imenso e vivo de Magritte. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-115812363323468766?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/115812363323468766/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=115812363323468766' title='9 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115812363323468766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115812363323468766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/09/em-trnsito.html' title='Em trânsito'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-115696159400541266</id><published>2006-08-30T15:05:00.000-03:00</published><updated>2006-09-08T14:00:53.156-03:00</updated><title type='text'>O primeiro verbo</title><content type='html'>Agosto foi todo um desespero, uma imensa preguiça de tudo, uma vontade de me afastar do bando e ir morrer na solidão das savanas, anônimo e só. Eu tive medo que pensassem de mim a branquidão das páginas, mas de fato pensariam o que era certo. A única palavra que me veio à cabeça não teve alento em sentido ou afeto, era o verbo que ninguém jamais conjugou no tempo. E deus, que saiu para comprar um maço de Marlboro Light e nunca mais voltou, levou meu caderninho de bolso, onde eu guardava todos os endereços para um dia, mais tarde, saber por onde andavam os pronomes retos, oblíquos e telepáticos...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-115696159400541266?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/115696159400541266/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=115696159400541266' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115696159400541266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115696159400541266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/08/o-primeiro-verbo.html' title='O primeiro verbo'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-115343514034315656</id><published>2006-07-20T19:38:00.001-03:00</published><updated>2010-07-27T14:36:25.374-03:00</updated><title type='text'>Depois das horas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para Lucy Andrews, Carlos Alberto Nina, Erik Jimenez e Stephan Möellman&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os dois cheiravam a cerveja e cigarro, não necessariamente nesta ordem, mas cheiravam, porque logo que subiram no trem, perceberam como os passageiros se revezavam entre nojo e misericórdia. &lt;em&gt;Você está bem?&lt;/em&gt; - perguntou ela, enquanto tirava algo de sua bolsa de tricô. &lt;em&gt;Eu não estou muito bem&lt;/em&gt; - respondeu ele, sentando-se em um dos lugares livres do vagão, apoiando a cabeça no encosto da poltrona, como se precisasse descansar um pouco. A verdade é que alguns anos mais tarde, quando manhãs como aquela fossem raras, quase impossíveis, o mesmo rapaz diria numa mesa de bar que existiu um lugar, em outubro, onde fora feliz por doze horas seguidas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela terminava de tirar da bolsa sua máquina fotográfica, &lt;em&gt;eu fiz fotos de nós dois&lt;/em&gt;, então se sentou na poltrona ao lado dele. Os dois encostaram as cabeças uma na outra e deixaram que as fotografias passassem sem pressa. O trem voltava para casa, as ruas todas, o trilho, as músicas tristes. As outras pessoas embarcadas iam para o trabalho ou para qualquer lugar que exigisse demasiado esforço, porque se equilibravam bravamente nas sacanagens do sono matinal. Eram de uma gente reta e com cheiro de colônia, dessa gente antes de qualquer coisa. Os dois, no fundo do trem, voltavam tortos, voltavam muito depois das horas, porque as horas entortam, como bem se sabe. Eles mesmos haviam anoitecidos retos e filhos de bons pais, mas pela manhã voltavam tortos e cheios de fotografias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A garota disse: &lt;em&gt;isso é tudo&lt;/em&gt;, desligou a máquina e a guardou de volta na bolsa de tricô azul, que havia comprado em uma de suas viagens pelo terceiro mundo, onde costumava purgar suas culpas e fazer safari. A paisagem na janela era seca e velha. Tão cinza, que borrava de outono tudo que passava por ela. Os dois se calaram, mesmo que antes já não dissessem quase nada. As cidadezinhas tão infelizes à beira da estrada passavam. E pensar que alguém nascera e se criara ali. Talvez não, talvez fossem cidades feitas para se ir embora. De tanto se ver o trem passar, ninguém durava até envelhecer - sempre órfãos, viúvos, fantasmas: um fluxo contínuo de mães em prantos, casas desfeitas, filhos pródigos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Escorados um no outro, os dois jovens estavam exaustos, mas estranhamente certos de que para aquele canto do mundo, não voltariam jamais. Não porque tivesse sido um erro, muito pelo contrário, mas de tão acertado seria um engano voltar e encontrar no horizonte a verdade estéril das coisas que apenas são no momento exato que deveriam ser, depois desfalecem, definham e morrem. Era até melhor que naquela tarde mesmo, um vento varresse e não restasse pedra ou testemunha, varresse até as fotografias, quem sabe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O rapaz tirou os olhos da janela, voltou-se para a garota, quis perguntar o seu nome, seu endereço, para que pudesse mandar uma carta, quem sabe perto do natal, mas recuou-se logo em seguida - resolveu salvá-la do constrangimento, afinal, em toda a vida, não havia escrito algo que valesse o real esforço da atenção. Com muita sorte, na próxima cidade, ela desceria e acenaria um adeus definitivo. Ele então não leria palavras na sua boca, não guardaria seu nome em guardanapo, não faria o menor sentido se chorasse. Seria o fim de tudo, e tudo é uma noite só. Depois, quando fosse a sua vez de desembarcar e aí chegasse em casa, dormisse e só acordasse no dia seguinte, já teria se esquecido, mas se por acaso não tivesse, não haveria mais nada que pudesse fazer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O trem parou de fato (as pessoas pensam mais rápido com o trem em movimento, com o trem parado, quase não se tinha pensamentos úteis). A garota se levantou, estendeu a mão, disse:  &lt;em&gt;quando eu chegar em casa, vou encontrar um cachorro com fome, um quarto inabitável e as louças sujas na pia, exatamente como quando as deixei. Foi muito bom te conhecer. &lt;/em&gt;O rapaz estendeu a mão em resposta, disse: “adeus”, e adeus foi tudo que disse. Ela saiu, ele a acompanhou com os olhos por um instante, até que se perdesse de vista na estação. O trem logo voltou a andar, e ele já desenhava coisas estranhas com seu hálito condensado no vidro da janela. A cena era, sem muito esforço, bonita.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Teve, inclusive, um momento na velha noite, que tudo parecia tão novo e forte, que ele pensou ser impossível suportar, como se a felicidade transbordasse e escorresse pelos seus ouvidos. O seu medo era que depois de experimentar as horas, não mais conseguisse se submeter à velha ordem das coisas. Mas estava enganado, sempre se pode com a velha ordem das coisas. E não se sabe se isso é bom ou ruim, mas não faz diferença alguma saber.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lá, onde há pouco embarcara, ninguém havia se traído uma única vez. Lá, tudo era infestado de luzes e outros aspectos das coisas banais. O amor, por exemplo, era simples. Daí, quando restavam apenas alguns gatos pingados, e se provava do doce azedo das esquinas escuras, o sol entrou pelas frestas e inundou as pupilas abertas, penetrou os poros; a noite resistindo, brava que era, correndo no sangue, a noite se debatendo, e o sol fazendo juízo, onde não era para ter existido juízo algum.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cada desenho que o rapaz fazia no vidro embaçado do trem, o mesmo sol tratava de apagar, transfigurava suas gaivotas em pterodátilos. As paisagens bucólicas minguavam fora e dentro do homem. Ele estava cansado de ter saudade das coisas, de toda gente que jamais voltaria a ver, das horas que já não seriam como haviam sido, dos lugares que não estariam nunca mais, ainda que ele voltasse cem vezes aos antigos lugares, os lugares teriam outras razões, porque aquelas razões primeiras eram perfumes antigos deixados abertos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-115343514034315656?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/115343514034315656/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=115343514034315656' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115343514034315656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115343514034315656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/07/depois-das-horas.html' title='Depois das horas'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-115144760338808075</id><published>2006-06-27T19:32:00.001-03:00</published><updated>2010-10-05T15:38:22.820-03:00</updated><title type='text'>Ana e os ausentes</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi de repente que Ana voltou para casa. Ela apareceu um dia lá pelas oito da noite, molhada de chuva, alguns anos mais velha. Eu fiquei espantado, porque já fazia algum tempo, uns bons anos, que Ana havia partido para sempre. Mamãe preferiu não fazer todo um alvoroço, só pediu para que eu carregasse sua mala até o antigo quarto, no fundo da casa, que desde então era meu, para que ela se acomodasse enfim e outra vez. Na hora, eu não me senti no direito de reclamar por território perdido, percebi nos lábios afoitos de mamãe, que não era um bom momento para chateações daquela natureza.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fui eu quem correu para abrir a porta quando a campainha soou, numa terça-feira, pouco depois das oito horas, e, depois de aberta, passaram-se alguns séculos até que eu me movesse do lugar. Ana chegou num vestido ensopado, desses com pequenas borboletas e margaridas azuis, quase não parecia a menina de antes, embora tentasse se parecer demais com ela: trazia os cabelos pintados do vermelho quando o sol se põe em Ipanema, uma marca ligeira de corte cicatrizado no lábio superior. De frágil e longilínea, voltou forte, de seios fartos, ainda mais distante e calada que costumava ser - se é que aquilo era possível. Parecia exausta, como alguém que vem de muito longe, por muito tempo, e não teve sequer a atenção em me abraçar. Passou por mim; eu, invisível, fiquei parado no mesmo lugar, completamente pasmado, em febre, de boca e olhos secos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos dias que se seguiram, eu não tive coragem para me dirigir a ela uma única vez. Pela casa, Ana não dizia nada, ou quase nada, vagava pelos corredores, arrastava os pés no chão como um fantasma errante, vez ou outra, sussurrando coisas miúdas, eu adoro esta música, o jardim está mais bonito agora. Na rede da varanda passava as suas tardes, sempre cantarolando um sambinha de frente para o mar. Na solidão de seus olhos cor de chuva, estava muito bem acompanhada. Era uma mulher. Desde o tempo em que a gente brincava de super-heróis, quando eu voava e soltava raios com as mãos, Ana sabia desaparecer sem deixar rastros; conversava com os ausentes no mais profundo silêncio. Na escola, diziam que eu tinha uma irmã maluca, e eu chorava no colo da mãe, jogava pedra neles, porque Ana não era louca, só porque ouvia coisas, porque sentia os rumores do entremundos - Ana tinha nascido assim, com estranha sensibilidade. Às vezes, ela atravessava as pessoas, viajava para além delas, ou se recolhia toda em pavor do que conspiravam as paredes, fala baixo, eles estão aqui, escondidos dentro das coisas. Eles vieram me buscar. Não deixe que me levem embora – ainda me lembro como apoiava o rosto entre seus joelhos, sentada no chão do pátio da escola, chorando abraçada às pernas, soluçando nervosa, com medo de que eles viessem e a levassem de nós.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto foi crescendo, Ana fez dos ausentes, seus únicos amigos – em pouco tempo, já não precisava de mais ninguém. No meio de uma conversa, era capaz de se calar, ficar quieta de repente - seus olhos abertos, intactos, como num lapso eterno, na décima primeira dimensão para além dos nossos corpos, e ao passar de dois ou três minutos, voltava, o que é que eu dizia? Nada - eu respondia, você não dizia nada. Mas eu  era feliz, quando Ana voltava.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na tarde de hoje, finalmente tomei coragem e perguntei à mãe, se eu podia levar Ana para subir a pedra do Arpoador, onde costumávamos nos esconder dos meninos da escola, quando nos perseguiam pelos quarteirões. Eu disse que, talvez, a lembrança fizesse bem a ela, e mamãe deixou sem muito hesitar. Saímos juntos, Ana e eu, subimos no ônibus em frente ao antigo colégio, descemos no Posto 8, seguimos andando até a pedra. Eu quis parar e comprar churros de doce de leite, ela disse que já não gostava mais. No fundo, o Arpoador era pretexto. Eu sentia uma curiosidade terrível, uma inveja inconfessável de Ana, eu queria saber o que tinha sido feito do seu tempo no exílio, porque enquanto éramos pequenos, e os amigos da mamãe especulavam sobre nossas vidas, sopravam por entre os dedos palavras de mau agouro, diziam que Ana era menina desenganada, e que eu, por outro lado, era um garoto de futuro certo. O bafo entre os dedos consolava mamãe, a deixava confiar que pelo menos um de seus filhos lhe havia restado são. Dos presságios acertados, Ana, num belo dia, deixou um recado na porta da geladeira e foi embora sem rumo ou grandes remorsos. Eu fiquei só, com o quarto dos fundos, com a tosse desenfreada de mamãe e os longos dias de espera. E chegaram os meses, os anos, as décadas e o futuro nem roçou a minha porta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje fez um dia de querer morrer, a coisa mais linda do mundo. Eu disse isso a Ana, no alto da pedra, ela me sorriu com os olhos. Ana reparava o céu que nos vigiava em êxtase, depois, quis arriscar uma batucada desengonçada, batendo com os dedos na pedra. Logo entendi que estava cercada de sua gente, porque falava coisas que eu não compreendia nem se quisesse muito compreender. Às vezes, quando se lembrava de mim, buscava a minha mão, com a sua mão gelada, você ainda vem aqui? Só quando tenho saudade - eu mentia. Mas grande parte do tempo, Ana preferia estar só, entre amigos. Era como se para ela, bastassem os ecos intermitentes de sua própria voz. O vento trançava os dedos entre seus cabelos e lambia tarado as suas orelhas. Ana e o vento copulavam despudorados diante de mim. Era como se ela fosse uma daquelas conchas que guardam para sempre o barulho do mar - ao mesmo tempo a música e a platéia. Eu, na espreita, assistia quieto para não ser descoberto. No fundo, eu também queria amigos que saíssem dos becos, dos bafos, das sombras, das partes claras e escuras de tudo que se esconde sob as superfícies. Eu queria um resto qualquer dos amigos de Ana, uma sobra que não lhe fizesse falta. Se eles me quisessem, eu também os quereria. Não os chamaria jamais de loucura ou demência. A verdade é que o Arpoador havia sido para mim sempre o mesmo mar, a mesma esquina, a mesma pedra muda e indiferente. Jamais, nem no mais longínquo instante da minha lembrança, eu havia compartilhado da lucidez de poder ouvi-los.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De repente, ao meu lado, no sobressalto desta tarde tranqüila, Ana se tornou pálida, da cor das paredes inquietas da sua infância. Respirava mais ofegante, em agonia, em susto, em asma. O que foi? O que te fizeram, Ana? Ela apertou a minha mão com a força que não deve existir em mãos de gente viva ou morta. Abriu os olhos, e eu pude ver através deles, o que não estava lá: Ana havia desaparecido. Então eu a esperei, como costumava fazer quando éramos jovens, mas o fim do dia pintava um retrato insólito: ironicamente, depois de tantos anos longe de casa, Ana partira sem voltar ainda agarrada à minha mão. Eu a procurava em seus olhos e só encontrava dois buracos negros e fundos, onde cabiam todas as minhas provas, as minhas dúvidas e a saudade da gente que não estava ou sequer esteve em momento algum. Seu corpo seguia imóvel, sentada na pedra ao meu lado, pouco antes do crepúsculo, quando o sol fraqueja e é ainda mais belo. O tempo escorregava, Ana parecia não querer chegar. O canto da sua voz não era mudo nem ensurdecedor, mas dizia as coisas de que eu tinha mais medo de ouvir - os detalhes calados sempre me deram maior pavor. Ana já não brincava de roda, já não atendia a qualquer dos meus chamados, ela existia simplesmente na eternidade dos murmúrios e no consolo dos ausentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu, então, a ajudei ficar de pé, e a conduzi pelo mesmo caminho de antes. Voltamos para casa caminhando, percorremos resignados o longo trajeto do luto. As pessoas nos olhavam, porque a mulher, que eu guiava pela mão, estava pálida e a passos lentos, como se fosse inteira feita de náuseas, mas não era ninguém. Quando mamãe abriu a porta, perguntou: O que aconteceu com ela? Eu não fiz caso, a levei até o quarto e a deitei na cama. O que eu trazia de volta para casa era um corpo pesado, um casulo vazio, abandonado e já sem utilidade. Ana já não vivia ali.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-115144760338808075?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/115144760338808075/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=115144760338808075' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115144760338808075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115144760338808075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/06/ana-e-os-ausentes.html' title='Ana e os ausentes'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-115041973227998102</id><published>2006-06-15T21:57:00.000-03:00</published><updated>2006-07-17T14:26:13.356-03:00</updated><title type='text'>Ontem foi sempre assim</title><content type='html'>Sempre finjo surpresa, quando ouço o seu nome pela primeira vez. E não será a última. Você, que teve vários nomes, ainda terá milhões de outros novos. Tudo que eu fiz, ontem, foi te ver finalmente e mais uma vez. Ontem foi sempre assim: eu e seus pedaços largados na areia - eu mesmo os havia deixado ali, para depois encontrá-los e reuni-los com mais tempo e cola. Fui eu quem te criou, criatura, fui eu quem te confundiu entre os pobres mortais para depois te escapar pelos cantos dos olhos/dos espelhos quebrados: nos mil fragmentos que se estendem de uma mesma imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me lembro que você era a minha arte do tempo de criança - no meu tempo livre, eu te resgatava dos escombros das minhas idéias ociosas. Eu ia para a praia todos os dias de manhã para te espalhar, sempre só, perder a manhã te espalhando na areia, tomando água de coco, rindo sem dar vazão. E quando eu te ouvia da minha própria voz, era como se eu recitasse pequenos trechos da sua história muito antes dela existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando você veio chegando lá longe, eu logo reconheci no seu jeito de andar a pessoa que, até aquela hora, nunca tinha sido. Você é virtual, como tudo que existe realmente; se fez de um mosaico das minhas noites insones, das teorias sujas nas velhas metrópoles, da mais indelicada solidão. Porque se existe um solitário guardado em cada luz acesa após a meia-noite, eu sempre fui um deles e sempre coube a você, estranho, se apertar entre as linhas dos meus textos da madrugada, todo retalhos, códigos, signos, intervalos de tempo; ser do jeito que eu quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até ontem, eu esquecia seus rascunhos jogados nos bancos dos ônibus, nas filas dos supermercados, pegava carona, encostava minha cabeça no vidro do carro, te deixava existir lá fora na estrada, completamente livre de mim, apegado aos meus caprichos mais tolos, mas ainda assim: prisioneiro livre - lá no mar, nas pessoas passando apressadas nas ruas, na gaita de um blues, nas curvas de Copacabana. Daí, de uma hora para outra,você resolveu se batizar. Chegou com rosto, olhos, boca, nariz e gênio forte; informou endereço fixo e telefone celular. E me tratou como um piolho das barbas de Platão. Depois, foi virando miragem, se desfazendo de novo na areia, mas por alguns minutos, eu te achei, você me achou, mas tudo muito rápido. No tempo de um trovão, sei que já não nos achávamos mais.&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-115041973227998102?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/115041973227998102/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=115041973227998102' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115041973227998102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115041973227998102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/06/ontem-foi-sempre-assim.html' title='Ontem foi sempre assim'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-115017226693709308</id><published>2006-06-13T01:16:00.000-03:00</published><updated>2006-08-02T14:46:45.153-03:00</updated><title type='text'>Dos olhos do Leblon</title><content type='html'>Quando me encontraram, eu estava na sarjeta, bêbado, inconsolável na frente de um bar. A chuva tinha lavado as ruas de Ipanema noite adentro. Colocaram-me num carro, disseram: leva para casa, ele não está bem. Alguém sintonizou Aimee Mann no rádio e achou conveniente para a ocasião. Eu lembro que o Rio estava debaixo d’água, sem trocadilho fácil, tudo era água, o que escorria dos olhos, do Leblon, dos cabelos. Eu nem sei se chorei. Depois me puseram numa cama e eu dormi de sapatos. Acordei no meio da noite como se estivesse faltando alguém, mas eu não tinha ninguém para faltar. A casa estava escura, toda apagada. Na penumbra, eu não reconheci as fotos da parede. Onde é que eu estou? Abri a janela, aos primeiros raios do dia, o Leblon já secava as suas lágrimas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-115017226693709308?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/115017226693709308/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=115017226693709308' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115017226693709308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/115017226693709308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/06/dos-olhos-do-leblon.html' title='Dos olhos do Leblon'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-114886891409388960</id><published>2006-05-28T23:08:00.000-03:00</published><updated>2006-06-19T21:23:13.476-03:00</updated><title type='text'>Não foi o diabo quem disse</title><content type='html'>Não é assim tão óbvio. Eu não te odeio, por me odiares. Eu te entendo apenas. Apenas quando sinto o cheiro desse mofo molhado nas paredes da tua casa, dos teus amores escondidos. Eu te vejo caminhar para trás, todo dia quando anoitece, eu te vejo mais longe, e reconheço no teu rosto, que nunca me olha, o pavor que sentes da vida. A vida te dá medo. É normal que tenhas medo, porque és rijo como pedra e mais antigo que o mais velho de teus ancestrais. Talvez, por isso, em algum equivocado instante, eu tenha querido te impedir do vexame público das mentiras mal contadas. Mas eu não tinha o direito, mesmo sabendo que tudo em ti era compresso e longínquo, que os pudores na tua língua de tarde eram o fracasso do teu beijo à noite, eu não tinha o direito de querer te salvar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste dia em que começaste a me odiar, começaste a me conhecer de fato, mas me amar não seria tão bom, se me odiar não fosse tão mais fácil. Agora escuta: eu não sou homem de penumbra, nem gosto de lugares meio iluminados. Não sentirei ódio de ti, mas não serei bom o bastante para te perdoar tão cedo, porque ainda és tu todo o oposto do que eu respeito nos homens, te tornaste o vazio desesperado de uma noite de lua, quando chora o lobo lá longe com a vergonha que sente de nós (e a vergonha nunca é pelos motivos que parece).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu existirei por ti. Eu te prometo, homem, que em cada dia torto, existirá em mim: tu e eu e todos os outros. E terei paixão maior pelos teus pecados negados com maior veemência. Por agora, gozarei com a tua mentira e dormirei em paz com os teus tormentos. E confesso que tudo que eu fizer não será inteiramente por mal, mas eu não nego um vil prazer na maldade. E talvez leve séculos para que me perdoes também, porque se nossos caminhos não são os mesmos, a mesma estrada tem curvas reversas. Hoje, prefiro confiar nas idéias claras dos nossos tataranetos, mas confio porque sou ingênuo, sei que tataranetos também traem tataravôs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu ando meio desajeitado, esbarrando nas coisas, é porque este não é o meu lugar. Mas tu, homem, segues sendo teu segredo em qualquer lugar que te escondas. Tu és teu ridículo mesmo depois de escorre-lo pelos ladrilhos dos banheiros imundos. Tu e teus inimigos copulam diariamente sobre mesas bem postas, porque tu és fraco como um pedaço de carne. E quando choras, quando rezas à noite e choras pelas mazelas do mundo, és ainda mais patético que teu deus agonizante e eterno na parede.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-114886891409388960?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/114886891409388960/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=114886891409388960' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114886891409388960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114886891409388960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/05/no-foi-o-diabo-quem-disse.html' title='Não foi o diabo quem disse'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-114406590952473658</id><published>2006-04-03T09:02:00.000-03:00</published><updated>2007-07-16T19:33:18.602-03:00</updated><title type='text'>Na cor das coisas</title><content type='html'>Para Xavier Arola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/1600/Roberto%20grama.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/320/Roberto%20grama.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Eu amava esta rua, eu me sentava no chão sujo deste bulevar, quando voltava para casa, depois de acordar chapado na casa de algum estranho. Eu cantava qualquer coisa que me viesse à cabeça, eu era feliz, triste, extremamente instável. Vez ou outra, eu parava nesta esquina para parir uma idéia, ela me doía como num parto. Eu passava a mão no meu rosto, eu tomava conta de mim. Eu pegava o 39 para Barceloneta, eu deitava na areia da praia e lia Camus ou Caio Fernando Abreu, e eu sentia saudade de casa toda vez que tocavam bossa-nova em algum boteco do Born. Eu dizia que o Brasil não era só futebol e carnaval, porque eu sabia que o Brasil era, no fundo, um monte de gente sambando e jogando bola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu bebia sempre do copo de estranhos, eu provava tudo que me ofereciam, eu viajava alto, depois descia fundo no abismo dos próximos dias. Eu fazia sexo, nunca fazia amor. Eu lastimava a letargia da esquerda, eu desejava ser um jovem na greve de Paris, eu tinha raiva e medo da polícia, eu andava sem passaporte para que não soubessem que eu era ilegal. Eu ligava para o Brasil às duas da manhã, eu dizia para a minha mãe que estava tudo bem, quando realmente estava. Eu me apaixonava eternamente por pessoas e coisas, tinha conversas vagas, estúpidas, tardes enormes de domingo. Quando me abandonavam, eu formulava planos de vingança, quando não me abandonavam, eu as esquecia poucas semanas depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dormia em fábricas sujas e abandonadas, frequentava festas e segredos nos hotéis granfinos da cidade, mas gostava mesmo era de sentar num café no fim da tarde, para ver as pessoas passando e vivendo a vida fácil de uma cidade mansa. Eu tinha amigos milionários que pagavam a conta, eu tinha amigos quase sem um duro, que também pagavam a conta. Eu falava mais inglês, que espanhol e morava num apartamento com três gringos do norte da Europa. O lugar era sempre uma zona, cheio de copos, cinzeiros, roupas sujas, e algum viajante no sofá da sala, mas eu teimava em chamar de lar. Eu conhecia gente de passagem, gente para nunca mais. Eu voltava às quatro da manhã, caminhando pela Gran Via, e vivia o clichê do brasileiro classe-média impressionado pela tranquilidade urbana - ninguém me roubava, ninguém tentava me matar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu citava livros infantis para explicar linhas filosóficas, eu ouvia Belle and Sebastian para entrar ou sair de uma fossa. Eu não tinha dinheiro para comprar um ipod. O cheiro de urina quente me embriagava nos becos escuros do Raval, eu admirava a beleza torta dos cortiços de luxo, os artistas sem arte, as roupas secando na janela. Eu prometia uma vida saudável para semana seguinte, prometia ficar sóbrio o máximo de tempo possível, eu malhava e corria na esteira da academia, fazia meu muque na frente do espelho. Eu era forte, fraco, patético, mas acreditava que alguns cortes de cabelo deveriam ser tombados como patrimônios históricos da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me engajava nos direitos humanos, eu dizia que a Europa mantinha uma relação covarde e ambígua com os países pobres, daí, freqüentava as semanas de palestras do Centro Cultural e fazia o bom uso dos corredores, dos bancos dos carros, das sacadas dos apartamentos, da amnésia providencial do dia seguinte. Eu tinha os mais adoráveis amigos. Toda noite era pão com tomate e vinho tinto, e eu não me arrependia de quase nada. Se por acaso, eu estivesse extremamente melancólico, eu caminhava pela cidade sem rumo, falava sozinho como um louco e escrevia um relato no meu blog.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não fazia idéia do tempo, eu mergulhava nos olhos dos outros. Eu arriscava cada centímetro da minha lucidez. Eu era amoral, breve como um gole de champanhe. Eu andava completamente apaixonado pelas cidades perdidas em mim. E nunca me preocupava com epitáfios, nem cartas de despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;. . .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Agora são nove e vinte da manhã. Estou sentado no banco de uma praça. O presente é um céu azul que não sangra, nem cicatriza. Uma mulher me olha com piedade, ela tem pressa, passa correndo. O relógio existe agora, o relógio existe em tudo. Um senhor acende um cachimbo, o ônibus passa cheio, eu sinto o chão tremer com o metrô sob os meus pés. Eu lembro de que vou embora, em dez dias eu subo num avião e parto daqui. Das hipóteses prováveis, nenhuma me agrada ou me dá medo: se o avião cair no Atlântico, eu terei morrido aos 24 anos, oito meses e vinte dias; se o avião pousar em São Paulo, eu terei provado que o tempo se torce como parafuso, gira sobre si mesmo, mas não se repete exatamente. Mas o presente engole cada instante e suas hipóteses. O presente é indiferente aos outros tempos, porque só ele existe de fato. O passado é o grande capricho da memória, o futuro é um menino pidão. Na sua mais profunda solidão, o presente vibra na cor das coisas, o presente faz tic tac.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-114406590952473658?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/114406590952473658/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=114406590952473658' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114406590952473658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114406590952473658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/04/na-cor-das-coisas.html' title='Na cor das coisas'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-114289256048963230</id><published>2006-03-20T19:08:00.000-03:00</published><updated>2007-03-19T11:35:55.723-03:00</updated><title type='text'>Mamãe morreu de desgosto</title><content type='html'>Era uma sexta-feira, dessas que papai trazia comida de fora e dava folga para a empregada. Mamãe disse que fazia tempo que não sentávamos todos juntos, só nós cinco, para jantarmos e falarmos da nossas vidas. Então seguimos o sentido anti-horário. Primeiro falou papai, contou que tinha novo emprego, que, quem sabe, trocaria de carro até o final do ano, que pensava em correr na maratona dos médicos em outubro, também disse que o filé estava um pouco mal-passado, mas que como o molho madeira estava delicioso, compensava um pouco o gosto da carne crua. Mamãe concordou sobre o molho, disse que tinha sido promovida no trabalho, que agora teria que viajar mais, que os impostos ficavam com quase a metade do que ganhava, e que aquilo era um absurdo; perguntou quem é que tinha deixado o banheiro naquele estado deplorável, disse que parecia um banheiro de rodoviária, depois se conteve e contou uma piada que havia ouvido no escritório. Falou meu irmão do meio, fez todo mundo quase morrer de tanto rir, quando imitou um colega de sala, andou pela sala fazendo o jeito que ele teria de mancar e falar engraçado. Depois falou meu irmão caçula, e papai brilhou os olhos de orgulho - não teria tido, nem na ficção, uma semana tão espetacular como a dele, cheia de mulheres e perseguições de helicóptero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para fechar o relógio e o sentido das coisas, falaria eu, mas eu ainda mastigava um último pedaço de carne. Mamãe disse: “ deixe de bobagem e conte exatamente como foi seu dia, você sempre se esquiva com um pedaço de carne na boca”. Eu olhei sem graça para a mesa. Depois de engolir o pedaço de carne mal passada, parei por um instante reparando o meu prato, o resto daquele molho de carne, o sangue, as folhas da salada faziam um desenho abstrato, algo para pregar na parede e chamar de arte. Quando levantei os meus olhos, estavam assim os quatro parados, esperando que eu dissesse qualquer coisa. Eu disse com a voz bem baixa: “ bem, o meu dia foi bem normal”, e mamãe insistiu: "anda, a sua vida não pode ser assim tão monótona", então, eu tive a paciência de lembrar cada detalhe daquele dia e contei tudo. Acabei meia hora depois, dei um gole no vinho, olhei para os quatro: estavam completamente imóveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às dez e meia da noite, meu irmão caçula rasgou com uma faca de mesa seu próprio pescoço, com a profundidade do corte, abriu e espirrou como um suco de uva a sua jugular. Morreu de tanto sangrar, deitado com a cabeça no prato de carne. Às dez e trinta e cinco, meu irmão do meio armou a espingarda calibre doze, que papai escondia atrás do armário do quarto. Sentado na privada de um banheiro sujo, ele abriu a boca estourou a sua cabeça, seu cérebro e tudo que havia dentro, e fez uma lambança ainda maior num banheiro que já estava deplorável. Papai correu, subiu no sofá e saltou da janela do quinto andar, caiu sobre um muro de ferros retorcidos que cruzaram seu peito até aparecerem do outro lado, como se nascessem espontaneamente das suas costas. Mamãe teve mais classe, cuspiu educadamente em um guardanapo um pedaço de carne que ainda mastigava com dificuldade. Dobrou o guardanapo diversas vezes e o colocou ao lado do prato. Depois, lembro de ter dito: “então foi assim?”, aí deu um último suspiro, se levantou rumo a porta da cozinha, deu três passos, mas antes que chegasse a qualquer lugar, perdeu a firmeza das pernas, cambaleou e caiu morta no chão. Mais tarde, alguém disse que mamãe morreu de desgosto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-114289256048963230?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/114289256048963230/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=114289256048963230' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114289256048963230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114289256048963230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/03/mame-morreu-de-desgosto.html' title='Mamãe morreu de desgosto'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-114221674653698099</id><published>2006-03-12T23:25:00.000-03:00</published><updated>2007-07-16T19:37:58.214-03:00</updated><title type='text'>Quando não era amor</title><content type='html'>Para Diego Vivar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você tinha um sorriso que rasgava os quarteirões, que abria meu estômago em sede, quando não era amor. Eu lembro que fomos juntos para a praia e mal sabíamos nossos nomes (mas é que ainda não havia nome para o que era nosso, porque não era amor). E nos preocupávamos muito pouco com isso tudo e muito mais com o agrado do nosso perfume e com a barba especialmente mal feita. E o que íamos pensar de nós mesmos? Porque tudo era primeiro na primeira versão de sua história, e eu, feito bobo, tentava escapar das cores escondidas nos seus olhos. E enquanto me falava dos seus pais e dos seus cachorros feios, eles eram rostos sem traços nem forma, eram qualquer coisa que se perdoa, que se releva. Mesmo quando eu não concordei com seu partido político, e os seus discos de música eram uma merda; mesmo quando eu ri de seu ridículo, te respeitava mais, porque ainda não era amor. Naquele tempo, eu perdoava as suas coisas sujas, te completava nas minhas idéias e remendava seus silêncios sem mágoa. Eu dizia que era o "seu tempo", que as "pessoas precisam de espaço" .Quando ainda não havia nome para isso tudo, éramos largos como a tarde de verão, mas fazíamos na barriga o frio de março.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hoje estamos aqui dos dois lados da cama, cheios de recortes e fotografias. Hoje nos amamos para sempre, e acordamos cedo, e temos preguiça de nós. Quando você me olha, eu vejo o inverno de todo dia nublado, e eu sei que você me ama nesse inverno, eu acredito nesse inverno, mas é que todo amor tem saudade do que era, quando não era amor. Todo nome, se pudesse escolher, se calaria em silêncio e teria as mãos frias e suadas para sempre. Minhas mãos estão secas, eu conheço o seu corpo e os seus pais. E voltar àquela tarde de março para sentir de novo todo embaraço no seu riso parece impossível. Se não fosse, eu diria: “não te amo” só para te ver caminhar de novo por seus velhos becos escuros. Eu queria conhecer cada uma das nossas histórias pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você pegou a minha mão e disse que eu tinha a mão fria como a de um defunto, eu expliquei que eu já havia morrido há dezenas de anos atrás, e aí você contou que uma vez encontrou uma cadela na rua, e, de tão feia, a adotou e batizou: “princesa”, eu ri e falei que adorava esse cheiro de mar, e você pediu um café americano com chantilly, eu, uma coca-light com limão e gelo. E ficamos assim parados na eternidade de um flerte, e passaram-se horas sem que eu piscasse, porque não era amor. Não será a mesma coisa, quando esta noite eu disser: "eu não te amo mais", juntar as minhas roupas, os meus discos e ir embora. Não será como voltar para antes de tudo, antes do ranço, da preguiça, do beijo na testa, quando as pessoas ainda iam de moletom para a praia de Barceloneta, o sol baixava à tarde, e éramos suficientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, vou levar comigo aquela camisa verde, vou cortar o meu cabelo como era naquele retrato. Amanhã, vou sentar no mesmo lugar, e, se você passar por ali, por favor, não saiba o meu nome, nem diga que o meu gênio é ruim. Se quando me vir, mesmo assim, quiser se sentar, pergunte: “você está só?”, depois puxe uma cadeira e conte uma história tão estranha, que me faça morrer de rir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-114221674653698099?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/114221674653698099/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=114221674653698099' title='10 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114221674653698099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114221674653698099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/03/quando-no-era-amor.html' title='Quando não era amor'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-114052696466136348</id><published>2006-02-21T09:59:00.000-03:00</published><updated>2007-07-16T19:41:03.622-03:00</updated><title type='text'>Notas de um colapso</title><content type='html'>&lt;em&gt;Para Sandra Rodrigues&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;“Querida Sandra, a minha vida anda tranqüila em Barcelona, razoavelmente sem grandes surpresas, não mais como a vida dos velhos tempos”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;No Portal del Angel que tudo começou, enquanto eu tentava escrever uma carta de saudade ou desespero para uma velha amiga, parado entre centenas de pessoas que compravam, faziam planos, comentavam sobre as notícias de jornal, ou simplesmente se debruçavam sobre problemas cotidianos, amores, ódios, promoções de inverno, que eu pensei que somos todos como um esquema, e eu sabia que aquilo já haviam pensado de diversas maneiras, mas basicamente me senti no direito de pensar o que já haviam pensado antes. Somos todos um padrão que se repete, e à repetição sistemática deste padrão chamamos humanidade. E eu juro que me parecia autêntico, porque naquele momento, eu pensava o óbvio epifânico das coisas que passam mil vezes pela cabeça antes de fazerem qualquer sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Querida Sandra, a minha vida anda um pouco confusa, e isso não era um problema até ontem, porque exatamente por ser confusa, eu sentia que esta vida era minha.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Aí desisti da carta por um instante, comprei um sorvete de pistache. Eu tinha nos olhos o susto de uma revelação que já não me deixava mentir, sentei-me na calçada desconsertado. Foi quando me lembrei do robô, que o robô só merece piedade quando tem consciência de que é uma máquina, e como um robô, só tomamos consciência de nosso padrão quando algo se parte nele, quando falha o sistema, e esta fissura desorganiza a velha construção que, até que se recomponha de novo, deixa entrar luz , subjetiva o mundo exterior numa invasão da consciência do próprio sistema. Eu estava rachado, e do corte da minha cara não saía sangue. Quanto tempo eu conseguiria suportar este mundo em fissura sem sucumbir ao caos? Eu gritei: &lt;em&gt;pára!,&lt;/em&gt; no meio de Barcelona, as pessoas passando e eu sentado na calçada como uma criança mimada, tomando meu sorvete de pistache e vendo muito claramente que eu sonhava e obedecia a uma gramática (e não raramente me rebelava contra e pela mesma gramática). Era como se nesses poucos minutos, meu corpo tivesse suspendido a velha retórica e me deixado vulnerável à invasão de uma superconsciência, que é (toda ela) um nada insuportável. Eu gritava: &lt;em&gt;pára!,&lt;/em&gt; porque eu via os esqueletos caminhando pela rua sem carne nem alma, eu via as pessoas em raio-X, e via meu espetáculo por detrás de um palco escuro, enquanto eu interpretava a Sísifo rolando a sua pedra morro acima, fadado a sempre descer e subir. E a consciência era a minha tragédia, e eu deveria ser feliz nela, mas ao contrário, eu estava frágil porque me sentia aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Querida Sandra, eu não estou louco, prefiro pensar que não estou, mas borboletas saem da minha cabeça, emaranhadas entre os meus cabelos, como no conto do Caio que eu tanto gostava de ler.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E porque sempre fora caprichoso, quando gritei &lt;em&gt;pára!&lt;/em&gt; pela terceira vez, o mundo parou vibrante diante dos meus olhos, aí eu levantei da calçada, sorvete na mão, as pessoas estáticas com uma tela em &lt;em&gt;pause&lt;/em&gt;. Eram crianças, famílias, segredos sexuais, linhas filosóficas, movimentos migratórios, dialetos, cores, todos parados no pequeno intervalo que se abre entre cada vontade e cada ação. E eu andava entre eles, e mesmo assim parados eles se repetiam. Existia algo que tremia em cada solidão, como uma freqüência de ondas que emitia cada corpo inerte, e até seus medos podiam ser catalogados. Lembrei-me do professor, que me falava que todos os medos de um homem poderiam ser reduzidos a três: o medo de morrer, o medo de fracassar e o medo de enlouquecer, e que todos os outros medos eram pequenas variações destes três. E olhando para um rapaz, parado no exato instante em que se recuava para dar um soco na vitrine de uma loja, lembrei de uma época em que "eu" (em si) ainda não era uma simples variação dos meus medos. E foi exatamente aí, lambendo os dedos de pistache, que me ocorreu a hipótese de trair os meus filósofos pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Querida Sandra, teve uma vez em um parque, aquela chuva que lavou nossa tarde..."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele rapaz recuado em seu ódio era um rebelde, era assim que ele existia em si, que ele retornava a si mesmo. E em qualquer das projeções que eu fizesse dele, mesmo as mais otimistas, era ali mesmo quebrando aquela vitrine que ele deveria estar. Ele era o fractal de um universo todo coerente, que expandia o seu esquema desde o átomo até a via-láctea. Quando o garoto quebrasse aquela vitrine, não estaria simplesmente afirmando a lógica da sua natureza, estaria afirmando a lógica de todo o universo, seria ele “rebelde”, mas seria ele também “sistema”, porque a rebeldia era, em si mesma, a consciência do sistema. E eu tive medo de continuar daquele jeito, vulnerável e consciente, imaginei por um instante que eu me inundava pelas frestas abertas. E prudente, disse baixinho: play, e o tempo me obedeceu e voltou a andar. Quando o vidro da vitrine explodiu, eu já estava do outro lado da rua.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;“ Querida Sandra, talvez esta carta seja a única prova de que eu verdadeiramente existi em algum tempo e algum lugar do mundo. Por favor, trate-a bem, coloque-a num vidro na parede de uma sala.”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E veio correndo a polícia, enquanto outros quatro rebeldes pichavam a frente dos prédios e trincavam o vidro dos bancos. Os pais se apressaram a esconder os olhos dos filhos, e alguns rebeldes fugiram entre as ruas estreitas da Cidade Velha, e outros foram presos e algemados. No meio de toda bagunça, enquanto os turistas alemães faziam uma cara de espanto, eu vi esta garota de costas, alheia a toda confusão, protegida na bolha sinfônica de seu i-pod. E ela tomava o mesmo sorvete que eu, tinha escolhido o mesmo sabor, e eu não pude deixar de pensar na evolução dos sabores de sorvete, que nos últimos anos estavam cada vez mais parecidos com a coisa em si, até que, quem sabe um dia, de tão parecido com o pistache, o sorvete de pistache voltaria a ser um pistache, mas o devaneio durou poucos segundos, porque era tanta gente que corria, tanta coisa que quebrava na rua, e o que eu fazia era fingir não ver o que dançava diante dos meus olhos. Não, o sorvete de pistache nunca seria um pistache, em algum momento transcenderia o pistache na vã esperança de representá-lo, e o que andava, o que sofria, o que brincava hora de destino hora de acaso não era um eu-descontente, era um sorvete de mim. E pela segunda vez, na tentativa de sobreviver, eu desejei trair os meus filósofos e afogar as suas idéias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Querida Sandra, está claro:eu sou o vício das circunstâncias que não me deixam fazer, eu sou a procura incessante de meios que me boicotem, se eu estou aqui agora, é porque eu me boicotei em cada segundo dos meus últimos anos.”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre me parecera mais razoável viver da viuvez , que do casamento. E então eu me cercava de poréns e leis inibidoras, este era o meu esquema. Eu quase fiz coisas, quase cheguei a lugares, quase convenci gente, quase fui o filho brilhante, depois quase fui o filho rebelde, mas aquela patética dança, ali, refletida no espelho das lojas, já não me era atraente, tinha perdido toda a graça de outrora. E é claro que naquele momento eu neguei os meus pais, claro que eu os odiei eternamente pelo que fizeram comigo; claro que eu odiei também cada um dos meus amigos, quando reconheci neles a dinâmica viciada dos meus desejos dormidos. E eu quis queimar meus livros de cabeceira, quis vomitar as baratas do meu armário. E lembrei de uma frase, que eu levava num caderno da escola e que eu dizia que era a frase mais bonita do mundo, muito antes de entendê-la, simplesmente pela sonoridade que me tocava: “O importante não é o que fizeram com o homem, mas o que ele faz do que fizeram com ele”, e ali naquele instante, eu também odiei Sartre por sempre haver estado em meus cadernos na antecipação irônica de minha triste condição, porque eu não fizera coisa alguma do que fizeram comigo, meus filósofos eram tarados que se masturbavam virados para o espelho e eu, o tolo que gozava com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“ Querida Sandra, depois de onze meses em Barcelona, meus tiques nervosos já são suficientemente complexos, obedecem à uma lógica geográfico-musical, como quando no verão eu voltava da praia e alargava o meu caminho só para passar na Rua Wellington, que dá para o muro do Zoológico, e ver aqueles trens do futuro deslizarem sobre um tapete de grama e a copa das árvores que cobrem com uma sombra verde toda a extensão da rua. Pois a melancolia da Rua Wellington e eu subindo devagar me faziam cantar “Because” dos Beatles. Difícil explicar, mas era só passar por ali, que de algum mundo dobrado dentro de minhas neuroses escapava os primeiros versos daquela música, because the world is round, it turns me on. E eu caminhava na Wellington, sempre deserta e verde, e o tempo parado e eu suportando aquela música mastigar o meu estômago por puro prazer”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Desejei profundamente que aquilo acabasse, cicatrizasse de vez no meu rosto, para que eu pudesse voltar aos velhos amigos. E aí, naquela mesma noite, estaríamos eu e mais três sentados no chão de um apartamento do Born, escorados e confusos entre nossos braços e pernas, como fios de cabelo embaraçados. “Éramos filhos órfãos das mesmas circunstâncias”, eu diria, e em terra estrangeira não haveria muita gente como aquela, que emprestava madrugadas inteiras a uma solidão a quatro. Mas saindo do Portal del Angel, na avenida da Catedral, enquanto eu caminhava em direção ao Born, tive a idéia de pegar uma carona na estrada e mentir qualquer direção, sem mágoa ou rancor de ninguém, pedir: “me leva daqui” e desaparecer no mundo.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;“Querida Sandra, faz mais ou menos cinco minutos que eu acordei com a cabeça escorada no vidro de um carro vermelho. Quando abri os olhos, vi a estrada se partindo em três, pedi para o motorista parar. Eu não faço a menor idéia de onde me trouxe o carro, mas estou tranqüilo. Existe um trevo na minha frente, como uma metáfora velha e insistente. Eu sinto nos braços o frio de fevereiro e a música que me vem à cabeça é Manhã de Carnaval.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-114052696466136348?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/114052696466136348/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=114052696466136348' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114052696466136348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114052696466136348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/02/notas-de-um-colapso.html' title='Notas de um colapso'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-114052431182046227</id><published>2006-02-21T09:16:00.000-03:00</published><updated>2006-02-21T09:28:31.746-03:00</updated><title type='text'>Eu era um menino</title><content type='html'>Eu era um menino, quando acordei com sede de madrugada, e havia um imenso buraco que separava meu quarto do resto da casa: uma rachadura tão funda no terra, que ia dos meus pés até quase tocar o Japão . E do outro lado do abismo, vi papai colhendo pimentas da sua horta. Eu gritei: “pai”, como eu gritava se algo doesse no meio da noite, mas ele estava tão longe e as pimentas tão vermelhas. Depois vi passar mamãe com um vestido rosa claro, estava bonita, cantava e roçava uma mão na outra como uma cigarra canta para fazer chover. Para o jantar chegaram meus irmãos e suas namoradas, e sentaram-se todos à mesa e casaram e fizeram filhos e construíram suas próprias casas - eu do outro lado do abismo, mas falavam coisas que eu já não entendia. Às vezes, quando tocava o telefone, mamãe corria para atender.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-114052431182046227?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/114052431182046227/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=114052431182046227' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114052431182046227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/114052431182046227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/02/eu-era-um-menino.html' title='Eu era um menino'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113985862693639975</id><published>2006-02-13T17:22:00.000-02:00</published><updated>2006-02-13T17:27:26.640-02:00</updated><title type='text'>Como um poeta vulgar</title><content type='html'>Como um poeta vulgar,&lt;br /&gt;hoje eu sou meu amor, minha dor e a saudade da minha terra&lt;br /&gt;Eu sou vadio, rimo a areia na música dos meus sapatos,&lt;br /&gt;eu sou outro lugar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113985862693639975?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113985862693639975/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113985862693639975' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113985862693639975'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113985862693639975'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/02/como-um-poeta-vulgar.html' title='Como um poeta vulgar'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113979301076036101</id><published>2006-02-12T23:07:00.000-02:00</published><updated>2007-07-16T19:38:43.940-03:00</updated><title type='text'>Lápide</title><content type='html'>Para Fernanda Magalhães&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma amiga de infância sempre diz que, para frustrar meus planos, assim que eu morrer tratará de colocar na lápide: &lt;em&gt;Foi um homem bom&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113979301076036101?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113979301076036101/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113979301076036101' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113979301076036101'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113979301076036101'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/02/lpide.html' title='Lápide'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113889097529931365</id><published>2006-02-02T12:35:00.000-02:00</published><updated>2007-07-16T19:40:14.226-03:00</updated><title type='text'>Cela me fait penser à Paris</title><content type='html'>Para Edson Maciel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisaria de mais tempo para revisar cada detalhe do seu plano. E embora naquela esteira levasse toda a eternidade até que sua mala finalmente aparecesse retardatária da corrida desde o avião, não seria eternidade suficiente para que revisasse as miudezas da questão. Levou a mão ao rosto para certificar de que a barba ainda estava lá, aqueles poucos pêlos loiros perdidos em sua morenice era um charme recém descoberto. Treinou de novo a risada sacana, mas depois teve vergonha quando a senhora de cabelos cinzas-quase-azuis franziu a testa, tentando entender o porque de felicidade tão imprópria. Tirou o pigarro da garganta, fez cara de sério, lembrou-se que estariam lá fora, mãe, pai, avós, cheios de abraços e perguntas tão vagas, que se não fosse absolutamente convincente e não começasse a se preocupar desde agora, poderiam pensar que era o mesmo menino de antes (e não era).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No tempo livre da poltrona, exatamente depois de molhar o croissant no café com leite, e não muito antes de o piloto avisar que as turbulências eram comuns nesta época do ano, pois no tempo livre antes das miseráveis que teriam vindo para acabar com a sua vida tão jovem, ele ensaiou confusões idiomáticas preciosas, &lt;em&gt;desculpa, é porque faz tempo que eu não falo português.&lt;/em&gt; E em algum momento do chá da tarde, quando ele já tivesse acomodado as suas malas no velho quarto de infância, e estivesse na sala tomano um café, em algum momento ele coçaria a barba embaixo do queixo com a ponta dos dedos, cruzaria as pernas mais apertadas e intelectuais e diria, como se resmungasse, mas por certo dizendo alto: "&lt;em&gt;Cela me fait penser à Paris"&lt;/em&gt;, depois acenderia um cigarro e deixaria a frase assim orfã, escorrendo pelos ouvidos desentendidos até quase pingar no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntou-se mais uma vez, como geralmente se perguntava em todos os aeroportos da sua vida, onde raios estava o dono daquela primeira mala, que dava uma, duas voltas antes que chegasse desajeitado e confuso, depois colocou um cigarro na boca e imediatamente o tirou, num movimento ligeiro de eu-quero-mas-sei-que- aqui-não-pode, &lt;em&gt;e a desgraçada que não atravessa aquela cortininha nunca&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era um homem diferente agora, ou parecia diferente, usava chapéu de palha e com os exercícios para a postura que vinha fazendo com bastante assiduidade, tinha crescido uns dois centímetros no mínimo. Deveriam perceber, seria até injusto se não comentassem nada. Certeza só é que fariam um daqueles churrascos entusiasmados, cheios de amor, comida e propostas para casar com a filha da Soninha amiga da sua mãe. Mas só a idéia de comer carne de novo, carne de verdade, sangrando a morte de uma vaca que realmente fora vaca e não uma pasta extraterrestre processada e congelada nos mundos subterrâneos que acomodam os supermercados, só essa idéia já compensava as previsões pessimistas para sua solteirice dos vinte e tantos anos, &lt;em&gt;coloca mais vinagrete e mandioca, tia Soninha.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E a esteira já estava cheia de malas: roxas, vermelhas, predominantemente marrons. E a dele, que também era marrom, nem sinal. E a velha de cabelos definitivamente azuis por este ângulo já abraçava um jovem que provavelmente era seu filho, porque sorria o mesmo sorriso de mostrar as gengivas, não tanto como a filha do Paulo Goulart, mas com bastante gengiva e saudade. Ele precisava se concentrar. Procurou no bolso um celular que lhe desse as horas e achou três e quinze demasiado cedo para o seu fuso europeu. Lembrou-se do dia em que desembarcara em Paris, aquela calça xadrez que ele achava o máximo, certo de que poderia se passar por um francês com o intensivo que fizera no cursinho da Lapa. E depois todas aquelas noites, aquelas reuniões no terraço do apartamento do Jorge, um chileno que tinha ficado rico vendendo pinturas da Cordilheira do Sal, &lt;em&gt;sim, essa história é mal contada&lt;/em&gt;, mas enfim, os convidados falando em línguas absurdas, dialetos, e ele perdido, tomando vodka com fanta limão e gelo, ouvindo blues. Pelo menos em uma dessas festas conheceria a Celine, que por quatro mil euros e um ano de trabalhos da faculdade, casou-se com ele, lhe deu os papéis e lhe ensinou a fumar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirou fundo mais uma vez, e desta vez teve a impressão de que a espera estava próxima do fim. Podia farejar sua mala à uma distância impressionante - com o tempo, havia adquirido o dom dos pressentimentos em salas de desembarque, que por certo não era tão útil quanto o dom dos pressentimentos nas salas de embarque, mas ainda assim aliviava um pouco o calor acima da nuca. Infalível: em dois segundos, sua mala já desfilava envergonhada. Ela era uma espécie de Rubens Barrichelo das malas. Ele a odiou, tirou-a da esteira com violência, quis maltratá-la. Virou-se rumo à saída, onde ficam aquelas senhoras dando gritinhos molhados, mas com dois passos, parou. Não estava pronto. Se pudesse, voltaria para o avião e depois mandaria um postal pedindo desculpas, &lt;em&gt;é que Paris nesta época do ano é impagável, mas sa&lt;/em&gt;bia que não era possível. &lt;em&gt;Por favor, onde é que tem um banheiro aqui dentro?&lt;/em&gt; Trancou-se em uma daquelas cabines multiuso dos banheiros de aeroporo: sexo, drogas, merda! Não poderia ser o mesmo, não depois de tantos livros e filmes e de tantas vezes que chorou ou vomitou às margens do Sena. Não teria sido em vão, andava tão francês ultimamente, que até para pensar, pensava oxítona, e o que tinha na frente dos seus olhos agora era que o Júnior do 6392 4333 por cinquenta reais batia uma e chupava em Humaitá. Alguém bateu na porta da cabine, atrapalhou a leitura. Ele ficou em silêncio, sentado sobre a proteção de papel higiênico que havia preparado para que não fosse infectado por uma daquelas doenças que dão na bunda quando se senta sem proteção, &lt;em&gt;tem alguém aí?&lt;/em&gt;. Aí ele respirou com as narinas bem abertas para evitar mais barulho. A pessoa desistiu, foi embora. No primeiro ano em Paris, tinha descoberto as diversas utilidades de uma cabine de banheiro, mas definitivamente era a primeira vez que as usava para pensar. Barba, chapéu, Albert Camus, seus dentes mais amarelos, a gargalhada levemente encurvada para trás, pernas cruzadas, Deleuze e o cigarro, sempre o cigarro para lhe fazer um blasé icorrigível. Tudo parecia correto, esperou um minutinho, apertou a descarga e abriu a porta. Não tinha mais ninguém no banheiro. Era ridículo, as pessoas deveriam estar pensando o que teria acontecido com ele , e ele ali, se fazendo de Tieta com medo do agreste, finalmente se decidiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caso seguisse a linha reta que traçara em pensamento desde do banheiro, chegaria até a saída em quarenta e sete passos ligeiros. Um...dois...três...quatro&lt;em&gt;,&lt;/em&gt; ele tremia as pernas feito criança com medo do chinelo da mãe&lt;em&gt;,&lt;/em&gt; cinco, seis&lt;em&gt;, &lt;/em&gt;uma puxada só, você me empresta esse livro? eu nunca li Cortázar. Aposto que você não conhece Clarice, coloca aquele som do outro dia, você é espanhol? não, sou brasileiro, e esse gosto amargo na saliva é normal? Pois esta é a tal da Elis que você sempre diz? eu vou comprar um chapéu, topas? Faz dois meses que não falo com o pessoal lá de casa, você tem um cigarro, dezoito, dezenove, vinte, se eu contar que fui assaltado em Barcelona o pessoal do Rio não vai acreditar, como se escreve seu nome? Eu te amo para sempre, vinte e nove, trinta, eu não quero mais porra, você só fode com as coisas, caralho, trinta e quatro, espera, vou comprar esse lencinho para a minha irmã, outro dia você falou que me amava, trinta e sete, quando passar pela imigração não faz cara de medo, você vai ter que ir para a Suíça e voltar, quarenta e três, A Celine vai me dar os papéis, alô, pai, consegui os papéis, quarenta e cinco, “Paname” é como os parisienses chamam Paris, Paname, eu não te amo mais, quarenta e seis, tem uma coisa ruim no meu estômago, eu nunca mais vou te esquecer, e nunca mais vou esquecer esta cidade que vejo da janela do meu quarto, quarenta e sete, acabou, eu quero ir para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta se abriu, eles estavam lá, pai, mãe, família. Pareciam mais velhos, menos entusiasmados, teve a impressão de ter dormido no filme e acordado sem entender quase nada. Ainda eram felizes. Imaginou ouvir alguma coisa, não disseram nada. Tentou coçar a barba uma última vez, não deu certo. Foi quando resolveu aproximar-se, tinha esquecido dos detalhes de seu plano, teve medo de fracassar. &lt;em&gt;Paname é como os paisienses chamam Paris&lt;/em&gt;, deitou o rosto no ombro da mãe e chorou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113889097529931365?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113889097529931365/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113889097529931365' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113889097529931365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113889097529931365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/02/cela-me-fait-penser-paris.html' title='Cela me fait penser à Paris'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113884259150540091</id><published>2006-02-01T23:04:00.000-02:00</published><updated>2006-02-01T23:09:51.506-02:00</updated><title type='text'>Sonso</title><content type='html'>Quando eu era pequeno, mamãe me chamava de &lt;em&gt;sonso&lt;/em&gt;. Dizia: "é o sonsinho da mamãe", com o amor que, eventualmente, uma mãe é capaz de sentir pela mais deplorável das criaturas. Ela chegava das festas com o meu pai e visitava nossos quartos com o fatídico beijo de boa-noite, e eu que nunca estava dormindo, fechava os olhos e fingia o sono pesado dos meus irmãos. Mas antes que ela me beijasse, e só depois dos outros dois, ela sussurrava ao meu ouvido: "eu sei que o sonsinho da mamãe nunca está dormindo", depois beijava a minha testa e apagava a luz. E tudo o que eu mais queria na vida era dormir antes que eles chegassem em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Sonso&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;(Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa): &lt;/em&gt;aquele que finge não ter defeitos ou se faz de simplório, palerma, inocente, mas faz coisas reprováveis dissimuladamente ou pelas costas; manhoso, dissimulado, santo do pau oco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sinônimos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;como adj.s.m.: ver sinonímia de fingido; como adj.: ver antonímia de tolo&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113884259150540091?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113884259150540091/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113884259150540091' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113884259150540091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113884259150540091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/02/sonso.html' title='Sonso'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113703465689117560</id><published>2006-01-12T00:53:00.002-02:00</published><updated>2010-10-06T13:38:05.920-03:00</updated><title type='text'>Clarice, pomelo, coca-cola sem gás.</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/1600/mundobranco.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/320/mundobranco.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se eu abro os olhos, assim como estou estirado no sofá da sala, vejo uma parede branca insistir na minha frente. Se encosto o pé descalço nesta parede branca, ela é fria como a morte. Eu nunca gostei do natal para dizer a verdade, foi sempre a constatação indelicada do que já não estava. A casa ficou vazia pela maciez deste natal, foram todos embora, ficou só eu, pé na parede, vão eterno entre o céu e o chão. E agora, que o natal já passou faz umas duas horas, a segunda-feira chega mais elegante e despudorada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi mesmo muita sorte na vida eu nunca ter te encontrado, porque assim, te amei em cada outro encontro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aqui na sala faz hoje um silêncio pesado, está tão limpa, tão bem organizada, que o silêncio tem mais lugar para chegar e ficar. Daí vai me dando um medo deste silêncio abrir seus braços, como uma gota de sabão em um prato de azeite, e ir tomando a forma das coisas - escorrendo pela mesa, corrompendo o relógio na parede, que a qualquer segundo pode retroceder a um princípio de tudo, antes do tempo, a um anterior estéril das coisas, a uma volta ao que somos antes de sermos homens e macacos e consciência. Eu tenho medo deste lugar. Por longos anos, a loucura era o lado esperto da minha sanidade, mas na costatação de uma segunda-feira vazia, quando não se abre a boca, nem se mexe os olhos para não distrair o universo, não existe intervalo entre o louco e o são. É uma solidão tal, que as contradições, de tao sós, violentam a língua, comungam entre elas e se regridem a si mesmas. Os antônimos redutíveis uns aos outros, como nas línguas primitivas, e esse sou eu agora, recuado, desistente da retória de um corpo cansado, vivendo a vertigem daquele breve instante, em que toda grande civilização sucumbiu às inferiores.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E você sempre está, como um vulto que colore em sombra as minhas tardes, você é o fora vibrante nas janelas, é a morte e a intenção de tudo que existe em mim. Eu te amo agora como não amava antes, porque condenei nosso amor a uma atualidade extrema, antes do batizado inconsequente das coisas em nomes, olhos, bocas e almas. Você nao tem rosto. Nosso amor é a matéria escura da morte do que se faz toda a beleza que se conhece, todo gozo, toda vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando arranho a parede com os dedos do pé, eu desenho nela o inferno do filho que nao está (nem esteve em nenhum outro natal). Eu sou o que foi embora, o que só existe em ausência, o que teceu de memória um presente sempre igual, desde o tempo em que eles caçavam os seus mamutes e comíam para não morrerem de frio, eu já era pródigo, e se não fosse por você, meu amor, que me enganava e me mantinha cada dia enganado e longe de casa, teriam feito de mim um tipo fraco e cheio de esperança.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se eu te amo desse meu jeito torto é porque aqui, antes de Deus, só existe o perdão e meu pé que roça a parede fria. O mundo acabou faz duas horas e depois que o mundo acaba, a sala segue intacta, um copo de suco de pomelo sobre a mesa, a palavra riscada num livro de Clarice, uma coca-cola sem gás. E as velhas cidades reverberam no universo, São Paulo, Rio, Barcelona, elas existem sem mim, elas existem sem o nosso amor. E o grande orgasmo da matéria é não ser imprescindível, é poder morrer, porque a eternidade é estúpida e compacta como um diamante. Eu posso morrer a cada hora e sou feliz por isso. Se eu não me desculpo, é que já não tenho culpa de nada. Minha solidão é um flerte, gosto de quando me aplica na veia o caldo branco das ruas no inverno, e ando nas ruas, e canto as partes da música que ainda sei...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113703465689117560?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113703465689117560/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113703465689117560' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113703465689117560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113703465689117560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2006/01/clarice-pomelo-coca-cola-sem-gs.html' title='Clarice, pomelo, coca-cola sem gás.'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113322141154466924</id><published>2005-11-28T21:42:00.001-02:00</published><updated>2010-08-24T11:59:10.274-03:00</updated><title type='text'>Todos os homens são bons</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Há um mês, um trem que vinha de Paris foi parado na fronteira com a Espanha. Segundo me narrou um amigo, os estrangeiros foram tratados com aspereza e crueldade. Todos os imigrantes ilegais foram deportados. Eu estaria neste trem, mas por uma casualidade, naquela semana não pude ir a Paris. Esse é um conto que surgiu a partir desta situação, inspirado na chantagem que paira sobre a condiçao do estrangeiro ilegal na Europa&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc0000;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#66ffff;"&gt;Todos os homens são bons&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro homem entrou no trem, farda cinza, camisa devidamente guardada para dentro da calça, e olhou direto nos meus olhos como num flerte, depois desviou o olhar confuso, procurou no bolso qualquer coisa que não estava, coçou a barba embaixo do queixo, se recompôs. Depois entrou o segundo, cavanhaque ruivo, marcas de acne mal cicatrizadas no rosto, e acendeu um cigarro como um velho cowboy, mas não tinha nem maneiras nem tamanho para aquilo, daí tirou o catarro da garganta com a força de arranhar o sono de meio vagão, e reviveu as migalhas de sua dignidade perdida, quando o velho chinês ao meu lado acordou com um susto. &lt;em&gt;Senhor, passaporte em mãos, por favor&lt;/em&gt; - e eu, que quando pequeno nunca quis ser astronauta ou do corpo de bombeiros, imaginei que tipo de criança cresceria para se tornar agente da imigração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às cinco da manhã, a noite já pintava um azul seguro de que ia morrer, os dois homens de farda dividiam o último chiclete hortelã (cúmplices que eram), e reparando assim como mascavam, pareciam ter pressa de nós, fome de nós. O mais alto não era exatamente feio, com outro humor poderia ter saído de um filme de Fassbinder: mangas justas nos braços fortes, coração cruzado com uma flecha; o segundo tinha a expressão triste das pessoas que fazem as coisas sempre certas, e insinuava um sorriso escatológico toda vez que queria gritar; e gritava, gritava, até que o velho chinês, na imprecisão de sua língua nervosa, não se explicou o bastante para sobreviver aos seus caprichos manhosos, e teve que deixar o trem escoltado pela eloqüência ensurdecedora da lei. Restou o primeiro, armado, olhando para nós três que ainda restávamos impunes no vagão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Em algum lugar do mundo, um jovem pálido e virgem tocou ao piano Sonata ao Luar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já fazia frio os seus lábios semi-abertos; esse homem falaria alguma coisa a qualquer momento, mas esperava com respeito devoto que a última gota de orvalho percorresse o vidro da janela e estremecesse um pouco mais a minha espinha, e só depois encostou no ombro de um dos rapazes sentados à minha frente. Na rigidez de seu movimento foi quase delicado, pediu &lt;em&gt;por-favor-o-seu-passaporte&lt;/em&gt;, com aquela voz de fazer um jazz. Eu me arranjei na poltrona para espreitar as suas mentiras. Vi lá fora o velho chinês ajoelhado em frente ao outro agente, implorando feito cachorro covarde, chorando com seus olhos ainda mais apertados; e imaginei que talvez fosse a hora de alguém sacar uma arma e fuzilá-lo bem ali, pela memória de todo orgulho póstumo, mas o agente lá de fora, de cara triste e folhas mortas no chão, o levantou pelos braços e o levou para detrás das árvores cinzas, onde eu não pudesse ver a fila de velhos chineses sangrando pelo nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei a cortina com remorso. Aqui dentro, o rapaz havia acabado de entregar o seu passaporte ao homem de farda, e esperava que ele o folheasse com calma - abaixando o rosto na eternidade de seus caminhos de entrada e saída. Parecia inocente, seus olhos verdes eram vazios de segredos,&lt;em&gt; o senhor é americano?, &lt;/em&gt;mas ficou visivelmente insultado quando teve que pausar a faixa treze de seu ipod azul, “sim”. Saíram os dois, fecharam a porta, preferiram a intimidade reta do corredor, caminho estreito de sussurros e zíperes abertos. Eu tentei entender, mas não bastava a lógica fácil das minhas idéias, quando me pegassem pelo colarinho, quando maldissessem meu sobrenome ou cuspissem na minha cara, eu encenaria a minha desgraça o mais honrosamente possível, e depois contaria como eram fracos esses homens, como eram distantes de toda nobreza e bom hálito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o tempo passou e restávamos dois homens intactos, sem nome, sentados um em frente ao outro, abertos a qualquer sentença. Ele era um rapaz de vinte e poucos anos, de traços relutantes, apátrios, sem deus. E eu, curioso, passaria a vida inteira no esforço de entender o seu lugar, mas muito provavelmente não teria vindo de lugar algum. Me olhava como quem olha e atravessa, mas não insinuava maior reação que um suspiro aqui ou ali. De repente, pegou a maleta preta que levava junto ao chão e colocou em seu colo, respirou mais cínico por um segundo, afagou meu medo com um olhar sutil. Abriu a maleta, disse: &lt;em&gt;você tem medo de quê?&lt;/em&gt; e girou-a para mim, para que eu enxergasse bem de perto os seus segredos. A maleta era uma dessas que só existem em contos de mentira: preta, cenográfica, estava cheia de passaportes de cores e histórias diferentes, e como em um menu de possibilidades vis, cada passaporte trazia a minha foto colada à ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era dia, e um alívio escorreu pela mesma espinha covarde, mas o estrangeiro, como um vento que muda sempre de direção, fechou a maleta, certificou que o código a protegeria de ladrões e a colocou de volta ao chão. O mundo era um punhado de coisas sem sentido, pátrias desfeitas no estalo dos dedos, amores por um triz. Eu pensei: por quê? e perguntei: por quê?, mas a bondade do estranho não viria sem uma condição. Ele tocou a si mesmo na saliência sob a braguilha, enquanto me olhava calmamente, abriu o zíper com dois dedos sóbrios,  e, só então, sorriu para mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113322141154466924?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113322141154466924/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113322141154466924' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113322141154466924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113322141154466924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2005/11/todos-os-homens-so-bons.html' title='Todos os homens são bons'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113322125332445448</id><published>2005-11-28T21:38:00.000-02:00</published><updated>2006-02-02T00:04:36.070-02:00</updated><title type='text'>No tempo em que eu fui embora</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Crônica de um jovem desarmado&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(escrita um dia após o referendo sobre o desarmamento no Brasil)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por Roberto Vitorino, de Barcelona (24/10/2005)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lembro que quando eu baixei em Madrid, há sete meses exatamente, havia um bocado de gente se apertando na fila do desembarque. Gente simples, de contar o dinheiro com fome e usar terno cinza para andar de avião. E eu já meio que sabia o que esperava aquela gente: tardes inteiras para lembrar com saudade do tempo em que se fazia churrasco, da roda de samba, do mar, daquele mar que é muito mais mar. E o moleque com olhos assustados de não saber falar seu nome, quando trabalhasse no porto rasgando barriga de peixe em Barcelona, sentiria um aperto no peito toda vez que encontrasse nesse mar, que é menos mar, toda a orfandade e o vazio escuro do Mediterrâneo, sem rosas brancas nem oferendas para Iemanjá. E como em música de pescador, o moleque fecharia os olhos para gozar a saudade, porque no fundo sabia que era saudade do que estava mais dentro dele do que em qualquer outro lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de sete meses aqui, o Brasil vai se tornando naturalmente um holograma, um punhado de notícias na internet, uma caipirinha no domingo, feijão preto, decepção. Eu vi o governo se desmanchar na própria vaidade, na embriaguez quase clássica pelo poder. E tudo eu li pelos jornais ou por ligar à meia-noite para a minha mãe e perguntar: “Mas o que está acontecendo?” com aquela arrogância covarde que só têm os que já foram embora . E eu não podia acreditar que era tudo areia, que um vento morno tinha varrido as sereias e os castelos de Copacabana; e quando eu colecionava uns santinhos vermelhos no quintal da minha avó lá em mil novecentos e tantos, para depois distribuir nas ruas como criança que imita os pais, quando eu sonhava que eleição era igual a partida de futebol e, eu queria ganhar, mas sempre perdia, porque como no esporte eu nunca fui muito bom, o que eu queria mesmo era nunca ter que escrever essa carta hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil é um amador, uma criança mimada cheia de arestas e dias felizes, um filhote mal criado pela ditadura e pelos tempos dificeis, sem manejo com a liberdade que lhe deram, e a liberdade fanática é sempre um perigo, a democracia histérica é sempre um perigo. O Brasil não é a América, mas é o projeto torto de uma América selvagem, de um safari em si mesmo, o boteco em frente ao parque de diversões aberto para assuntos de existência e filosofia. E a filosofia de botequim fez a história recente desse país, enquanto um rebanho se embebedava e se afogava no copo raso das suas teorias políticas mais surpreendentes.Quando eu liguei ontem para o Brasil, me atendeu um homem bêbado, falando alto com outros homens bêbados sobre a complexa diferenca entre o Sim e o Não. E finalmente o Brasil havia atingido o mais emblemático de seus exercícios políticos recentes, debater sobre o abstrato absoluto com a mesma ferocidade e consistência de quando discutem quem é melhor: o verde ou o vermelho nos campos de futebol .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando mais tarde, os bem-intencionados procurarem no voto do povo uma "inteligência de rebanho", encontrarão travestido de insatisfção social uma "mensagem". E eles escreverão nos livros que o povo brasileiro, pobre, coitado e insatisfeito tinha uma mensagem para dar, que votar &lt;em&gt;Não&lt;/em&gt; era votar contra a mentira e a hipocrisia de um governo insuficiente e corrupto, que o direito de defender a vida e a propriedade é fundamental e anterior a qualquer referendo, que é quase biológico, quase um instinto humano, quase, quase que me engana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o rebanho é sempre burro, não interessa a inquestionável força que tenha, todo rebanho é pateticamente burro. Exatamente as mesmas pessoas, sob campanhas políticas distintas, seriam capazes de votar Sim ou Não, tanto que o cardume de peixes preguiçosos passeou por águas frias e mornas num período de poucas semanas, e entre a babaquice acéfala dos galãs de televisão (com toda aquela mentira sobre a “paz”, que não existe) e a campanha paranóica e convincente importada das fazendas do Texas, optou-se pelo cheiro de bosta nos calcanhares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O referendo nem deveria ter existido, porque a questão era ultrapassada no Brasil e na maioria dos países desenvolvidos (excetuando claro...), 80% das pessoas estavam de acordo que portar uma arma estava fora de cogitação segundo todas as pesquisas nas ruas, quando a pergunta era ainda virgem de tempero e espetáculo. Mas o lobby de um congresso de fazendeiros (competentes pastores de rebanho) , a idéia “bacana” de praticar mais uma vez a democracia, naquela que é a sua "expressão máxima": o voto, o dinheiro que movimentaria as campanhas milionarias (muito dinheiro), e um país já com abstinência de “cidadania”, com vontade de fingir de novo que podia mudar, empurraram com a barriga, ligaram os televisores, pregaram cartazes nas ruas e, claro ,foram para o bar, beberam, beberam, pediram uma saideira e depois beberam mais cinco até perderem de vez o rumo de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu liguei para Goiânia um dia depois, a vida já carregava o peso imenso de um dia qualquer. E algumas tias, que nunca na vida seguraram um revólver, tomavam um café com pão de queijo na sala de casa e se sentiam mais protegidas, porque agora os ladrões malvados saberiam que elas, mulheres armadas e perigosas, poderiam matar. No dia seguinte, nesse país que se castiga, como um fiel que se ajoelha em grãos de milho, que chicoteia as próprias chagas, a vida tinha a estranha sensação de banal. O povo pegava o mesmo trem na velha estação, e as coisas tinham mudado quase nada. Entre tira-gostos e conversas de bar, ainda eram racistas (embora carnavalescos), sexistas (embora apaixonados), homofóbicos (embora tolerantes), moralistas ( embora felizes). E o paradoxo, escreveria o bem intencionado, era a graça de um povo que só se entende assim. Então escuta esse samba e chama a mulata para dançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui hoje na Europa, pelos jornais, as matérias falavam de uma eleição de caráter duvidoso, com um sistema de escolha contra-intuitivo em que o sim era o dois e o não era o um, de uma multidão ignorante que se confundia com a falta de clareza da pergunta nas urnas. Os editoriais europeus estavam cheios de compaixão com a gente, como se dissessem: “eles votaram sem querer, pobres coitados, eles não sabiam o que estavam fazendo”. Pois não somos pobres coitados, somos o sincretismo do Não na vida cotidiana, somos todos o coletivo do Não, o vício do Não, a inteligência do Não. Somos Não quando acordamos, quando sentimos a vazia esperança no nosso samba. E toda criança quando olha para o céu e vê uma bala perdida deve fazer um pedido para o papai Noel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113322125332445448?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113322125332445448/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113322125332445448' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113322125332445448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113322125332445448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2005/11/no-tempo-em-que-eu-fui-embora.html' title='No tempo em que eu fui embora'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19400248.post-113322056445679034</id><published>2005-11-28T21:23:00.001-02:00</published><updated>2010-02-05T14:32:19.189-02:00</updated><title type='text'>En la ciudad</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/1600/nightripperfj93.1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/400/nightripperfj93.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/1600/nightripperfj93.0.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3699/1919/1600/nightripperfj93.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;(escrito originalmente em 18/10/2005)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Meu pai sempre diz, que se tudo der errado comigo, eu ainda poderei voltar para Goiânia e abrir o Bar Celona, como uma última tentativa de sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois meu jejum de relatos se acaba e se explica num emaranhado de meses confusos ou extremamente pacíficos. E quando Carrie Bradshaw é a filósofa moderna com maior credibilidade eu me pergunto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por que é tão estranho sentir-se em paz? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Barcelona não é a minha Manhattan. Definitivamente não seria em Barcelona que eu viveria os meus sonhos mais sujos, mas fato é que eu, menino de “frenesi e de caos”, encontrei pelos cantos a mais humana e anti-natural das invenções: a paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paz é um eterno domingo de tarde, é o sol se pondo num alaranjado tão quente que toca a grama verde e deixa família, cachorro e crianças mais parecidos com o céu. A paz é um não querer saber, é um não olhar para os lados, não querer olhar; a paz é a mentira mais bem contada em tempos de guerra. É o violino, o piquenique, o jardim e o amor sem ciúme. E se num filme, é o segundo que antecede a morte, na Europa, a paz é um lago perene de tranquilidade e linhas retas .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, come on baby, quando mamãe saía para trabalhar de manhã, me deixava um saquinho de biscoitos e um filme americano para me cuidar. Eu não acredito na paz, conheço a fragilidade das suas intenções. Nada pode continuar assim por tanto tempo, só com o canto de um pássaro rasgando a manhã, só com o riso contido de uma menina loira e virgem. A paz é o meu suspense diário, meu thriller psicológico sem efeitos especiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois quando o outono chega na Europa, as folhas não caem por poesia, caem por cansaço. O verão é uma dura performance para eles. Eu conheci gente da minha idade, que de tantos invernos, dava pena a paz nos seus olhos. Dizem por aqui que a felicidade é tropical, mas não se trata da minha piedade de sangue quente. Essa tristeza que anuncia as novas estações, que estremece de pudor e medo as mães escandinavas, também é um comboio de negros para o Marrocos saindo a cada dia pela manhã. É que para manter a paz é preciso lavar as ruas. A paz aqui é inseticida, atiséptico bucal, lixo dividido em cores e formas para depois reciclar e colocar de volta nas prateleiras - tudo extremamente organizado. E a ordem tem a crueldade sutil dos homens bons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos túneis subterrâneos que levam aos metrôs, campanhas oficiais desistimulam a direção alcoolizada. No cartaz: uma cadeira de rodas e um corredor branco numa foto vulgar: “O álcool te leva para bem longe”, diz e daí continua: “Você tem o que você gosta”. E eu gosto de parar o carro no alto da montanha, bêbado, para ver esse lago imenso, frio e parado; depois fantasiar um monstro submerso nele, que sobrevive a gerações calado. Não se move e não perturba as águas. E eu sou também esse lago e sou também esse monstro. Alguém acende um porro, alguém diz que embora Mozart seja a plenitude da música, a matemática de Bach é mais impressionante. Alguém ri, mas prefere Miles Davis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho saudade do caos. Mas fui ligeiramente cooptado pela vida em paz, pela agradável mentira de dormir de portas aberta, já que o mundo lá fora está longe ou sem visto de entrada. Meu exílio consentido é viagem alucinante em mim mesmo, mas não tem o charme dos exílios dos velhos poetas. Quando eu alimento os patos no Parque de La Ciutadela, vejo a Senhora Dalloway coversar sozinha naquela doce agonia em que vivem os sóbrios. É desses monólogos que eu faço a guerra. E a minha guerra é contra a paz, diferente de todas as outras, eu imagino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher dorme sobre o tapete verde, repousa sua cabeça na raíz robusta de uma árvore já quase sem folhas. Um menino, seu filho supõe-se daqui, pedala rápido um velocípede vermelho. A flores têm a cor que deveríam ter, como se antes de crescerem tivessem sido delicadamente retocadas por um artista de tempo vago. E o velocípede segue para longe até se perder de vista. E eu sempre espero o grito, todo dia, quando desço ao parque para ler sob alguma sombra fria, eu espero o grito de uma mãe desesperada, a cara suja de um bandido, mas nao tarda e o menininho volta, boca suja de chocolate, faz uma careta para mim. Eu penso então em todas as coisas em que se deve pensar, que o mundo é injusto, porque aquela tranquilidade é tão diferente do tempo em que subiram as grades da casa da minha avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Espanha também subiu o muro para seis metros na linha da fronteira para que os pretos de Marrocos nao venham incomodar mais, eu me consolo. E o limite entre o desenho animado e o filme de terror é tênue e frágil. Uma borboleta dança e pousa sobre capa do meu livro, Alice sai desajeitada de um buraco logo ao lado do meu. E eu olho para o céu, solto um sorriso e me espreguiço. Já está tarde, deixo o parque em passos lentos. Vou atravesar a rua. Ao meu lado, uma van parada e o barulho de um relógio suspeito. O sinal abre para mim. Um carro cruza violentamente o sinal vermelho, podia ter me matado, eu penso. Passou o motorista olhando -contato visual de dois segundos, perigoso. Ele tinha a barba mal feita e uma cicatriz no lado esquerdo do rosto. O carro segue, eu cruzo a faixa. Vou andando assim, ainda em passos lentos. Engraçado agora que vejo a borboleta em meu ombro, é azul, parece gostar de mim. Eu brinco com ela até meia estrada, depois ela voa, sei lá para onde. É outono agora. Traz um vento úmido para Barcelona. Vai chover.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19400248-113322056445679034?l=damnedtripper.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://damnedtripper.blogspot.com/feeds/113322056445679034/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19400248&amp;postID=113322056445679034' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113322056445679034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19400248/posts/default/113322056445679034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://damnedtripper.blogspot.com/2005/11/en-la-ciudad.html' title='En la ciudad'/><author><name>Roberto Vitorino</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05483571825370678504</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_97SqOBX-qxk/SiromPtQ77I/AAAAAAAAACY/BdsI6Dxwfto/S220/facebook+crop.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
